sexta-feira, 31 de outubro de 2014

FERRO NA BONECA, Guilherme Sarmento e Marco Plácido



Amarrotada, esquecida, calada
A amarga fala
É navalha
E se espalha como lagarta na folha
No curso da decomposição
Que nos afasta dos sonhos
Nas batidas leves do dessabor
Que entope artérias sem arte
Aos olhos inflexíveis a dor.

Amor verde

Amor verde
Duma imagem do Amazing Geologist
...e de uma impossibilidade
nasce uma flor
verde
amor verde?
ou apenas esperança
ver-te
é ainda o que desejo
quente...
olhos escorrendo lembranças


365 dias com poesia -- 31 de outubro de 2014, ETerno



ETerno

SEREI ETERNO!

Porque a poesia é dura, de pedra
Cansada das mesmas palavras, mas resistente
Enxuta, apesar das lágrimas,
Que escondemos mostrando quem somos,
No silêncio de uma melodia implícita, só nossa

ETERNAMENTE humano por cativar no escuro aquilo que todos sentimos

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 30 de outubro de 2014, AMO(r)



AMO(r)

No meio do caminho
Tinha um poeta que viu a pedra
E intuiu a perda
Pequena mudança
Serena
De um erre
Apenas um erre pode colocar-nos
Defronte de nossa certeza de vida

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pássaros, música nova

Vem/Seja aonde for/Vou querer seu amor/inteiro e azul
Sim/Seja aonde for/Vou quebrar seu calor/inteiro e azul

Convenção

Sim/Você não sabe quem eu sou/ Por isso não sabe do amor/ que sou capaz de arrancar da dor
Então/Vem sorrir da flor/embutida na cor de olhos de paixão
Então/vem ser minha sem fôlego/queda d'água da cor azul que sonhamos

Essa solidão de dois agora acabará e seremos pássaros voando voando...

BLUESMAN



BLUESMAN

Gosto do ritmo marcado nos calcanhares
A voz rouca me ajuda a chorar melodias
Dos dias que não se tornaram tardes
Das tardes que não se tornaram noites
Das noites de açoites
Sofreguidão!
Outro nome de solidão
Outro nome de amor-próprio
Flor que dirijo em sua direção
Com mãos calejadas em olhos gulosos...

365 dias com poesia -- 29 de outubro de 2014, mudos mundos



mudos mundos

Está cheirando a cheiro de carne queimada
Em algum lugar do mundo civilizado
Homens irão se matar e outros irão acreditar que estão a lutar por um ideal de vida
Mobília escola família
E sempre se matou por isso e sempre se matará
Onde está nossa consciência de humanos?
Quantos precisarão morrer para experimentarmos a angústia de assassinos sem um único grito contrário a tudo isso?

terça-feira, 28 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 28 de outubro de 2014, reza



reza

Nos esprememos em silêncios e queremos em mis cantar?
Com dó um dó de peito nunca sairá?
Nunca em si será emitido um alívio?
Nunca ninguém em ré
Za ouviu o som do seu coração?

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Carequinha

Carequinha

Num sábado abro o dicionário e encontro o termo sabático ácido mágico saco de excrementos sendo salvação arte sacra ensaca minha solidão sólida que não cabe em mãos amareladas de tinta das cinzas de uma paixão que se foi e se foi é porque foi chegada a hora sem nenhuma explicação e essa é a maior talvez única mágoa da vida a separação de pessoas que se amam e não podem influir no curso desse rio chamado vida chamado pelos mais velhos de sofrimento pelo tempo em que eles convivem com a saudade marca no rosto da idade de quem tenta sorrir e já não consegue...
(por isso às vezes me visto de palhaço e faço poemas que piscam azuis tentando um fragmento de sorriso que seja)

Marco Plácido

Pablo Picasso, 133 anos

vertigem

Parabéns a Pablo Picasso, 133 anos

quando no pleno domínio de seu vocabulário plástico Picasso partia para a confrontação na tela ficavam os sinais os restos mortais da esperança quando Ele dizia ter terminado a batalha realmente tinha terminado Ele sabia do tempo controlava nossas emoções com o vermelho ditava sonhos em azul quando Picasso pingava tinta resolvia os problemas do mundo em rosa sua explosão era chuva em guerra bombas de cores criando outra perspectiva quase sempre não entendida porque psíquica (vertigem de artista)

Marco Plácido

Marco Plácido (Quadro): Fausto, 50 X 50 cm, tinta acrílica.

