quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Marco Plácido, texto final do livro HÁmor

Cansado de esperar por algo que não viria, que ele também
não sabia o que era, Marco Plácido, aos quarenta e dois
anos, fez o primeiro poema FREDERICO, homenagem ao seu
irmão falecido e depois disso se jogou na ideia de ser poeta, e,
sendo, escreveu.
Escreveu até quase não agüentar continuar e disso
nasceram lindos filhos...três! Dentro de Mim, Oculto, Próprio
Amor, nasceram da necessidade urgente de dar voz às expectativas
e aos anseios de um homem que desde cedo descobriu que
não devia esquecer de quem era, sob pena de deixar o tempo
passar.
Do torpor poético que o acometeu pela urgência, concebeu
mais livros: Declamador de Sonhos, IntensaIdade e Pensamentos
Em Movimento, editados, mas que não foram lançados
oficialmente, pela doença, depois óbito, em 10/05/2011,
de sua mãe Bertha Fróes Cruz Plácido -- exemplo de coragem e
lucidez que tanto o incentivou no árduo processo de se aceitar
poeta e cantor. Árduo, porque o mundo, dito real, desdenha
da poesia, como se nós não estivéssemos no mundo para nos
emocionar!
A carreira de cantor, ao contrário do que pensara, o
levou a produzir mais poesia, pela necessidade de pensar-se num
ambiente altamente competitivo e hostil à musica de qualidade,
porque apatotado e inculto, marca da cena cultural globalizada.
Os shows realizados, com o repertório dos dois CDs lançados:
Coleção de Besouros e Marco Plácido Brasileiro, proporcionaram
uma visão mais abrangente da realidade e carências de
nosso estado (RJ) e, por conseqüência, do país...Precisamos de
HÁmor, concluiu!

Drummond, texto final do livro HÁmor

(...)Não creio que a comemoração fúnebre nos aproxime dele (dia de
Finados), por ser quase mecânica e padronizada. Mas confio nesse estranho
trabalho de demolição interna, que se vai fazendo em nós. Vamos perdendo
as coisas, e sentimos que elas eram secundárias; com isto, descobrimos outras
subjacentes e mais importantes. Em camada mais profunda está colóquio
plácido com os mortos. E a descoberta: os mortos não são fúnebres.
Até alcançarem esta percepção, os mais sensíveis (tanto requintados como
simples) carregam uma saudade pungente que é, afinal, preliminar do
entendimento completo. Saudade às vezes impregnada de revolta, protesto de
amor ferido, ou mesmo de sentimento de beleza, que pretende parar sobre as
contingências, e busca a eternidade no instante.
Carlos Drummond de Andrade

HÁmor, Quilate

Quilate

A partida não é despedida
lágrimas molhando o chão de terra batida
palavras escritas
sem olhos que as queiram sorrir
enquanto vejo meu filho de cinco dormindo
lembro de sua alegria sem eletricidade
não me despeço em palavras
estamos juntos como juntos estávamos há pouco
estamos enlaçados
(presente no passado)
poema num retrato
em que sorrisos são captados pela intensidade das mãos
dadas
lágrimas na terra molhada
promovem o encontro da vida com a vida
alegria herdada
melancolia preservada
na pedra bruta da saudade
que arde

quilate

HÁmor, Oi

Oi

Ao meu pai Jorge

um poeta não precisa escrever
ter a capacidade de antever
sofrer de amor
escorrer lágrimas por amizade
parecer desatento mas cuidar de longe, alisar os cabelos do pai
mesmo que por palavras não ditas, não escritas
um eu te amo num simples: “oi, pai!”

