domingo, 31 de maio de 2015

Nossa música (nova música)

Nossa música

(Introdução falada)

Que a verdade seja dita
Pura, simples, derradeira e humilde
Que a verdade venha à tona
Dura, ríspida, amarga no fel
Verdadeira como deve ser a vida


simples mas precioso é a vida

entendo que o amor não é passageiro

signo do amor a melodia
canção que me mostra por inteiro


REFRÃO

E diga o que você quiser nesse exato momento:

AMOR!

ÓDIO!

URGÊNCIA!

AZUL!


AMOR!

ÓDIO!

URGÊNCIA!

VERMELHO!


AMOR!

ÓDIO!

URGÊNCIA!

DURO DESEJO!  X3


Rapte-me camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à toa
De um quasar pulsando lôa
Interestelar canoa X 2

Polícia para quem precisa
Polícia para quem precisa de polícia...

DURO DESEJO!  X3

Pés bambu (música nova)



Olhos sopros bocas sonhos
Pescoços rijos para os ventos que virão
Corpos sedentos e cansados
Pernas azuis
Pés bambu

Pés bambu
Pernas azuis
Pescoços rijos para os ventos que virão
Corpos sedentos e cansados
Sonho norte sexo sul

Pescoços rijos para os ventos que virão/que virão
Sonhos serenos e cansados
Sopro forte sexo sul 
Sexo sul sexo sul

Sonhos desejos que virão/que virão
Olhos serenos e cansados
Sexo azul pés bambu 

Pés bambu pés bambu

365 dias com poesia, 31 de maio de 2015 -- 500

500


...é preciso dizer tanta coisa...

a primeira que não há regra para ser poeta
lia absurdos
de que um poema não poderia começar com letras minúsculas que nunca poderia começar por reticências
que se não tivesse rimas era prosa
que se tivesse palavrão era troça
lia tanto absurdo
que não escrevia
aí, mais uma vez, a idade me ajudou
quando tive de começar a expurgar alguns sentimentos mal resolvidos
(isso também alguns críticos acham errado)
vi que não podem haver regras numa carreira de sentimento
sim
porque escrever poesia
não é uma carreira literária
apesar de utilizarmos palavras
que muitas vezes ganham novo sentido, ajudando a renovação da linguagem, dizem
esse não é o cerne da questão
o cerne da questão
é a exposição de sentimentos
experiências
momentos
que deixaram e deixam o poeta
perplexo
(um poema é o susto impresso do poeta!)
soltar o verbo
desanuviar o amplexo
e discutir até à exaustão
nossos dramas cotidianos
que aprendemos a fingir não existir
essa é a motivação da poesia
se vai ter valor teórico
como recriação da linguagem
se vai ser um novo patamar nas relações linguísticas
se vai trazer luz à nossa vã filosofia
são outros quinhentos... 

sábado, 30 de maio de 2015

sexta-feira, 29 de maio de 2015

365 dias com poesia, 29 de maio de 2015 -- cenário

cenário

pisamos no broto de feijão
pequena amostra da natureza
porque estamos desejando sonhar grande
do tamanho das árvores que de longe estão morrendo
por falta de chuva
por falta de pássaros
por falta de sabermos de que somos nós mesmos que estamos acabando com a natureza

ao desejá-la apenas como cenário

quinta-feira, 28 de maio de 2015

365 dias com poesia, 28 de maio de 2015 -- a menina

a menina


entre a solidão da dor e do amor
nasce
uma menina
a rima
linda
com os olhos do pai
e os lábios da mãe
chora de fome
como o pai escreve
de fome
o homem some com o medo e produz desejos 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

365 dias com poesia, 27 de maio de 2015 -- Canto II

Canto II

O pássaro canta porque necessita expressar-se para procriar
Não quer fazer bonito não treina o assobio
Apenas canta naturalmente canta para cativar o futuro
Essa nossa esperança


(O canto do artista não é canto é grito do texto suprimido pela tristeza da maldade da indiferença duma sociedade careta que ama os animais que não respondem...)

terça-feira, 26 de maio de 2015

365 dias com poesia, 26 de maio de 2015 -- infinito solo

infinito solo

Solo
Cello
Calma
Olhos envoltos em lágrimas

Silêncio
Lembranças
Areia bola
Infância

Joelhos doendo
Garganta doente
Dor de dente

Medo
Medo
Crescendo

Lua crescente
Olhos minguantes
Adulto pensante

Camisas com pingos
Corpo dolorido
Cérebro oprimido

Num dia lindo tudo será finito

Penso e frio sigo sorrindo sem graça...