Fausto

A Thomas Mann

Aos vinte e um anos
Escolheu o orgulho o sucesso a qualquer preço
Fez o pacto
Consigo com Ele com a perdição
Da consciência escrevia versos sonoros
Rimas de silêncios
Apaixonado por si sem dó espetava ouvidos
Plantando ressentimentos na solidão
Descobriu-se humano suando carência doença d’alma
Que o levou à loucura da própria cura

Marco Plácido

365 dias com poesia -- 27 de outubro de 2014, BLUESMAN



BLUESMAN

Gosto do ritmo marcado nos calcanhares
A voz rouca me ajuda a chorar melodias
Dos dias que não se tornaram tardes
Das tardes que não se tornaram noites
Das noites de açoites
Sofreguidão!
Outro nome de solidão
Outro nome de amor-próprio
Flor que dirijo em sua direção
Com mãos calejadas em olhos gulosos...

domingo, 26 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 26 de outubro de 2014, Carequinha



Carequinha

Num sábado abro o dicionário e encontro o termo sabático ácido mágico saco de excrementos sendo salvação arte sacra ensaca minha solidão sólida que não cabe em mãos amareladas de tinta das cinzas de uma paixão que se foi e se foi é porque foi chegada a hora sem nenhuma explicação e essa é a maior talvez única mágoa da vida a separação de pessoas que se amam e não podem influir no curso desse rio chamado vida chamado pelos mais velhos de sofrimento pelo tempo em que eles convivem com a saudade marca no rosto da idade de quem tenta sorrir e já não consegue...
(por isso às vezes me visto de palhaço e faço poemas que piscam azuis tentando um fragmento de sorriso que seja)

sábado, 25 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 25 de outubro de 2014, vertigem



vertigem

Parabéns a Pablo Picasso, 133 anos

quando no pleno domínio de seu vocabulário plástico Picasso partia para a confrontação na tela ficavam os sinais os restos mortais da esperança quando Ele dizia ter terminado a batalha realmente tinha terminado Ele sabia do tempo controlava nossas emoções com o vermelho ditava sonhos em azul quando Picasso pingava tinta resolvia os problemas do mundo em rosa sua explosão era chuva em guerra bombas de cores criando outra perspectiva quase sempre não entendida porque psíquica (vertigem de artista)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 24 de outubro de 2014, humildes



humildes

Somos humildes quando cremos no
Tempo
Tempero da vida Suspiro de vontade Soluço de saudade
Palavra tão pequena de significado tão grande
Por que inventamos sonhos
Passados e futuros nos humilhando na lembrança ou na esperança
Que nos preenchem
Imensamente diante do mundo
Imenso e sem vento como nossos humildes pensamentos

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 23 de outubro de 2014, espelho



espelho

o espelho espelha verdades
como uma fotografia destaca todas as rugas
porque estamos parados
sem alma sem o brilho dos olhos
somos estátuas de carne e osso
somos apenas somas de tempo
sem movimento
somos tênues esqueletos
recheados de histórias amargas
das perdas das pedras transformadas em areias
nos olhos boca e nariz
que não nos deixam respirar
para tentar começar a comunicar a dor de viver

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 22 de outubro de 2014, desafio



desafio

Aquele canto
Desafinado
Em um banco escondido da janela
É meu canto preferido
Quando não minto
E lembro da solidão...

Aquele canto exala um manto de melodias cobertores
Das dores que carrego e pretendo deixar ali
Sujo as paredes com a saliva da esperança
Esperando um dia deixar de desafinar
Para a céu aberto cantar...

terça-feira, 21 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 21 de outubro de 2014, menino II



menino II

Até ontem desconhecia as tintas
Apesar de me lembrar das cores
Da infância trago a vontade que havia esquecido e que hoje em dia me define
Definho se ficar parado os músculos pulam de vontade de pular
Então não desisto e invento a possibilidade de sonhar

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 20 de outubro de 2014, Salvador Dali