HÁmor, Vovô

Vovô

À memória do vô Alfredo

o que é o tempo
um fechar de pálpebras?
a maldade sendo planejada?
uma lágrima se espalhando pelo olho
que não deseja dela se livrar?
o
tempo
me parece
é um machucado no dedo
sendo contado
a um neto abismado
com a coragem do avô

HÁmor, s a u d a d e

s a u d a d e

descobri o tamanho da saudade...
(ela é grande como o tamanho do amor que sinto)
...palavras também jazem...
com meu irmão foi uma mistura de susto e perda da ilusão
com minha mãe foi com todas as letras e todos os espaços
um vácuo de emoção

HÁmor, Um desejo

Um desejo

Fechar os olhos para não ver...
Tapar os ouvidos...
Deixar de ler...
O que adianta
Se sabemos
tudo o que está acontecendo
à nossa volta...
Tudo o que mais tememos
Não deixará de existir
Por causa
De um desejo...

HÁmor, Raridade

Raridade

Sobe em mim
Uma estranha sensação
De pertinência
Como se o desejo aflorasse
Já com uma conclusão definida
Uma obscura
Admiração
Pelo
inesperado
Não apaga a chama clara que trago na minha ingenuidade rara
de acreditar

HÁmor, Juventude

Juventude

prisão num corpo
a velhice prova isso
enquanto novos desconhecemos o sufoco o oco do toco não
nos atinge
enquanto novos há a vertigem da juventude tudo podemos
tudo criaremos tudo tudo é nosso não há derrotas é essa sensação
de vitória a verdadeira ilusão da vida

HÁmor, Cello

Cello
o que pensam de mim para eles sou eu
o que penso de mim para eles sou céu
cello tocando música de anjos
demônios pensando sobre minhas afirmações
somos detalhes num mundo de ilusões
eles são vocês que não somos nós
eles são nós que desato em letras
que enlaço em poemas

HÁmor, Lago

Lago

...derramam...
seus olhos derramam, de rimas
lágrimas
(lago de rimas?)
desviam
palavras
da poesia...
devias chorar mais!

HÁmor, (opinião)

(opinião)
(se assumíssemos que vamos morrer seria duro mas mais proveitoso
talvez se nos desvencilhássemos do terreno pedregoso que
é a opinião dos outros e conseguíssemos produzir algo além da
intenção)

HÁmor, Carlos

Carlos

À memória de meu irmão Carlos Frederico

um menino
de cabelos encaracolados
solidário
(solitário?)
me disse que eu não devia desistir de tentar
me disse com seus olhos de lua
seu sorriso, sal de mar,
que todos devíamos nos achar
sentir o cheiro das ondas
fotografar mariscos
não devíamos nos refugiar (nos escondendo de nós)
devíamos deixar de ser aflitos por tudo que não nos acaricia
um menino nos deixou um legado
de perfume e amor...
saiba menino você está em mim
semeando poemas e rimas
(cantando melodias que evoquem sua rouca voz...)

HÁmor, Soros

Soros

o que precisamos é sentir
sentir por todos os poros
sentir os soros
dos doentes d’alma
acalma escrever
mas não é só
é mais
é melhor
do que remédios
médicos cansam de se dopar
e sem par esperam algo para sarar
desconhecendo que a indiferença é um perfume de presença

HÁmor, Tormento

Tormento

do meu irmão
já esqueci a voz e o cheiro
essa, a maldade do tempo
ele
inibe nossos sofrimentos
não os deixa perfeitos
o tempo acaba com qualquer sentimento
se humildade existe é resistir a esse tormento

HÁmor, Em paz

Em paz

Adoro quando Thiago diz que vai na casa da vovó
as crianças não sabem a dor da despedida
não conhecem a palavra morte
e por isso podem sorrir da alegria do palhaço
e por isso podem brincar com um desconhecido
e por isso se distraem com um pequeno besouro
e por isso podem crescer em paz

HÁmor, A bola

A bola
O tempo não volta...
Se tivesse a noção da despedida...
Teria dito tantas palavras escolhidas
Teria pedido para meu pai fingir e dizer, sem chorar, até logo
Teria dito te amar tanto e tão pouco sobrou para você...
Seu sorriso está comigo
Guardo-o como um menino guarda a bola da infância (vazia,
mas aqui)

