quinta-feira, 30 de abril de 2015

365 dias com poesia, 30 de abril de 2015 -- dezessete anos

dezessete anos

À memória de Fê

Irmão engraçado que a maioria ainda desconhece a força da ilusão
Todos juntos poderíamos sonhar um país
Mas não conseguimos nem estender as mãos
Num aperto frágil mas sincero
Não conseguimos mais ser sinceros porque queremos o que é do outro sem esforço

Ninguém gosta da força da descoberta no processo todos só querem o resultado corrido apertado em peitos cada vez mais juvenis engraçado que achávamos que éramos jovens mas hoje acho que éramos (e somos ainda) eternos na capacidade de amar mesmo sem nos tocar há mais de dezessete anos...

quarta-feira, 29 de abril de 2015

FREDERICO, primeiro poema. Imagem de quadro de Pancetti.

FREDERICO

Primeiro poema – Homenagem ao meu irmão Carlos Frederico Cruz Plácido

Depois que você partiu
Difícil foi prosseguir
Mas continuar é preciso
Como é preciso amar
Como é preciso ensinar uma criança a andar, falar, comer...
Como é preciso aprender a caminhar
Sem rumo e sem vontade.
Só.
Depois que você partiu
Difícil foi prosseguir
Nada se mostrava
Interessante era
Pensar em você aqui
Junto aos seus
Que sempre te quiseram --
Querem, por perto
Apesar de quase sempre
Negar a palavra
Do afeto
Esquecida.
Lágrimas vertidas
Enxugadas em sangue e suor.
Sem você tudo mudou
Todos estamos
Condenados a esperar
o enlace final
que a seu tempo chegará
Então aprenderemos
Juntos
A amar, caminhar, navegar....
Com prumo e com coragem

Rumo a você.

365 dias com poesia, 29 de abril de 2015 -- sabor

sabor

flor na flor, cor

cor na cor, incolor

dor na dor, indolor

terça-feira, 28 de abril de 2015

365 dias com poesia, 28 de abril de 2015 -- machado

machado

 rápido e indolor

um poema
é um machado
no caule de uma árvore de certezas


...e deixa marcas que podem ser chamadas obras de arte

domingo, 26 de abril de 2015

Marc Chagall -- Poema: A sinagoga de Vilna

O velho shul, a velha rua
Eu os pintei faz apenas um ano
Agora a fumaça sobe ali, e cinzas

E a parochet (cortina que cobre a arca com a Torá) está perdida.

Onde estão seus rolos da Torá?
As lâmpadas, as menorás, os candelabros?
O ar, que gerações encheram com a sua respiração,
Evapora no céu.

Tremendo, aplico a cor,
A cor verde da Arca da Aliança.
Inclino-me com lágrimas nos olhos,
Sozinho no shul -- a derradeira testemunha.


Shul é sinônimo de sinagoga.

365 dias com poesia, 26 de abril de 2015 -- Borboletra 2

Borboletra 2

aqui
é
escuro
luzes
me incomodam
o aperto
é
de certo modo necessário
um pingo numa letra
por vezes é um estuário
às vezes balanço
avanço
pensamentos
voam
e me aquecem
o som a sombra
o certo o incerto
tudo
valoriza minha solidão
e desde que comecei a me entender
acredito acredito acredito
piamente
no devir
só assim devo atingir



Livro HÁmor

sábado, 25 de abril de 2015

365 dias com poesia, 25 de abril de 2015 -- Planteu

Planteu


Eu nascendo, flor

Eu crescendo

Eu correndo

Eu aprendendo

Eu sofrendo

Eu crescendo

Eu querendo

Eu aprendendo

Eu sofrendo

Eu sofrendo

Eu encolhendo

Eu sofrendo

Eu sofrendo

Eu sofrendo


Eu morrendo, flor

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Marc Chagall, quadro: O morto. Poema de Willi Wolfradt

Um céu de Gólgota se estende por toda a extensão da Terra perpétua. O hálito da morte sopra imensamente pelo céu, estufa até se tornar uma palidez de arrepiar e se enovela em uma luminosidade amarela esparramada sobre o reino terrestre, de tal sorte que as coisas vivas emudecem perante sua força elemental. O furacão da imobilidade do cadáver deflagra o embate de cores exaustas pela vida, até serem consumidas pelo fogo dos lamentos de Laocoonte.