Salvador Dali

A Paulinho da Viola

Evito ouvir Paulinho da Viola
Seu silêncio é tão sincero
Suas sílabas tão mesquinhas, minhas
Espremidas entre a solidão e a coragem
Entre mim e as estrelas
Que brilham e cegam minha existência
Somos formigas acostumadas a mentir sobre nossa importância?
Ele não nega
Tudo
O que nos emociona
Navega experiente no nosso amar
Nos ensina a nadar com calma e ética
Como se fosse simples viver vendo o tempo escorrer

domingo, 19 de outubro de 2014

Fernando Pessoa, (poema sem título em homenagem à sua mãe)

O véu das lágrimas não cega.
Vejo, a chorar,
O que essa música me entrega --
A mãe que eu tinha, o antigo lar,
A criança que fui,
O horror da vida, porque é só matar!
Vejo e adormeço,
Num torpor em que me esqueço
Que existo inda neste mundo que há...
Estou vendo minha mãe tocar.
E essas mãos brancas e pequenas,
Cuja carícia nunca mais me afagará --,
Tocam ao piano, cuidadosas e serenas,
(Meu Deus!)
Un soir à Lima.*


* "Un soir à Lima" (Uma noite em Lima): música de Félix Godefroid que a mãe de Pessoa costumava tocar ao piano em Durban.

Fernando Pessoa, O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
-- Duas, de lado a lado --.
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langu
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço...Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

365 dias com poesia -- 19 de outubro de 2014, Jam Session



Jam Session

Jam session de futuros fevereiros, janeiro
Febre que ferve em meu sangue vermelho, fevereiro
Mágoa marca de arara amassada, março
Abre te sésamo, abril
Mas não sou eu que terei que dar solução, maio
Juntos iremos voar num tapete de ilusão, junho
Juvenis juntas júlias mudas flores que brotam, julho
Há um gosto de outono, uma chuva em olhos miúdos, agosto
Sempre sorriso seu surpreende, setembro
Ou vou ou vem ou tudo estará triste, outubro
Novamente aqui estou a falar do amor, novembro
Dez, nossas letras juntas formam uma família, dezembro

sábado, 18 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 18 de outubro de 2014, melodia do amor



melodia do amor

À memória de Bertha Plácido

Quando a despedida se anuncia poucos têm coragem de entendê-la
Nos agarramos à esperança e esquecemos de dizer amarmos quem vai virar natureza
(esse meu medo do vento das folhas da luz do sol)
No fundo todos sabemos que um dia iremos voltar e tememos partir
Sem deixar algo que nos identifique um simples cheiro um verde de mato
A melodia dum baixo um suspiro de amor...

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

AVE MARIA, orasion

Je vous salue, Marie, pleine de grâce, le Seigneur est avec vous, vous êtes bénie entre toutes les femmes, et Jésus, le fruit de vos entrailles, est béni.

Sainte Marie, Mère de Dieu, priez pour nous, pauvres pécheurs, maintemant et à l'heure de notre mort.

Amen.

Marco Plácido (Quadro): Emília, 60 X 60 cm, guache.


Marco Plácido (Quadro): Jazz, 80 X 50 cm, guache.


Marco Plácido (Quadro): o beijo, 70 X 30 cm, guache.


365 dias com poesia -- 17 de outubro de 2014, face a face



face a face

O facebook não mente
Os olhos ali risonhos estão tristes, por dentro
Todos temos essa mania de ter de demonstrar uma alegria que grita justamente o contrário
Perto dos cinqüenta já me permito dizer
ESTUPIDEZ!
Deveríamos ao invés de querer contar vantagem
Ter a coragem de ajoelhar contar até dez e rezar por algum tipo de amizade

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ab(MOR)surdo






Absurdo

Mutilação

Obscuro

Relação



(Poema conceitual -- querendo expressar como pinto, várias pinceladas  “erradas” que formam uma palavra, conceito de vida)

365 dias com poesia -- 16 de outubro de 2014, bem-querer



bem-querer

À Angélica Plácido

É bonito que doa
É lindo que sofra
Só na dor se aprende
Dizem que no amor também
Dizem
Só na hora do sufoco é que aprendemos quem somos
O que nos motiva o que nos dá vida
Aquilo que rima com nossa alma
Aquele alguém a quem chamamos de bem
Querer
É o verbo que declina o amor

365 dias com poesia -- 16 de outubro de 2014, Séu



Séu

 A Andréa Cunha

 Havia no ar
Um presentimento
(pressentimento de um presente melhor)
Presente
Único momento em que existo
Em que insisto
Em não ser nada
Em não pensar em nada
Que não seja eu
Em nada que não seja
Séu

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 15 de outubro de 2014, PAIXÃO!