HÁmor, Os mesmos

Os mesmos
envelheci
todos os anos que estavam guardados
dez anos
se passaram em horas
a memória é nossa história
âncora que não nos deixa ir embora
de nós
agora
sabedor da dor de perder quem me gerou
espero ter anos adiante com meu pai
espero poder reconfortá-lo
avisá-lo que o amo como a amava
diferente mas intenso
simples mas precioso
como um espelho somos o reflexo de nós mesmos

HÁmor, Escondido

Escondido
mesmo com medo não escondo o segredo de ter de escrever
tudo que me afasta de mim tem um porquê e luto todos os dias
luto intensamente contra a preguiça de continuar a traçar uma
vida em palavras normalmente acabo em lágrimas não pela
simples e bonita rima mas pela necessidade ímpar de ter de trabalhar
alguns aspectos ainda falhos da minha levada o bumbo
às vezes atravessa às vezes atrapalha a caminhada mas apesar de
tudo continuo e continuo não porque seja forte não se trata
disso continuo porque não há outra alternativa vivendo ou não
a onda da vida real nos atinge então prefiro senti-la em toda
sua dimensão me molho mas tento pegar uma crista uma pista
para continuar é a única coisa que me resta (além de escondido
rezar...)

HÁmor, Intensos

Intensos
sobrepostos temperamentos
aos quarenta a descobri
e a cobri de beijos
nos shows sua empolgação me empolgava e cantava como se
fosse morrer de amor
você se foi mas antes me ensinou a não ter medo de mim
me ensinou que somos do jeito que devemos ser somos quem
podemos ser somos sonhos grandes ou pequenos mas intensos

HÁmor, S.A.U.D.A.D.E.

S.A.U.D.A.D.E

Arde
Uma vez em cada respiração
De dia
Arde muito menos... (a rotina anestesia sentimentos), a noite
Dói mais, quando relembro, sozinho, sua luta pela vida...
Esforço inútil, mas última lição.

HÁmor, Querida mamãe

Querida mamãe
mãe
dizer que te amo seria pouco
muito pouco
nesse caso
não abusar das palavras
seria desperdiçar uma grande oportunidade
que na verdade foi ontem
(mas não há datas para amar)
um escritor caça palavras
como beija-flores beijam flores
seu perfume me lembrou essa rima
uma pequenina homenagem
a tão rara coragem de ser quem se é
isso você me ensinou
Não temer a fé que carregamos não temer o tamanho da pedra
as dificuldades são certezas de quem somos
fomos únicos
nosso amor
(que nunca acabará mesmo que um de nós esteja sem consciência
esteja com os olhos na infância que dizem ser sempre bela
que dizem nos moldar)
é infância tão linda que está sendo desejada
(nos afastando da capacidade de nos falarmos de até brigarmos
como fizemos tantas vezes e faremos com certeza) seja em que
mundo for estaremos juntos o mundo só é meu porque antes
lhe pertenceu
Niterói, em 09/05/2011.

HÁmor, texto de apresentação de Hélder Teixeira

Este livro é indicado a todos que já amaram, ou seja, a todos. Porque,
até quem nada pensa amar, ama a liberdade deste ilusório desprendimento.
Este livro é dedicado a quem já sentiu saudade daquela voz, daquele
cheiro, daquela comida, daquela briga, daquela roupa, daquele cabelo, daquela
risada, daquele mimo, daquela ligação no meio do dia, daquela lembrança
inesperada, daquele abraço...
A todos que já perderam alguém, recomendo que se deixem levar pelas
palavras jorradas, incontidas, despejadas em torrente, que esse jovem poeta
oferece, para que nelas encontrem este ser ou sonho perdido, há tanto ou há
tão pouco.
Marco Plácido é desses autores que não se contêm em procurar
métricas ou formas ou estilos...ele se dedica quase que exclusivamente a um
mergulho tão fundo, e ao mesmo tempo tão imediato, em seu âmago, que
ao lê-lo, se nos permitirmos embarcar nesta viagem, sentimos, quase que de
início, como é árduo e poderoso, difícil e comovente, o encontro de nossos
momentos e nossas perdas; como é difícil aceitar que o tempo se vai e com ele
nossos sonhos e entes queridos, mas que, como um raiar de sol, que a cada dia
invariavelmente se repete, e repete e repete, novos sonhos e amores surgem,
sem que os antigos jamais desapareçam.
Àqueles que têm a coragem dos poetas, dos jornalistas, dos astronautas,
dos bailarinos, dos atores, dos autores, eu especialmente recomendo o
livro NO INVERNO, FECHEI OS OLHOS E CHOREI. A todos os outros,
eu simplesmente acho obrigatória esta leitura.
Brindo a uma viagem sem cinto de segurança rumo ao (des)conhecido
dessas palavras, desejando um intenso acidente, de cara, varando o parabrisa,
para todos os leitores. Boa Viagem.