Marc Chagall, por With

Uma parte dele é reservada (...) melancólico e consumido internamente por uma paixão ardente, imaginativo, rancorosos, acreditando em milagres, explosivo, movido por sua vida íntima, sofredor, sem defesas, e um fantasiador descontrolado. Carente de consolo, pequeno, temente a Deus e perseguido pelo mundo.

O outro lado é sensual, mundano, sensorial, barroco e florescente. É elástico como um animal, ágil, dado a acessos de birra como uma criança, doce e encantador, amistosamente tímido e ao mesmo tempo m,arcado por uma rudeza de camponês e o deleite do sujeito do interior por tudo o que é colorido, deslumbrante e comovedor. Tudo isso, contudo, sem refinamento, mas com uma sensibilidade natural e inconsciente, entre sentimental e maldosamente quase pânica. E é esse todo que o afasta de Lyozno e o arremessa na cena europeia, nos centros de uma civilização excessiva, e o transforma em um homem do mundo, em um modernista e um cavaleiro (...) Mas, do que mesmo que esse traquejo o leva ao mundo, sua força interior sempre o leva de volta à Rússia, ao seu povo e aos seus pequenos casebres miseráveis.

365 dias com poesia, 24 de abril de 2015 -- Crianças

Crianças

À memória de Bertha Plácido

Criança
Como estas?
Já virou rosa ou árvore frondosa?
Já construiu um jardim de sorrisos para mim?
Nesse mundo cinza suas cinzas espalhadas são a esperança

Sinto saudade de sua definição de solidão: “Cada plantinha tem um verde diferente...”.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

365 dias com poesia, 23 de abril de 2015 -- combustível

combustível

O mundo é essa dificuldade danada

Principalmente porque não temos todo o tempo e quando temos tempo algumas coisas importantes foram deixadas de lado algumas pessoas importantes foram deixadas de lado pior é quando perdemos algumas delas e constatamos que nunca mais serão alcançadas e é esse senso de realidade dos momentos que perdemos que gera o combustível para a obra de arte seja escrita cantada pintada da necessidade que aperta o peito é que saem sons palavras imagens que nos reabilitam minimamente perante nós mesmos e dá um pouco de alento já que não podemos voltar atrás fica uma sensação dolorida daquilo que deixamos escapar porque estávamos ocupados fazendo outra coisa prestando atenção em outro ângulo da vida e não há jeito sempre seremos devedores emocionalmente desses momentos porque enxergamos pouco e também não aprendemos a hierarquizar pessoas e momentos e vivemos meio que trocando pneu dum carro desgovernado e com isso sempre haverá momentos perdidos pessoas perdidas a serem resgatadas felizmente para os artistas é menos difícil adoçar essa relação entre o passado redivivo e o presente dolorido porque acabamos chorando por gritos escritos acabamos pingando signos

quarta-feira, 22 de abril de 2015

365 dias com poesia, 22 de abril de 2015 -- Suspiro

Suspiro

...não se estrague em desesperos impróprios somos nossos
corpos mas também somos mentes somente os dormentes não
sentem nossas rugas são maduras decisões de vivermos juntos
tudo somamos e dividimos uma parte do mundo escolha de
menina e menino com adultas conseqüências somos essência
perfumes perfumamos (defumamos) nosso ócio somos um
breve suspirar de amor num mundo póstumo