PAIXÃO!

Ouvindo Psalm, oração poética de John Coltrane

Coltrane me espere!
Eu também quero chorar
À insensatez inveja calúnia
Quero chorar pelas almas
Que não têm calma (que não sabem esperar)
Que não sabem a distância do passo do palmo
Que nos levará ao coração da questão:
VIDA e AMOR
Palavras que parecem malditas quando saem da boca de qualquer outro sofredor
Não aturamos a vertigem alheia mas queremos voar?
Desculpem estou com falta de lágrimas excesso de palavras
Não me deixa parar de digitar verdades dificuldades que temos
TODOS TEMOS TODOS TEMEMOS
a nossa vez vai chegar então porque ao invés de tentarmos cegar o brilho alheio não brilhamos juntos fazendo uma história com rimas ricas tintas que nos façam destacar coragem e lucidez medo com altivez lábios esperando o amor dum beijo com
PAIXÃO!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 14 de outubro de 2014, Palmo, parte 4



Palmo, parte 4

Ouvindo Psalm, parte 4 do clássico: A LOVE SUPREME, de John Coltrane


por um momento
de deslumbramento
Coltrane foi deus
deu-nos a virtude
da compaixão
sinônimo de amor
pelo próximo
pelo distante
tempo
em que não vemos outro coração
pulsando
pulsantes versos
melódicos enxertos
como um beijo doído
Coltrane nos abraçou forte e foi deus
sim
foi amor
sim
foi poesia
sim
foi se foi e nos legou o tempo do amor

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 13 de outubro de 2014, sujeira



sujeira

Da dificuldade da leitura alheia de poeta passei a cantador pois o perfume da melodia ilude e faz brilhar a ideia
Depois de um tempo pensando em como poderia registrar as imagens que tinha na cabeça
Comecei a perceber que liberdade maior seria pintar uma saída
No livre exercício estético de trezentos e sessenta graus pois um mesmo quadro pode ser pendurado de quatro diferentes maneiras assim acabei me sujando de tinta e cá estou explicando por que estou com as mãos repletas de poesia

Frank Lowe sobre a influência de John Coltrane

Tive de parar de ouvir alguns discos de Coltrane, saca? porque ele tinha um grande domínio sobre mim. Tive de ficar longe de A Lov Supreme porque via pessoas o encarando como um santuário e às vezes não aguento isso. As pessoas diziam: "Ah, é tão espiritual!". É como se o álbum perdesse suas outras essências, como ser apenas música para apreciar.

Joshua Redman sobre a influência de John Coltrane

Eu realmente tive de parar de ouvir "A Love Supreme" -- acho que era muito perigoso para mim como músico". Não havia como me tornar capaz de tocar daquele jeito, então tive de falar:"Olha, isso é como um manifesto musical tão enorme, que, se eu continuar a ouvir, não serei capaz de encontrar nenhum szentido no que tento fazer como músico.

Não quero parecer funcional demais -- "Ah, precisei parar de ouvir porque, se não, não conseguiria tocar merda nenhum". É mais do que isso -- é a sensação de que não parece apenas uma grande visão musical, parece a visão. Isso é meio assustador, não só para mim como músico, mas como pessoa.

domingo, 12 de outubro de 2014

Psalm, parte 4 do clássico A LOVE SUPREME (disco de John Coltrane)

Psalm realmente parece uma conversa particular entre duas pessoas. O som sussurrado de Coltrane se assemelha deliberadamente à fala: ele se estende nos fins de frase e as repete para dar mais ênfase. Ele está "lendo" através de se sax. "A quarta e última parte é uma narrativa musical do tema "A Love Supreme", escrita nesse contexto", explica Coltrane no texto da contracapa. "É intitulada "Psalm". "Seu plano era de dar som às palavras por meio do saxofone; quanto a A Love Supreme, ele observou que é "o mais longo poema que já escrevi".

