domingo, 3 de janeiro de 2016

365 dias com poesia, 03 de janeiro de 2016 -- A INFÂNCIA REDIMIDA

A INFÂNCIA REDIMIDA -- Lêdo Ivo

A alegria, crio-a agora neste poema.

Embora seja trágica e íntima da morte
a vida é um reino --- a vida é o nosso reino
não obstante o terror, o êxtase e o milagre.

Como te sonhei, Poesia! não como te sonharam...

Escondo-me no bosque da linguagem, corro em salas de espelhos.
Estou sempre ao alcance de tudo, cheio de orgulho
porque o Anjo me segue a qualquer parte.

Tenho um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia.
Maior, porém, era a beira da praia de minha cidade
onde, menino, inventei navios antes de tê-los visto.

Maior ainda era o mar
diante do qual todas as tardes eu recitava poemas,
festejando-o com os olhos rasos e às vezes sorrindo de
                                                                  paixão,
porque grande coisa é descobrir-se o mar, vê-lo existir no mundo.
Ó mar de minha infância, maior que o mar de Homero.

Brinco de esconder-me de Deus, compactuo com as fadas
e com este ar de jogral mantenho querelas com a morte.
Depois do outro lado, há sempre um novo outro lado a
                                                        conquistar-se...
Por isso te amo, Poesia, a ti que vens chamar-me para
                                               As califórnias da vida.
Não és senão um sonho de infância, um mar visto em palavras.


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