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Iberê Camargo, em Iberê Camargo: As horas

Seria interessante se eu pudesse unir, no agora, o passado e o presente, tudo. Porque, na verdade, nós sempre perdemos, o passado fica para trás, é sucata, é coisa modificada, destruída, apodrecida -- isso é o passado. E nós estamos no presente, e na frente há sempre uma luz, nós sempre estamos caminhando. Agora, se pudesse o pintor unir essa coisa, esse passado, que eu buscava, como quando eu fazia aqueles "núcleos", como se eu mergulhasse as mãos na terra, como se eu quisesse reencontrar os meus brinquedos, os meus carretéis que estavam sepultados em meu pátio de terra batida. Assim, eu queria resgatá-los, trazê-los para o agora, seria interessante...Agora, eu não sei, começa a aparecer nos meus quadros essa coisa... esses fantasmas, o meu passado. Cessa o tempo, acaba. Não há mais passado, presente e futuro. Só o tempo, único. É muito estranho.

365 dias com poesia, 25 de maio de 2015 -- Quatro caras de Liverpool

Quatro caras de Liverpool

Aos Beatles, John, Paul, Ringo e Harrison

As coisas funcionam mais ou menos assim
Quando estou feliz ouço Paul
Quando estou triste ouço John
A alegria do Paul me esfria
A tristeza do John me aquece
Suas palavras passam a ser minhas, mesmo no pouco inglês que sei...
É como se eu fosse ele, ou melhor, ele fosse eu
E tivesse aproveitado toda fama para falar de amor
Paz

Como se tivesse aproveitado para falar de como poderíamos ter sido se não estivéssemos mais interessados em ouvir os Beatles do que saber quem eram aqueles quatro caras de Liverpool

domingo, 24 de maio de 2015

365 dias com poesia, 24 de maio de 2015 -- deserto azul

deserto azul

...em pedaços...

o passado vem em pedaços
imagens
preenchem o olhar vago
iludem pintando

o deserto de azul
o sol de carmim
a dó de sim 

sábado, 23 de maio de 2015

365 dias com poesia, 23 de maio de 2015 -- (Infinito desejo)

Trabalho o escuro no claro
Falo do falo das falácias
Das insuportáveis certezas faço troça
Traço uma macarronada
E arroto palavras
Arco com as conseqüências da graça
Espalho farpas...
(Pintando o sete e esculpindo o oito deitado...)


(Infinito desejo)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

365 dias com poesia, 22 de maio de 2015 -- Hino ao amor

Hino ao amor

À memória de Edit Piaf

O céu azul, testemunha
Renuncio a tudo
Pátria amigos solidão
Se seus olhos me pedirem amor
Renuncio e anuncio
Seremos serenos juntos
E sob a lua, inteiros
E sob o sol, desejos
E sob nosso olhar, hinos ao amor
Namorando a eternidade com a intensidade
De pais que se amam
De filhos que foram amados
De adultos, crianças crescidas com adultas feridas,

Curados pelo amor

quinta-feira, 21 de maio de 2015

365 dias com poesia, 21 de maio de 2015 -- solar

solar

A Luiz Souza


...e não há mais nada a dizer...

a não ser que...

por medo de morrer
se mata, se cala, se morre

entupimos nossos poros com inveja, calúnia, difamação
quando poderíamos inventar uma nova emoção

buscar uma estrela
alinhavar um poema
encontrar um novo sistema

solar 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

365 dias com poesia, 20 de maio de 2015 -- beiradorio

beiradorioAIberêCamargotododiadormimosevamosparaaterradonadadevezemquandoassombradaporsonhosquenosprovamqueconseguiremosquasenadaetododiaaoacordarmoscontinuamosnosperguntandoparaondevamosquandopassamos?

terça-feira, 19 de maio de 2015

365 dias com poesia, 19 de maio de 2015 -- Amém

Amém


um dia
um homem entenderá
a missão divina
de repartir o fruto
tendo antes carregado-o
então
a partir desse entendimento
conseguirá atingir um mínimo de sabedoria de mãe
para conseguir amar
antes
de conhecer quem 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

365 dias com poesia, 18 de maio de 2015 -- Urso II

Urso II

Baudelaire disse que é a infância reencontrada
Gullar diz que vem depois do susto
Picasso fala da dificuldade de ver no escuro
Mas acho que o artista
É o adulto que não se previne
E que depois do susto

Entrega a obra de arte como um urro do prazer por estar vivo

domingo, 17 de maio de 2015

365 dias com poesia, 17 de maio de 2015 -- Um Drummond

Um Drummond

eu queria ser azul
para lhe dar o mundo
sendo um blues
te daria todo o sofrimento do mundo
(um Drummond profundo)
todo o meu tudo seria só teu
no fundo do poço as moedas seriam nossos sorrisos
crianças crescidas
adultas feridas
cicatrizando ao pôr do sol
avermelhado de esperança