Livro HÁmor

sábado, 18 de abril de 2015

365 dias com poesia, 21 de abril de 2015 -- escondido

escondido

 


não sei se senti a necessidade psicológica de frear
ou se foi meu corpo que não aguentava mais
pela idade
a velocidade
descomunal
da vida virtual
há quase um histerismo coletivo
esoterismo coletivo
auto ajuda egoísta
afirmativos demais
certezas radiofônicas demais
fingimento demais
então
acabei decidindo
em ser
quem eu já era e escondia
optei
pela dúvida
da poesia 

365 dias com poesia, 20 de abril de 2015 -- Essência

Essência

quando
eu for
saiba
nada mudará
o mundo é lindo
de cima das asas dos passarinhos
a distância
às vezes
não atrapalha
quando
eu flor
saiba
tudo se ajardinará
o cheiro é findo
por isso
devemos cultivar
nossa
essência


Livro HÁmor.

365 dias com poesia, 18 de abril de 2015 -- CEGUEIRA

CEGUEIRA

Após Ensaio contra a Cegueira, de José Saramago


Cá estou
Cego
A sentir e ouvir
Histórias de desamor
Ignomínia
Maldade
Descobri com pavor
Do que nós humanos
Somos capazes
Em qualquer idade
Quando a situação aperta
Fique alerta
Se não vão querer
Comer seu coração
Os desalmados
Necessitam
da nossa ingenuidade
da nossa coragem de fazer
para dela se alimentar
e tentar viver
uma vida menos sofrida
menos poluída
por seus pensamentos torpes
alva cegueira
em um mundo escuro e feroz
habitado por pessoas
cujo sentimento frio e atroz
passa a ser o desejado
para manter a tênue sensação
de que sem razão
fica menos difícil sobreviver
(fraca afirmação
para quem vai morrer
de qualquer modo)
escolher não se enamorar
pela vida e pelas pessoas
que são encaradas como inimigas
ou amigas para o deleite do sexo sem prazer
apenas por medo de morrer
Quem está cego
Eu que enxergo
e pago para não me aborrecer?
Ou você
Que não quer enxergar
Para não dissipar
a obscura sensação
de prazer?


Primeiros livros.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

365 dias com poesia, 19 de abril de 2015 -- (NATUREZA)

(NATUREZA)

escorre terra dos meus dedos
(NATUREZA)
dos meus olhos desabam cachoeiras
(NATUREZA)
nos meus ouvidos canta o eco de um grito,
saudade de pedra
(NATUREZA)
dos meus joelhos pingam verdes pastagens
(NATUREZA)
desculpe, mas
o que quero salvar de mim mesmo?



Livro HÁmor

365 dias com poesia, 17 de abril de 2015 -- As flores de dentro

As flores de dentro

uma flor murcha
em palavras caçadas da memória
necessário continuar a busca e é essa a dor do resgate
uma flor se abre
em palavras cantadas que expressam a dor de conhecê-las
necessário continuar soando e é esse o cansaço do processo
(tanto murcho
quanto me abro
mas
é necessário...)



Livro HÁmor

quinta-feira, 16 de abril de 2015

365 dias com poesia, 16 de abril de 2015 -- Arca

Arca

quem não gosta de fotos
não gosta do tempo
vi numa arca o passado esperando o presente
sorrisos que já não mais existem
esperando serem recordados
olhos acordados
que agora dormem
sonhos que florescem ainda por nascer...



Livro HÁmor

quarta-feira, 15 de abril de 2015

365 dias com poesia, 15 de abril de 2015 -- Cisco

Cisco

Desenho em cor
O perfume que me ficou
Da perda
Pedra
Dum tamanho indescritível
Cerda
De tamanho quase invisível
Mas que incomoda
Em todos os momentos
De olhos abertos, um cisco
De olhos fechados, a sutil possibilidade do sono



Livro HÁmor

terça-feira, 14 de abril de 2015

365 dias com poesia, 14 de abril de 2015 -- Novelo

Novelo

pairando
sobre as letras desse livro de poemas
vejo uma asa
do anjo
amor
fios do seu cabelo
formam
o novelo-sentença
que me define como poeta