Hélder Teixeira.

HÁmor (No inverno, fechei os olhos e chorei), apresentação de Alfredo Plácido

Marco Plácido é um jovem poeta que conheço desde o seu nascimento,
filho de meu único e querido irmão, que por um bom tempo de sua
vida deixou de nos brindar com uma das várias qualidades que possui ligada
ao seu amor pela vida, pelos seus entes queridos e pelas artes, que só veio a despertar
após o falecimento de um de seus irmãos, nos proporcionando, através
da poesia, momentos de reflexão, de sonhos, pensamentos e desejos, que nos
permitem avaliar o quanto é importante o que cada um pode fazer para que o
mundo seja o céu que imaginamos existir e que todos desejamos alcançar.
Para isso muito contribuiu o exemplo de vida que foi dado pelos
seus pais; de sua mãe, fruto da dedicação exclusiva a seu esposo e filhos, voltada
à instrução e educação, e ao ensinamento maior de amor ao próximo que
sempre praticou durante toda a sua vida, procurando sempre ajudar a quem
precisava; de seu pai, a transmissão de conhecimentos além dos que lhe foram
dados na escola e Universidade, frutos de uma inteligência privilegiada, do
nível intelectual elogiável, do seu amor pela leitura, música e às artes.
HÁmor -- NO INVERNO, FECHEI OS OLHOS E CHOREI é
mais uma de suas obras, mais uma jornada, agora motivada pela perda de sua
mãe durante o último inverno. Um livro de poesias, representação gráfica de
sentimentos, comportamentos, ansiedades, conceitos, definições, paradigmas,
axiomas; representação poética de certas palavras, de uma forma que não estávamos
acostumados a ver, mas que nos facilitam entender o sentido mais
profundo que cada expressão quer dizer, como compaixão, dor, lembrança,
saudade.
Espero que todos sintam ao ler este livro o mesmo deslumbramento
que tive com as palavras escritas que tocaram o meu coração, me ajudando a
entender a importância de amar e viver buscando atingir a felicidade plena
para toda a humanidade.

Alfredo de Souza Plácido Filho (in memorian).

HÁmor -- 2011(texto de abertura)

2011

Dois mil e onze...duro ano esse em que perdi minha
mãe, alguns caminhos foram traçados no meu rosto, pelos
outros conhecidos como rugas, para mim, desilusões.
Algumas sensações foram únicas e por terem sido já
se foram e só restou o gosto amargo da saudade. A alegria que
ela tinha num show e suas palmas fora do ritmo me animavam
mais do que mil assobios; o sorriso do meu filho de cinco me
vendo e depois, com seis, cantando comigo; o olhar de compreensão
dos meninos mais velhos...Admiração é o que sinto
por todos os que têm coragem de ser do jeito que são.
Meu anjo, uma revolução nos seus olhos cansados de
menina, que atura uma família de artistas, sendo também ela
um signo de criação. Leão, leoa e seus filhos leõezinhos, tantos
meninos, que só ela, flora, sendo amor total, poderia administrar
essa fauna com total valor.
Tudo lindo e seguindo sempre sendo do jeito que pode
ser e será, sempre do jeito que a dor se apresenta e do jeito que
permita que o amor a surpreenda!