Lewis Porter foi o primeiro a compartilhar o aspecto lírico de "Psalm" com uma comunidade musical maior, primeior em seu tratado "Jazz Improvisation As Composition" ("A Improvisação no Jazz como Composição"), posteriormente, em sua biografia de Coltrane em 1997. Sua análise verso a verso observa que o solo de sax começa com as palavras "A Love Supreme" e até identifica alguns cacos que fugiam ao script: Você vai ver que ele toca o último"Amém" e encerra. Não há notas extras até essa altura. No entento, você tem de fazer alguns ajustes ao poema: próximo ao início em que se lê "Ajudai-nos a solucionar nossos medos e fraquezas" (Help us resolve our fears and weakness), ele pula a linha seguinte, vai para " Em você, todas as coisas são possíveis" (In you all things are possible), então toca "Obrigado, Deus" (Thank you God...) indo para o fim, deixa de fora "Eu vi Deus" (I have seen God).

Elvin Jones e John Coltrane, por Dan Morgenstern

Havia uma espécie de telepatia entre eles -- funcionavam muito bem juntos. Elvin é um músico rítmico notável -- sua destreza, a independência dos membros, incomparável na maneira como consegue tocar tanats coisas diferentes ao mesmo tempo. Mas Elvin faz tantos sons que não é apenas ritmo, é sônico. Com Coltrane, cuja música é  muito intensa e, de certa forma, pode ser imprevisível, Elvin não apenas acompanha, mas não dá para saber dizer quem lidera e quem acompanha.

Entrevista com Asley Kahn, autor do livro sobre a criação do álbum clássico A LOVE SUPREME

Jazz supremo
Livro de Ashley Kahn resgata a trajetória da gravação de "A Love Supreme", álbum-marco de John Coltrane

Burt Goldblatt e Katherine Hollman Goldblatt/Divulgação
O produtor de jazz Bob Thiele (ao fundo) e o músico John Coltrane em registro do começo dos anos 60