Livro HÁmor

segunda-feira, 13 de abril de 2015

365 dias com poesia, 13 de abril de 2015 -- Transformares

Transformares

(a arte poética é feita do verbo transformar...)
transformar a dor em lar
transformar o mar em acalmar
transformar o olhar em desejar
transformar o desgosto em outros
transformar-nos
de suposto em gosto
de sono em colosso
transformar transformar transformar
...transformares sem uma gota d’água



Livro HÁmor

domingo, 12 de abril de 2015

365 dias com poesia, 12 de abril de 2015 -- Jardins

Jardins

se da única certeza
retirássemos força para nos lançar na destemida vontade de nos
realizar os psicólogos estariam todos mortos de fome...
...e os hospícios dariam lugar a jardins



Livro HÁmor

sábado, 11 de abril de 2015

365 dias com poesia, 11 de abril de 2015 -- Esperanço III

Esperanço III

A Pablo Picasso

A língua, filha de silêncios, desliza a ponta, faca,
E arranca o aroma do ramo de flor
Eco de pedra, espada,
Grito de dor
Que mira o corpo quente
Que espera a gota ardente
Do amor
Horas arrancadas do silêncio
Gemem torpor
A abelha na roseira
Faz música da angústia
Insano odor
De cabelo vermelho
Que se mistura ao amarelo

E me faz sorrir

sexta-feira, 10 de abril de 2015

365 dias com poesia, 10 de abril de 2015 -- Little blues

Little blues

Pequena chama que clama lágrimas
Grito de cordas que chora palavras
Pequena luz na escuridão da noite desconhecida
Azul num breu cinza

Um blues sou eu olhando num pedaço de caco de vidro do que me sobrou

quinta-feira, 9 de abril de 2015

365 dias com poesia, 09 de abril de 2015 -- CORRA GUMP CORRA

CORRA GUMP CORRA

Corra Forrest
Corra
O cara virou corredor
Para correr da dor
De assumir amar
Quem lho amando
Dele fugia
Como o diabo da cruz
Correu, correu, correu
Para não chegar
Para não pensar
Como iria viver
Sem seu bem-querer
Ficou famoso
Arrebanhou seguidores
Pessoas sem amores
Sem vícios
Enfim
Sem nada
A apresentar
Por isso
ele parou e voltou
a esperar
a tentar conquistar
o amor de sua vida
bendita
sofrida
corrida
de todos os sonhos
que ouvia não poder realizar
mas mesmo assim
no final
no seu jardim
plantou
e viu
desabrochar
o fruto do seu amor
e até
podia contar
sobre como era viver
do amor de uma vida de lutas e glórias
das quais ele nunca pode se orgulhar
por ter vivido para sentir a dor
de amar!



Primeiros livros.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

365 dias com poesia, 08 de abril de 2015 -- CÉU DE PANCETTI

CÉU DE PANCETTI

O azul acinzentado
do céu das marinhas
de Pancetti
produzido da mistura de tintas
com as cinzas
do seu charuto
demonstra claramente
que a tecnologia
não é necessária
para a produção artística
nessa estão em jogo
fatores outros
que computadores
programas de desenho e
quaisquer novas técnicas
não podem suprir
Suprimir dificuldades
Trazendo facilidades
Faz parte de sua função
Mas o coração do problema
não estará resolvido
A obra de arte
há que ter um motivo
Que a faça relevante
Nuvens pingando diamantes
No chumbo azulado
podem minorar
enfeitar e criar
Uma atmosfera lírica e anil
Mais importantes
que a estéreo e  febril
tecnologia!


Primeiros livros.

terça-feira, 7 de abril de 2015

365 dias com poesia, 07 de abril de 2015 -- CRIAÇÃO

CRIAÇÃO


Criou-os
Abençoou-os
Chamou-os de filhos
Gerou mais
Arrependeu-se
pela maldade
irritou-se
Diluviou
Cheirou o suave cheiro
Abençoou
O dia e a noite
O inverno e o verão
Perdoou
Mas não foi perdoado!