(doce sumo do fruto ilusão)

sábado, 16 de maio de 2015

365 dias com poesia, 16 de maio de 2015 -- inspiração II

inspiração II

Olhos anoitecem na escuridão de seus pensamentos torpes
Doces recordações são ilusões em corações desesperados
Apertados em nosso peito tantos desejos tantos desejos azuis
Suo ácido sulfúrico perfumado em gris
Sins suplantam os nãos que não esquecemos
Onde respiro e adormeço?

Onde consigo escutar a inspiração para expirar uma canção que tenha cheiro? 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Iberê Camargo, Escritos italianos

Os homens adormecem todas as noites de suas vidas. Não obstante, perguntam-se angustiados -- como se nunca tivessem experimentado o nada -- o que existirá quando não mais despertarem. (...) A verdade na boca de alguém que eles consideram louco não lhes serve. Mas como pode servir a palavra, quando não aproveitam nem as próprias experiências?

(Tradução de Eduardo Sterzi)

365 dias com poesia, 15 de maio de 2015 -- Moiras

Moiras

Vendo o último quadro “Solidão”, de Iberê Camargo

Tece
Segura
Corta
O artista tece segura e corta retira d-
Á vida (a)
Uma Solidão
Solidão azul sólida flor
Violeta simples mas preciosa
Planta colhe ceifa a roseira (em que somos rosas)
Signo espinho
Rimo espinhos
Rio espírito
Livre inseguro ingênuo
Tênue (des)ilusão
Pintada à exaustão
Botão de flor oferecido
Como obra d’arte
Vomito sinceridade
Azuis violetas negras

Três irmãs que me trazem a certeza do machado fim

quinta-feira, 14 de maio de 2015

365 dias com poesia, 14 de maio de 2015 -- príncipe do sublime

príncipe do sublime

Aos artistas plásticos

Se o belo é a tentativa a sério de ser considerado por todos como um colosso
Prefiro ser sublime como um risco num vidro dum copo de geléia simples e precioso
Tutano de osso de cachorro que late para as idiossincrasias utopias antigas levadas daqui por homens estranhos com ouros e pratas roubados portas arrombadas e descascadas de vida por que querer ser belo num mundo assim?

Prefiro ferir pintando um quadro com linhas tortas e sem cores determinadas inventadas a cada pincelada como a vida que segue desprevenida desde o seu princípio 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

365 dias com poesia, 13 de maio de 2015 -- um passarinho

um passarinho


apagado
pelo vento frio
uso os instintos
me acoberto em espinhos
ressentimentos brandos
secam momentos
passaram
passarão
um pássaro
bica
um grão
um passarinho

uma esperança, branda 

terça-feira, 12 de maio de 2015

segunda-feira, 11 de maio de 2015

365 dias com poesia, 11 de maio de 2015 -- super-heróis

super-heróis


ninguém percebe que o homem de ferro
é frágil no meio do peito?
que o super-homem cai de joelhos toda vez que pensa na kriptonita?
que o Batmam na verdade precisa de um menino prodígio?

simples assim: super-heróis somos nós
que sentimos tudo e continuamos no mundo enfrentando novas histórias 

domingo, 10 de maio de 2015

365 dias com poesia, 10 de maio de 2015 -- jardim botânico

jardim botânico

À memória de Bertha Plácido

Uma árvore faz mil fósforos
Possível nascimento da luz
Um fósforo pode queimar mil árvores
Extinção das sombras
Tão necessárias ao descanso de nossos olhos sem esperança
Espero tanto tanto tanto que me canso até da alegria
Em verdes vejo a fantasia sendo natureza alguém se foi alguém que me definiu e me deu
A saudade da fogueira, energia sem vaidade,

Procuro chorar escondido apenas porque quero esse momento como um hino ao amor verdadeiro um filho se vendo por inteiro no sorriso esperanço da mãe natureza

sábado, 9 de maio de 2015

365 dias com poesia, 09 de maio de 2015 -- A lagarta

A lagarta

Único animal que não pode amar a borboleta
Porque nunca irá vê-la
A lagarta sofre não só para amadurecer
Sofre por não poder ver
O poder da transformação

Sofre pelo sufoco de não (se) enxergar como verdadeiramente é ou será...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

quarta-feira, 6 de maio de 2015

365 dias com poesia, 06 de maio de 2015 -- Lugares-incomuns: rosa

Lugares-incomuns: rosa

Mudança de rosa (rota)
Rosa de colisão (rota)
Quem tem boca vai à Rosa (Roma)
Com a rosa entre as pernas (o rabo)