BRUNA BITTENCOURT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Durante cinco dias no fim de 1964, John Coltrane se isolou com seu saxofone no sobrado que havia acabado de comprar em Nova York. Quando reapareceu, sua esposa notou que ele estava especialmente sereno.
"Esta é a primeira vez em que me veio toda a música que quero gravar. Pela primeira vez, tenho tudo, tudo pronto", disse. No mesmo ano, Coltrane gravava "A Love Supreme", uma suíte-marco da história do jazz, e, em suas palavras, "uma oferenda a Ele".
A passagem acima é um dos relatos de "A Love Supreme - A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane", de Ashley Kahn. O autor norte-americano recupera todo o trajeto que Coltrane percorreu até a gravação do disco, em um retrato humano do jazzista, além de um panorama do gênero nas décadas de 50 e 60.
Kahn já havia se debruçado sobre os bastidores da gravação de outro importante álbum do jazz, em "Kind of Blue - A História da Obra-Prima de Miles Davis" (ed. Barracuda). Ex-editor de música do canal VH1, professor da Universidade de Nova York, onde leciona uma matéria sobre Davis, Kahn conversou com a Folha por telefone. Leia trechos da entrevista.   FOLHA - Coltrane era extremamente dedicado a sua música. Depois de tantos anos praticando incessantemente, você acha que sua disciplina ultrapassou seu talento natural?
ASHLEY KAHN
- Acho que ultrapassar não é o termo correto, mas potencializar. Ele trabalhou muito duro para levar seu saxofone ao nível que ele queria que sua música alcançasse. Era por isso que praticava e estudava teoria e harmonia da música sozinho, mesmo depois de deixar a escola de música -e muitos artistas param de estudar depois de atingir um certo nível. Ele não era um prodígio; Miles Davis também não. Os dois chegaram à sua sonoridade com sua carreira avançada. As pessoas não falaram de Coltrane ser um líder de sua música antes de ele ter 32, 33 anos. Não acho que ninguém tenha trabalhado tão duro quanto ele.
FOLHA - O que mais lhe surpreendeu durante a processo de pesquisa de "A Love Supreme"?
KAHN
- Coltrane era muito atento e atuante no lado prático de sua carreira, do "business". Ele lidava com contratos, por exemplo; não era aquele santo que não podia tocar no dinheiro. Era bem esperto e consciente sobre o que estava fazendo com sua carreira.
FOLHA - A década de 60 foi a das religiões, de uma nova espiritualidade, material para Coltrone compor "A Love Supreme". Você acha que o disco teria a mesma aceitação se fosse lançado nos dias de hoje?
KAHN
- Provavelmente não. Também não acho que o disco teria a mesma forma. "A Love Supreme" veio na hora certa. A espiritualidade dos anos 60 começou em 1965, 1966, o que coincide com o período do disco. Obviamente, não foi a única razão pela qual as pessoas se tornaram espirituais - veja os Beatles. Mas a espiritualidade da banda parecia indefinida e barata comparada à enorme dedicação de alguém como John Coltrane.
FOLHA - Como você escreveu, é difícil falar sobre Coltrane sem parecer exagerado. Como lidou com isso?
KAHN
- Foi difícil. A verdade é que Coltrane era mesmo um indivíduo incrível. Era um herói espiritualmente e musicalmente. Don Cherry, que tocou com Ornette Coleman, conta sobre a atenção que ele tinha em viver bem, o que o tornou um músico melhor. Dia a dia, ele se preocupava em ganhar dinheiro, em montar sua banda. Isso é o que tentei fazer: mostrar o grande homem por trás da música.
FOLHA- Alguns críticos acham que Coltrane foi a última grande inovação do jazz. Você concorda?
KAHN
- Ele foi uma das últimas grandes influências. Há sempre coisas novas acontecendo no jazz, mas nada importante o suficiente para a cena se mover em outra direção. Se você quiser mesmo medir onde o jazz está hoje, terá que ir além dele para achar onde estão seus limites -a palavra "jazz" não abriga todas essas experimentações e fusões com outros estilos. E se você pensar no jazz deste jeito, ele progrediu de muitas maneiras desde a morte de Coltrane. Isso foi tão importante quanto ele? Não. Músicos como Coltrane não surgem com freqüência.
FOLHA - Depois de escrever "Kind of Blue" e a "Love Supreme", como você compara Coltrane e Davis? O que eles representam para o jazz, assim como esses dois discos?
KAHN
- Ambos representam o início do mais influente período da improvisação moderna - não me refiro somente ao jazz, porque suas influências vão além do gênero. Eles traduziram e evoluíram o som de Charlie Parker e Dizzy Gillespie -o verdadeiro começo do jazz moderno. E ainda estamos lidando com suas descobertas. Não acho que se possa dizer que estes sejam seus álbuns representativos, já que suas trajetórias compreendem muitas mudanças de estilo. Mas são álbuns que representam o retrato da música deles, a emoção de suas personalidades: a serenidade de "Kind of Blue" é Miles Davis, assim como a passionalidade e espiritualidade de "A Love Supreme" é Coltrane.
FOLHA - Seus três livros sobre jazz focam a mesma época, as décadas de 60 e 70. Você acha que este foi o período mais fértil do gênero?
KAHN
- Nos anos 60, diferentes estilos de jazz estavam acontecendo ao mesmo tempo, nos mesmos clubes e festivais. Havia Louis Armstrong, Duke Ellington, Count Basie, Dizzy Gillespie e muitos outros nomes do bebop. Havia ainda gente nova, como Davis e Coltrane, começando a acontecer; Ornette Coleman e o avant-garde. Foi um período muito especial para o jazz.
FOLHA - Seu livro é acessível mesmo para quem não é familiarizado com o jazz. Você acha que o gênero é tratado com uma erudição desnecessária?
KAHN
- Claro. Esse foi meu objetivo. Muito da literatura do jazz é feita para pessoas que já conhecem aquilo. Jazz é música que entra pelos ouvidos e vai para o coração -e é só o que você precisa para ouvi-lo. Muitos alunos me dizem que até gostam de jazz, mas que não sabem muito a respeito. O conhecimento, porém, não é necessário para ouvir.

A LOVE SUPREME, disco de John Coltrane


Wayne Shorter, sobre John Coltrane

Sei que o avô dele era pastor, e ele viveu essa experiência. Quando Coltrane começou a cantar as palavras "a love supreme", não apelou para a habilidade vocal de algum cantor de sucesso. Acredito que ele afirmou ali que você deve depender de si para se comunicar. Acho que ele voltou para o ponto de partida, no qual a voz é a primeira proclamação da sua humanidade -- sua humanidade é seu instrumento.