Primeiros livros.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

365 dias com poesia, 06 de abril de 2015 -- Homem de pedra

Homem de pedra

Homem de pedra
Aquele que cala a lágrima
Aquele que sempre tem razão
O que sente o silêncio e só
Vomita solidão
O de mãos finas e canelas machucadas
Por não querer enxergar o tamanho dos tombos
O que nega o cansaço como se ele não pudesse ser rido
Um menino que vê rugas onde poderiam existir saudades
O homem de pedra sou eu?

(Talvez por ainda estar perguntando responda não...)

domingo, 5 de abril de 2015

365 dias com poesia, 05 de abril de 2015 -- Desabrigados

Desabrigados

Às vítimas do Morro do Bumba, 5 anos depois...


...agora
essa criança
que nunca votou
Vai aprender a força da palavra solidariedade
Vai aprender que tudo de ruim que aconteceu pode piorar
Vai aprender...
E talvez
Se chegar a idade adulta
Não tenha mais forças para se revoltar
Agora
É desse jeito com esse cheiro que nós vamos ter que nos virar

sábado, 4 de abril de 2015

365 dias com poesia, 04 de abril de 2015 -- MILHAZES

MILHAZES

Se eu fosse pintor
Nunca seria
Tradutor de imagens
Fiéis da natureza
Fotografia serve para isso.
Se eu fosse pintor
E conseguisse traduzir tudo o que sinto
Vendo o movimento das pessoas nas ruas
Sentimentos de música, teatro, balé
Com cores, pinceladas ritmadas, meio bebopianas
Talvez pintasse como Beatriz
Seus arabescos multicores
Espelhando mil amores sem-fim
Qual um caleidoscópio
Nos botando a girar
A cabeça pra funcionar
Tendo que olhos de mosca ter
Para tudo apreciar
Seria muito bom
menos bom que ela
Dulcíssima quimera
A me inspirar
A apreciar
A arte
Sem querer entender
Se moderna, conceitual e coisa e tal
A arte do belo
O belo pelo belo para o belo
Embelezando nossa triste existência
Mas por conseqüência
dos seus milagres
menos pobre e servil!


Primeiros livros.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Alessandra Molina: Havana, 1968. Minuciosa e contida, surpreende tanto quando junta natureza e artifício, paisagem e mente, como quando indaga, “à maneira de um estudo”, algum fragmento da vida.

PÁTRIA DO IDIOMA

O Inverno não tinha terminado
mas nas árvores ecoava o coração de uma fogueira,
o rumor dos rebentos que incham a velha pele
e partem uma a uma as pontas mais finas dos ramos.
Com as suas asas, com o seu breve pousar,
com o seu bico e as suas garras minúsculas,
os pássaros enchiam o ar da cor e dos fragmentos
daquele fogo primaveril
que voltava a fazer os seus primeiros anúncios.
Do mesmo modo, tínhamos o ânimo de uns estudantes
            estrangeiros
que tivessem chegado ao país
um pouco antes da data acordada.
Sobre a mesa
os citrinos mostravam um lustro incandescente
que naquela manhã não nos parecia artificial.
            Convidávamos
e houve até um momento de refutação pouco solene,
alvoroçada,
quando alguém advertiu – tinha-lho dito a sua mãe –
que comer tangerinas em excesso
era a causa de uma doença chamada escorbuto.

O Inverno voltou, açulou,
o rumor dos rebentos apagou-se contra o vento,
os pássaros apareciam a desoras.
Só os frutos, com seus lustrosos brilhos
conseguiam reter aquela promessa da Primavera.


Primavera.
Tangerinas.
Escorbuto.


De que galho secreto, torcido e nodoso, pendiam as
            palavras?
E para onde pendiam com o seu erro ou a sua verdade?
Recordei com vergonha tão fácil refutação

e a sua mãe que há anos estava morta...