HÁmor -- orelha de Adriana Guedes




A poesia é mesmo um modo de dizer as coisas e a vida de forma surpreendente. Há uma experimentação na linguagem poética que caminha na frequência do prazer, do trabalho e da criação. A poesia é sempre a palavra em estado de rebeldia, de insubmissão. São renovações provisórias, em permanente construção e desvio. 

Marco Plácido, em seu livro HÁmor, parte com suas experiências de dor e afeto na direção de um estado lírico que o explique/expulse da vida, das ruas, das esquinas. Para ele isso é pouco. Seu lirismo quer encontrar fantasmas, conversar com eles, aprender com eles. A palavra é sua única possibilidade de encontro, de restauração de memórias embaçadas pelo vivido e não vivido. Em estado catártico e ofegante, vai construindo seus poemas sem pontuação, sem respiração, trazendo velhos amigos, convidando novas palavras para fazerem parte de sua partilha poética. A leitura de seus poemas vai nos apresentando um cenário de natureza em estado inaugural, entre árvores, pássaros e sementes, em sensível sintonia com sua pureza de entrega poética e espiritual.

Manuel de Barros escreveu um poema que parece traduzir bem onde HÁmor de Marco Plácido se espraia:
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
(De: Retrato do artista quando coisa)                           Adriana Bittencourt Guedes
                                                                                13/06/2013

365 dias com poesia, 11 de dezembro de 2014 -- Gaviotas



Gaviotas

Tão delicadas mãos
Precisam de atenção
Do olhar adocicado pelo cuspe de palavras d’amor
Tão delicados olhos que precisam de quase tudo que quase todos nós precisamos do mundo e que quase nunca temos porque o mundo corre enquanto soluçamos devagar
Bem devagar quero escrever a sensação d’amar o mar como as gaivotas que se veem refletidas e devem pensar como todos que só existem gaivotas desconhecendo o tamanho dos outros animais tirando os peixes que desejam...
(...e por desconhecimento deixamos de aproveitar pequenos mergulhos singelos na vida e depois temos que ficar procurando rimas que nos acalentem as horas perdidas...)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

365 dias com poesia, 10 de dezembro de 2014 -- espanto



espanto

Por que tanta inteligência num homem só?
Repito: por que tanta inteligência num homem só?
Se espantou pelo tamanho da inteligência ou da solidão?

(como se não fossemos inteligentes o bastante para saber que a solidão é um estado d’alma que os poetas precisam para não morrer)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

365 dias com poesia, 09 de dezembro de 2014 -- cobras



cobras

O problema de envelhecer é perder a capacidade de imaginar se imaginar
Numa situação ideal
Perdemos já tanto que não conseguimos acreditar no calor da ingenuidade
Do sorriso franco desprevenido e dessa certeza passamos a não sorrir com medo de nos acharem burros ou malucos como sorrir numa vida difícil dessa? E aí sem sorrir nos fechamos cada vez mais na nossa rotina de desconfiança prevenida e nada fazemos que nos engane sobre nós mesmos e aí mesmo que vivamos muitos anos não estamos vivendo plenos estamos apenas sobrevivendo (quase rastejando...)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Caspar David Friedrich, quadro; Marco Plácido, Poema: Palavras-cruzadas.



Palavras-cruzadas

 

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Quadro de Camila Coelho, poema : sersempre

sersempre

Vendo um quadro de Camila Coelho...

Flores de emoção
A artista cobra azul a dívida toda
Com a lágrima roxa
Lótus-sol
Solta linhas e som
Colore o amor
Com mãos-olhos
Olhe e veja
Há uma serpente indicando calor na
Selva de pedra da cidade em que vivemos salva pela
Flor da idade cuja ilusão é arte