Rosa suja se lava em casa (roupa)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Pancetti, quadro. Poema: dezessete anos

dezessete anos

À memória de Fê

Irmão engraçado que a maioria ainda desconhece a força da ilusão
Todos juntos poderíamos sonhar um país
Mas não conseguimos nem estender as mãos
Num aperto frágil mas sincero
Não conseguimos mais ser sinceros porque queremos o que é do outro sem esforço

Ninguém gosta da força da descoberta no processo todos só querem o resultado corrido apertado em peitos cada vez mais juvenis engraçado que achávamos que éramos jovens mas hoje acho que éramos (e somos ainda) eternos na capacidade de amar mesmo sem nos tocar há mais de dezessete anos...

Pancetti, quadro. Poema: sabor

sabor

flor na flor, cor

cor na cor, incolor

dor na dor, indolor

Pancetti, quadro. Poema: machado

machado

 

rápido e indolor
um poema
é um machado
no caule de uma árvore de certezas


...e deixa marcas que podem ser chamadas obras de arte

Pancetti, quadro. Poema: Semente

Semente

toda vez
que sua sombra
me invade
faz de mim

árvore

Pancetti, quadro. Poema: Borboletra 2

Borboletra 2

aqui
é
escuro
luzes
me incomodam
o aperto
é
de certo modo necessário
um pingo numa letra
por vezes é um estuário
às vezes balanço
avanço
pensamentos
voam
e me aquecem
o som a sombra
o certo o incerto
tudo
valoriza minha solidão
e desde que comecei a me entender
acredito acredito acredito
piamente
no devir

só assim devo atingir

Pancetti, quadro. Poema: Planteu

Planteu


Eu nascendo, flor

Eu crescendo

Eu correndo

Eu aprendendo

Eu sofrendo

Eu crescendo

Eu querendo

Eu aprendendo

Eu sofrendo

Eu sofrendo

Eu encolhendo

Eu sofrendo

Eu sofrendo

Eu sofrendo


Eu morrendo, flor

Pancetti, quadro. Poema: Crianças

Crianças

À memória de Bertha Plácido

Criança
Como estas?
Já virou rosa ou árvore frondosa?
Já construiu um jardim de sorrisos para mim?
Nesse mundo cinza suas cinzas espalhadas são a esperança

Sinto saudade de sua definição de solidão: “Cada plantinha tem um verde diferente...”.

Pancetti, quadro. Poema: combustível

combustível

O mundo é essa dificuldade danada

Principalmente porque não temos todo o tempo e quando temos tempo algumas coisas importantes foram deixadas de lado algumas pessoas importantes foram deixadas de lado pior é quando perdemos algumas delas e constatamos que nunca mais serão alcançadas e é esse senso de realidade dos momentos que perdemos que gera o combustível para a obra de arte seja escrita cantada pintada da necessidade que aperta o peito é que saem sons palavras imagens que nos reabilitam minimamente perante nós mesmos e dá um pouco de alento já que não podemos voltar atrás fica uma sensação dolorida daquilo que deixamos escapar porque estávamos ocupados fazendo outra coisa prestando atenção em outro ângulo da vida e não há jeito sempre seremos devedores emocionalmente desses momentos porque enxergamos pouco e também não aprendemos a hierarquizar pessoas e momentos e vivemos meio que trocando pneu dum carro desgovernado e com isso sempre haverá momentos perdidos pessoas perdidas a serem resgatadas felizmente para os artistas é menos difícil adoçar essa relação entre o passado redivivo e o presente dolorido porque acabamos chorando por gritos escritos acabamos pingando signos

Pancetti, quadro. Poema: Suspiro

Suspiro

...não se estrague em desesperos impróprios somos nossos
corpos mas também somos mentes somente os dormentes não
sentem nossas rugas são maduras decisões de vivermos juntos
tudo somamos e dividimos uma parte do mundo escolha de
menina e menino com adultas conseqüências somos essência
perfumes perfumamos (defumamos) nosso ócio somos um

breve suspirar de amor num mundo póstumo

Pancetti, quadro. Poema: escondido

escondido

 


não sei se senti a necessidade psicológica de frear
ou se foi meu corpo que não aguentava mais
pela idade
a velocidade
descomunal
da vida virtual
há quase um histerismo coletivo
esoterismo coletivo
auto ajuda egoísta
afirmativos demais
certezas radiofônicas demais
fingimento demais
então
acabei decidindo
em ser
quem eu já era e escondia
optei
pela dúvida
da poesia 