Damaris Calderón: Havana, 1966. A sua poesia parece derrubar todos os limites, ao transmitir, sem o menor alarde, uma experiência de intenso e infindável desenraizamento.

DOIS GIRASSÓIS SOBRE O ASFALTO


No terminal ferroviário
sentada com a minha mãe
dois girassóis sobre o asfalto.
A sua mão apaga toda a suja paisagem. Nunca comi senão
            dessa mão
nunca
senão desse fruto macerado.
Ensinavas-me um caminho para que não me perdesse.
E sempre regresso, pequeno afluente,
procurando um pouco de sossego
como ao enfermo se dá
uma colherada de sopa
e a colher faz frias,
metálicas promessas
até que a cabeça se detém
recostada contra o velador.
Uma larva cantando a um verme
-- a canção roída por dentro,
O talo resplandecente conectado ao tubo de oxigênio.
O mar, como um patrulheiro
pisando-me os calcanhares.
Talassa talassa

Tentei viver sete vezes.

Omar Peréz: Havana, 1964. Formado em Língua e Literatura Inglesas, e com pleno domínio de outros idiomas, é um notável tradutor.

CONTRIBUIÇÕES PARA UMA
IDEIA RUDIMENTAR DE NAÇÃO

Nas voláteis noites de um Inverno
que a natureza confirma com magnanimidade
o cubano treina-se para a diversão ou para a amnésia,
muito injustamente supões-se às vezes que são a mesma coisa
leva doces a Deus, fermenta os dialetos
combate a cirrose com fruta em calda, faz comércio;
diz-se então que O Cubano inventa.
Nas pesadas coreografias de um Verão
vai o cubano até ao oceano com oferendas e arpões,
enumera com os dedos as perdas, exerce a infração
leva as mãos aos bolsos, jura e compromete-se;
diagnostica-se então que O Cubano inventa.
Assistamos ao território improvável
onde o cubano e O Cubano conversam viril, pastosamente
ali perceberemos em que travessias, em que estranhas
            paragens
em que trocas

contraímos tanto engenho.

Antonio José Ponte: Matanzas, 1964. Narrador e ensaísta, é na atualidade um dos escritores cubanos de maior prestígio, com pleno domínio de um estilo próprio, austero e rico em digressões, ao mesmo tempo preciso e reflexivo.

ENTRE OS COLEGIAIS D’ OS KARAMAZOV

Também te gritaram como gritam
Àquele que apanha pedras da rua,
e atiraram-te à cara a magreza,
a pouca força
nalguns exercícios que os demais superavam.
A tua inteligência reconheceram-na os professores,
o bom caráter em tua casa.
Os da tua idade somente viam o quanto te demoravas
a responder aos insultos com insultos.


Não eras como os outros.
Quiseste-o
ou quiseram-no eles para ti.
Eras esse rapaz carregado de pedras
entre os colegiais d’Os Karamazov.
Procuraste como ele transformar-te em algo sem vida
(um cristal, uma estrela, um adulto longínquo),
viver noutro dia...
A luta, contudo, não estava terminada.
Tantos anos depois porém ainda gritas
“Faz-te pedra,

golpeias”.

Ismael González Castañer: Havana, 1961. Professor de Física e Matemática numa escola secundária, logo abandona essa profissão para se dedicar à literatura, enquanto sobrevive como vigilante noturno do Museu Quinta de los Molinos, lugar de encontro dos poetas de sua geração.

ELA DESEJOU-ME SORTE
E DISSE-ME OLHA POR TI

A minha mulher, precisa de estar junto daquele que está
            Com o dinheiro,
e eu, de morrer pela natureza das coisas.
Adeus, malandra: já te amava.
Tudo o que fiz foi caminhar
e ver os números ímpares deste lado
e os pares do outro...
e ainda penso que ninguém poderá amá-la/voltar.
Vou, irei dormir à minha janela. Saibam que, de isto,
não estou muito certo: tiveram de lhe mostrar
“Agarra-te/ ao amor ao amor esse amor”,
e a mim tiveram de dar-me a tribuna, não
“Conquista-a”.
Adeus, malta; adeus pequenas coisas
que alguém lhe montaria com as suas mãos
antes das 8ito.