Marco Plácido

365 dias com poesia, 08 de dezembro de 2014 -- netos discretos



netos discretos

Insisto
É o mistério que criamos
Que nos dará histórias na velhice
Senão ficaremos olhando para o teto ou levando o cachorro para cagar
Seremos obrigados a fingir achar graça na graça da Tv da graça
Encolheremos isso é certo
Mas não precisamos gostar do tamanho de nossa solidão
(Lembremos que somos netos de alguém ou brinquemos de ser alguém com netos)

domingo, 7 de dezembro de 2014

365 dias com poesia, 07 de dezembro de 2014 -- forfun



forfun

seajuventudesoubessequenosmesmostrintaanosemqueeumorroelaenvelhecenã
oprestariaatençãonasminhasrugascomeçariaacorrerparaarranjarsoluçãoparase
usdesejosquenessesmesmostrintaanostambémenvelhecerãoecairãofedendosen
adaforfeito

sábado, 6 de dezembro de 2014

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov -- Poema: Siletium, de Tiúttchev

Silentium

Cala-te, esconde-te e encobre
Os sentimentos e os sonhos teus.

Dostoiévski, poema eternidade, depois d’Os Irmãos Karamázov


eternidade

A Dostoiévski, depois d’Os Irmãos Karamázov

DINHEIRO
Sangue e porrada na madrugada?
Que nada os exageros acontecem direto de dia
As pessoas por ele se xingam se matam se morrem
Filhos negam pais
Pais esquecem de sonhos
Todos se engalfinham sem razão
Na exata proporção da usura
Mesquinharia típica da dificuldade da vida
Vida sem poesia sem arte
Que nos dá a direção de quem somos
Que nos lembra o que sonhávamos
Sinônimo de memórias
Que nos tipificam como homens
Animais que aprendem eternidade com olhos e ouvidos atentos


Marco Plácido

esquinas, duma imagem do Amazing Geologist

esquinas

Duma imagem do Amazing Geologist

o mundo entre os dedos...
minúscula pedra
que mistura cores do segredo
que é viver?
que é sofrer?
que é querer colorir com dedos
sonhos requentados por pedaços de alentos
em acinzentadas esquinas?

Marco Plácido

365 dias com poesia, 05 de dezembro de 2014 -- Sissy



Sissy

Parabéns tia Ilza Marques

Se você pudesse agora saber quem sou...diria: Te agradeço pelo que você me tornou...doces recordações me fazem lembrar do seu amor por mim...lembro das risadas na praia...das idas ao Bob’s, do relógio, presente de quinze anos, e de você me levar incansavelmente para “patiar”! Ah, Sissy de Alhambra (Iziu, Bob, Zilza) como é bom te amar...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

365 dias com poesia, 04 de dezembro de 2014 -- peça de bicicleta



peça de bicicleta

é gostosa e bonita
a coragem de não saber e ir andando pelas palavras
sem
se
dar conta das
orações
pegar algum pincel velho e misturar às tintas usadas alguma nova cor não porque seja nova apenas porque ainda não se misturara e por isso produz SUR
PRESA
pegar um pedaço de peça velha duma bicicleta e colar um nariz fazendo a criança crer na possibilidade ali inventada do nada
gostosa e bonita
coragem de não saber e por não saber
F
A
Z
E
R arte

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

365 dias com poesia, 03 de dezembro de 2014 -- corpos



corpos

...é quase um carinho...
Como se o poeta dissesse não fique triste a solidão existe para nos ajudar a suportar a vontade de gritar alto que amamos todos os que amamos e que sem eles é quase insuportável viver as rimas são como primas que pudessem nos amar na mais tenra idade um amor de abraços e cafuné é como se o poeta suportasse por treino continuar a ficar em pé e pudesse mesmo por poucos instantes aguentar o peso do outro corpo que está a cair ao seu lado

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

pedrarosa, duma imagem do Amazing Geologist

pedrarosa

Duma imagem do Amazing Geologist

umabrutarosaumarosabrutadepedraquepenaninguémvaientenderalevezadumarosadepedradepenadeolhosdesacostumadosaentender

Marco Plácido

365 dias com poesia, 02 de dezembro de 2014 -- (poesia)



...nada mais é do que o arrepio sentido do susto da perda
Aquele choro engolido que saiu cuspido
O tiro perdido na rua que faz nascer em árvores pássaros

(poesia)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov -- Poema de F.I. Tiúttchev

À cova já desceu o caixão, de 1836

À cova já desceu o caixão,
Todos em volta se espreitam...
A custo respiram aos encontrões,
Um cheiro deletério oprime o peito.