Pancetti, quadro. Poema: Essência

Essência

quando
eu for
saiba
nada mudará
o mundo é lindo
de cima das asas dos passarinhos
a distância
às vezes
não atrapalha
quando
eu flor
saiba
tudo se ajardinará
o cheiro é findo
por isso
devemos cultivar
nossa

essência

Pancetti, quadro. Poema: (NATUREZA)

(NATUREZA)

escorre terra dos meus dedos
(NATUREZA)
dos meus olhos desabam cachoeiras
(NATUREZA)
nos meus ouvidos canta o eco de um grito,
saudade de pedra
(NATUREZA)
dos meus joelhos pingam verdes pastagens
(NATUREZA)
desculpe, mas

o que quero salvar de mim mesmo?

Pancetti, quadro. Poema: CEGUEIRA

CEGUEIRA

Após Ensaio contra a Cegueira, de José Saramago


Cá estou
Cego
A sentir e ouvir
Histórias de desamor
Ignomínia
Maldade
Descobri com pavor
Do que nós humanos
Somos capazes
Em qualquer idade
Quando a situação aperta
Fique alerta
Se não vão querer
Comer seu coração
Os desalmados
Necessitam
da nossa ingenuidade
da nossa coragem de fazer
para dela se alimentar
e tentar viver
uma vida menos sofrida
menos poluída
por seus pensamentos torpes
alva cegueira
em um mundo escuro e feroz
habitado por pessoas
cujo sentimento frio e atroz
passa a ser o desejado
para manter a tênue sensação
de que sem razão
fica menos difícil sobreviver
(fraca afirmação
para quem vai morrer
de qualquer modo)
escolher não se enamorar
pela vida e pelas pessoas
que são encaradas como inimigas
ou amigas para o deleite do sexo sem prazer
apenas por medo de morrer
Quem está cego
Eu que enxergo
e pago para não me aborrecer?
Ou você
Que não quer enxergar
Para não dissipar
a obscura sensação

de prazer?

Pancetti, quadro. Poema: As flores de dentro

As flores de dentro

uma flor murcha
em palavras caçadas da memória
necessário continuar a busca e é essa a dor do resgate
uma flor se abre
em palavras cantadas que expressam a dor de conhecê-las
necessário continuar soando e é esse o cansaço do processo
(tanto murcho
quanto me abro
mas

é necessário...)

Pancetti, quadro. Poema: Arca

Arca

quem não gosta de fotos
não gosta do tempo
vi numa arca o passado esperando o presente
sorrisos que já não mais existem
esperando serem recordados
olhos acordados
que agora dormem

sonhos que florescem ainda por nascer...

Pancetti, quadro. Poema: Cisco

Cisco

Desenho em cor
O perfume que me ficou
Da perda
Pedra
Dum tamanho indescritível
Cerda
De tamanho quase invisível
Mas que incomoda
Em todos os momentos
De olhos abertos, um cisco

De olhos fechados, a sutil possibilidade do sono

Panetti, quadro. Poema: Novelo

Novelo

pairando
sobre as letras desse livro de poemas
vejo uma asa
do anjo
amor
fios do seu cabelo
formam
o novelo-sentença

que me define como poeta

Pancetti, quadro. Poema: Transformares

Transformares

(a arte poética é feita do verbo transformar...)
transformar a dor em lar
transformar o mar em acalmar
transformar o olhar em desejar
transformar o desgosto em outros
transformar-nos
de suposto em gosto
de sono em colosso
transformar transformar transformar

...transformares sem uma gota d’água

Pancetti, quadro. Poema: Jardins

Jardins

se da única certeza
retirássemos força para nos lançar na destemida vontade de nos
realizar os psicólogos estariam todos mortos de fome...

...e os hospícios dariam lugar a jardins

Pancetti, quadro. Poema: Esperanço III

Esperanço III

A Pablo Picasso

A língua, filha de silêncios, desliza a ponta, faca,
E arranca o aroma do ramo de flor
Eco de pedra, espada,
Grito de dor
Que mira o corpo quente
Que espera a gota ardente
Do amor
Horas arrancadas do silêncio
Gemem torpor
A abelha na roseira
Faz música da angústia
Insano odor
De cabelo vermelho
Que se mistura ao amarelo

E me faz sorrir

Pancetti, quadro. Poema: Little blues

Little blues

Pequena chama que clama lágrimas
Grito de cordas que chora palavras
Pequena luz na escuridão da noite desconhecida
Azul num breu cinza

Um blues sou eu olhando num pedaço de caco de vidro do que me sobrou