Adeus, venturi – aparelho modelar.

Rolando Sanches Mejías: Holguin, 1959. Reconhecido como um dos melhores poetas e narradores da língua espanhola, vive exilado desde 1997 em Barcelona.

ABSTRATO


Na habitação há um quadro de dois metros de comprimento. Não está bem pintado. Talvez tenha sido feito à pressa (alguém tinhá de partir, ou chegar, ou o pintor era simplesmente medíocre). Não sei como se chama esse verde, abstracto que com um pouco de branco (também abstracto) que vem da janela (do quadro) faz da pintura uma possível “reflexão sobre o verde”. Ou o branco.
Pode-se refletir sobre o branco? Estou sentado do lado de cá, pensando, não inteiramente no quadro, porque tenho uma parte da cabeça posta no quadro e outra (outras) num lugar ou em vários ao mesmo tempo. Num dos lugares espera-me uma mulher.
Olha-me com a sua pobreza de verde-ouro nos olhos (a pele pálida, a da minha esposa, como a tua pele). Diz-me: “Porque não regressas? Eu ensino-te o caminho.”
Tantos anos e não encontrei o caminho! Verde abstracto e barnco abstracto, o pintor deixou escorrer um pouco a tinta, ou raspou, raspou depois para que os móveis – uma máquina de lavar roupa, uma estante para utensílios de cozinha, um bocadinho da substância que escorria, como leite – abstracta – da janela.

Eu continuo a pensar, mas agora os meus olhos estão postos noutra coisa.

Ángel Escobar Varela: Guantânamo, 1957 – Havana, 1997. A sua infância foi marcada por um acontecimento trágico: o pai matou a mãe com uma navalha de barba. Esquizofrênico, se atirou da janela em 1997.

A IDADE

Alice, Lewis Carrol já te deixou. E agora,
Agora és tu que corre, a que procura
Debaixo de uma pedra. Há manchas
e limites deslocados. Há outra imagem e outra,
e há outro espelho e rostos e bonecas
narrando uma história de borrachos.
Há gorriões – uma vez vi um candil – e há
Autocarros apáticos.


Domingo. Dominó. Domine. Deus.


Branca, Blanca Armenteros,
Alice deixou-te.
“Toma o teu comprimido” – foge
Dizem-me.
-- Dei o passo em frente e agora
já está
dado

            em frente em frente em frente
            para o lado para o lado para o lado
           
em frente em frente em frente
            para o lado para o lado para o lado

Branca, Blanca Armenteros.

Já Lewis Carrol que sei eu.

Reina Maria Rodríguez: Havana, 1952. Licenciada em Literatura Hispano-Americana, obteve com Para un cordero blanco, em 1983, o prestigioso Prêmio Casa das Américas.

LE COUPLE (1931)

um escultor francês de origem russa
esculpiu o teu rosto no gesso
(escolheu este instante e não outro; escolheu este quadro,
ou nenhum) o triângulo do queixo, o gesto
que se inclina para oferecer a boca
o álcool armazenado nas veias do pescoço
azuis brancas ácidas
o desejo, o ângulo da clavícula aloja
uma fortificação (uma ponte) ao beijo.
em frente, à esquerda da sombra do meu rosto, vaga
-- o fundo é sempre negro –
o relevo da tua beleza, a ocacidade dos meus olhos
(eu observava as sombras, sem demora descobri que essas
            Sombras
Possuíam luz, ou um certo resplendor que feria se não
            Inclinava
As pálpebras para te ver)
Ficamos eternamente ali, na companhia de Ossip  Zadkin
Um escultor francês de origem russa

Que não nos conheceu.