John Lennon, poeta



Imagine

l
Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky

Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too

Imagine all the people
Living life in peace

You may say, I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A Brotherhood of man

Imagine all the people
Sharing all the world

You may say, I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one

365 dias com poesia, 03 de janeiro de 2015 -- QUEIXO



Cabelos negros
lembrando fumaça de incêndio
um olho
pôr do sol
outro
noite enluarada
por isso vejo
corujas e garças

sinto todos os perfumes
nariz
de floresta
desconfiado
com mãos que queimam
que se deixam levar por enxadas

queixo
empinado
coragem
de menino levado
Arrumado
enrolado em instintos
sigo...

365 dias com poesia, 02 de janeiro de 2015 -- solidões



solidões

a solidão do jogador de pôquer em Las Vegas

a solidão do jogador Adriano em Milão

a solidão do menino da Somália

a solidão do homem Nascimento nas Minas Gerais

a solidão do garoto Melodia do morro de São Carlos

a solidão do falido da Bolsa de Valores

a solidão do poeta na folha em branco

365 dias com poesia, 01 de janeiro de 2015 -- A FOLHA



A FOLHA

...o sol amplia a luz do dia
alegria em forma de quentura
semeio a semente dura da preguiça que trago
penso na árvore
e a esmago
fazendo suco de verde
consistência
que logo virará possibilidade
marrom verdade
que me dará
a tão desejada folha
que será coberta em poema

365 dias com poesia, 31 de dezembro de 2014 -- oração III



oração III

A Angélica, Vinícius, Victor e Thiago

Alguns amigos não perguntaram, mas, acredito, gostariam de perguntar:
Por que poesia?
Nunca respondi, agora tentarei:
Porque a poesia é uma forma inteligente de ferir sem machucar
Acredito que todos precisemos de, de vez em quando, jogar um balde d’água na cara dos outros E tento nos poemas inventar o balde a água e a força nas mãos para jogá-la e acertá-la
Num mundo tão infectado pela noção de obter vantagem seja de que maneira for
Acho que a narrativa do crescimento da semente em flor já passa a ser um ato revolucionário (prova de que podemos nos revolucionar)
Mínimo, concordo, mas algum ato é melhor do que nenhum ou ficar invejando aqueles sujeitos que aparecem em programas de milionários que muitas vezes até são milionários, mas suam tanto o vazio de sua existência que funcionam mais como algo mal digerido que acaba ajudando a provocar a vontade de vomitar (e entre provocar e ser provocado prefiro a primeira...)
A poesia acaba sendo uma pequena muda de um mudo (não porque não fale, mas porque não querem escutá-lo) que escuta os barulhos do mundo e planta esperança num balde sujo num canto de varanda
E aquela semente acaba sendo a única esperança de proporcionar sombra algum dia...
Acaba sendo a única possibilidade agressiva de cantar num canto o espanto
Gritar como um punk que descobre que na manhã seguinte terá que enfrentar sua primeira fábrica e que se não estudar terminará seus dias rezando baixinho ao capeta por raiva daquele mundo que quis explodir e não teve coragem
A poesia muitas vezes equivale aos socos do MMA que quebram a mão do corajoso ou louco que sai testando sua aptidão desconhecendo que no fundo todos estão torcendo contra porque sua vitória seria na verdade um nocaute no paradigma de Platão e ninguém quer admitir que num pequeno poema há a possibilidade de tamanho colosso
Também como um osso para o cachorro a poesia é essencial para o poeta que não pode abrir mão da vida em sociedade porque já está arraigado às suas vantagens (ora aos poetas também cabem algumas vantagens!) e dessa pequena narrativa diária amenizar a insatisfação pessoal com o rumo que as coisas continuarão a seguir já que todos fingimos não ver escutar sentir
A verdade registrada como um vício num poema é que ajunta o poeta a si e afasta os leitores que se assustavam se assustam e se assustarão não com a diminuta quantidade de palavras mas com a intensidade das orações muitas vezes adivinhadas pois o poeta intuí mais do que sabe (faz orações mas muitas vezes não reza por não poder acreditar em outro poder criador maior do que o seu...)
Poderia continuar apresentando tantas razões poéticas quantas fossem possíveis rimar
Porém pretendo apenas afirmar que
A poesia é o cheiro do encontro do sujeito com seu sonho, sendo ela talvez mais do que qualquer outra nova metáfora apenas a vontade em palavras do poeta precisar sonhar...