Sonny Rollins, sobre John Coltrane

John foi muito maior que aquela era. Muita gente tenta identificar John apenas com a década de 1960 como se o que ele tocava significasse "bem, vamos lutar" ou algo parecido, bem limitado. Na minha visão, John não deveria ser definido pelo sentido restrito daquele, entre aspas, movimento dos direitos humanos. O movimento dos direitos humanos sempre existiu. Existe agora e já existia antes dos anos 60.

Joshua Redman, sobre John Coltrane

O jazz se baseia nessa noção de tensão e relaxamento, e acho que todos os mestres -- Louis Armstrong, Charlie Parker -- a dominavam. Louis tocando aqueles dós agudos, cara, aquilo faz parte do coração e da alma, a força vital do jazz. mas você não tem com, digamos, Charlie Parker, a mesma sensação de forma e turbulência sonora -- e, definitivamente, não tem a sensação de êxtase -- que tem com um solo de Coltrane. Como todo o controle e conhecimento que tinha, Coltrane fazia um som tão fora de controle, desmedido e irrefreado. Quanto ao grupo todo, eu diria que o quarteto de Coltrane representou, àquela altura, o ápice daquela noção de tensão e relaxamento.

365 dias com poesia -- 12 de outubro de 2014, poeteiro



poeteiro

Aos meus filhos: Vinícius, Victor e Thiago

Não é exercício de retórica
A memória
Está nos meus ombros pesando
Pensando sempre que sempre devemos parar de pensar e fazer
Quero dizer
Que estou fazendo um jardim de versos para vocês três

sábado, 11 de outubro de 2014

365 dias com poesia -- 11 de outubro de 2014, o pássaro



o pássaro

Uma flor surgiu no asfalto
Desconhecendo
Inveja calúnia difamação
Uma flor que para a minha ingenuidade é uma árvore
De fogo sabor desejo
Com folhas que queimam as mãos dos que em nada acreditam
E implicam com as lágrimas que transformo em palavras
Versos raízes que servem de alpiste para o pássaro que inventei-me

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ravi Shankar, sobre A LOVE SUPREME

Esse disco me tocou profundamente. Já ouvi três ou quatro vezes e mostrei para músicos que estão tocando comigo. É lindo, principalmente o clímax no terceiro movimento, seguida da resolução da parte final ("Psalm"). E, então, quando fui ler o encarte, fiquei surpreso com a total rendição, crença e amor por Deus.

Bono Vox, sobre A LOVE SUPREME

Eu estava na cobertura do Grand Hotel em Chicago, na turnê de 1987, ouvindo A Love Supreme e aprendendo uma lição para toda a vida. Pouco antes, estava vendo televangelistas recriarem Deus à sua imagem: pequenos, mesquinhos e gananciosos. A religião se tornou uma inimiga de Deus, pensei...a religião foi o que veio quando Deus, assim como Elvis, deixou o recinto. Sei bem, desde que me reconheço por gente, que o mundo se encaminhava em uma direção longe do amor; e eu também me deixava levar por isso. Existe muita maldade neste mundo, mas a beleza é nosso prêmio de consolação...a beleza da voz rouca de John Coltrane, seus sussurros, sua sabedoria, sua sensualidade dissimulada, seu louvor à criação. E assim Coltrane passou a fazer sentido para mim. Deixei o disco no modo de repetição e fiquei acordado ouvindo um homem encarar Deus com o dom de sua música.

Marco Plácido (Quadro): sem título, 30 X 30 cm, guache.


Marco Plácido (Quadro): sem título, 40 X 30 cm, guache.


Marco Plácido (Quadro): vidraça, 70 X 30 cm, guache.


Marco Plácido (Quadro): bota, 40 X 30 cm, guache.


Marco Plácido (Quadro): sunga, 30 X 30 cm, guache.


365 dias com poesia -- 10 de outubro de 2014, Cegos II



Cegos II

estamos tão idiotizados pelas prendas que devemos comprar
que não conseguimos olhar para o lado
muito menos enxergar outros olhos
estamos tão sem tempo um tempo inventado pelos outros
que não nos conhecemos que não conseguimos respirar
quanto mais olhar o mar ali molhando a areia
seqüência de ondas sem objetivo apenas cumprindo seu desígnio
de que cor está o mar? O céu? O olhar?
não olhamos mais nada como queremos conseguir enxergar?!