365 dias com poesia, 30 de dezembro de 2014 -- ditado



ditado

Dito por uma amiga da minha esposa
Experiente admiradora de poesia
Argentina que conheceu Drummond e Borges
Pessoalmente:
“Marco, apenas não desista!”

365 dias com poesia, 26 de dezembro de 2014 -- Pink Floyd



Pink Floyd

quando daqui a trinta anos estiver escutando a música do Pink Floyd velho e doente espero que todos saibam que nesses trinta anos em que escutei a música do Pink Floyd eu tentei não ficar só ouvindo a música do Pink Floyd fiz as minhas ainda desconhecidas pintei quadros desbotados rimei forte e veloz mas como vocês podem perceber o mundo não mudou por causa disso todas as guerras foram perdidas todos os homens que não morreram continuam sofrendo perdidos e tudo continua confuso mas pelo menos mesmo confuso também eu fui um pouco feliz por tentar

365 dias com poesia, 25 de dezembro de 2014 -- cedro



cedro

Hoje
Acredito no conceito de Deus
Sendo o amor com que olho uma flor
Sendo o amor com que pinto uma cor
Sendo o amor com que sinto uma dor
Acreditando que vá passar
Acreditando que vá rimar
Acreditando que vá florescer
Um sentimento único em mim e em você

365 dias com poesia, 25 de dezembro de 2014 -- temp(l)os



temp(l)os

 

simplesmente já não sei mais a quem rezar
crucificaram o único homem de que tinha boa notícia os outros são os que querem vender o templo o tempo o medo os segredos

365 dias com poesia, 24 de dezembro de 2014 -- manjedoura



manjedoura

naquele calor sobre-humano do deserto que temos dentro espero chuva de olhos que amoleçam cabeças que repudiem histórias outras ouro em minas camas nas restingas camisas suadas de vidas espero expectoro signos rimo rimas lindas curvas feitas de retas pintadas de amarelo-limão confiança na solidão que trará outro jeito ouro e feno para um menino ingênuo poder chorar ao acordar

365 dias com poesia, 23 de dezembro de 2014 -- CICLO



CICLO

Nascimento:

vida,
vida,
Vida,
Vida,
Vida,
Vida,
vida,
vida,

Morte.

365 dias com poesia, 22 de dezembro de 2014 -- N.A.D.A.



N.A.D.A.

Dizem que depois do quando vamos par’algum lugar
Se já não acreditava nisso antes
Agora
Depois de cinco horas de cirurgia anestesiado e vivendo no mundo do nada
Não acredito mesmo
Só soube onde estava depois que acordei vivo
Se tivesse ficado apagado estaria no nada absoluto
(virado estrelinha como mentimos às crianças)
Sendo estrela que brilha para os outros sem saber brilhar para mim?
Há algo mais nada do que isso?

365 dias com poesia, 21 de dezembro de 2014 -- deuses mortais



deuses mortais

Sobreviver não basta!
Desculpem
Os realistas os pragmáticos os asmáticos os aficionados
Pela pureza do raciocínio
Lógico
Que não há a mínima possibilidade de num mundo totalmente irracional
Querer tudo explicado e simples
Simplesmente porque não conseguimos ser simples não devemos ser simples pelo simples motivo que nascemos para deuses
Imaginando soluções para o tempo em que estamos estupefatos e parados por saber-nos extremamente mortais