quarta-feira, 29 de junho de 2011

olhos torpes

a arte explica a sensação
imita os atos para contestá-los
atinge o alvo
quando magoa
os olhos torpes
que à toa
buscam entreterimento onde há insatisfação

coceira

pensamento capturado todo poema é um pássaro aprisionado magoado o poeta magoa escrevendo verdades plasmadas da vida que segue desprevenida assustada como o poeta que escreve para se coçar

definitiva

...em quantos poemas secarei minhas lágrimas?
desculpe, mas não tenho uma resposta definitiva
a despedida
que cisma em dar as caras estragando a alegria quase infinita que sentia ao ver sua alegria definitiva

passagem

não queria estar dolorido
colorindo as letras com águas de saudade até pouco tempo atrás sabia mas não escrevia sobre a passagem desta para o infinito por isso grito como se fosse poder ser escutado em algum lugar do espaço

consigo

dificilmente meus poemas têm ponto final
igual a vida que não acaba o corpo falece o corpo sem alma
a calma dos defuntos é a calma da lembrança guardada em todos os parentes e amigos que carregam consigo parte do mimo nos olhos de saudade

justo

Cansei de procurar bondades em rostos estranhos
ao meu
os meus são esplendorosos na alegria miúda, justa
alegria de quem sabe que é amor sentido amor que faz sentido mesmo que aos trancos e barrancos cansei de procurar palavras ou só há expressões fechadas clima de negócio antes de ser fechado ódio aos diferentes porque indiferentes sofrem menos (pelo menos na teoria)

JOAQUIM CARDOZO, poeta

"CINEMATÓGRAFO


E assim vos digo:


Foi no engenho Araçu que encontrei o Persinunga:


Colhi a rapidez das suas correntezas,
Apanhei todas as cotas do fundo do seu leito,
Detive o volume de suas águas cor de mel,
Liguei, amarrei muito bem as suas margens cobertas de ingazeiras.
Dentro da minha caderneta de campo
Que tenho ali guardada naquela escrivaninha.


Em tardes de verão, quando me regresso nas lembranças.
Faço correr o persinhnga. Liberto suas águas morenas,
E me contemplo nelas. Contemplo as esperanças de longe
Na paisagem de outros tempos;
E, molhada nessas águas-imagens, impercebida e rastejante,
Uma insinuação de presenças invencíveis se propaga.".

alicates

entre dedos
dados passam
alicates arrasam
canetas esgotam
a tinta de uma vida

almas

de repente
passei a acreditar em almas
almas
são os olhos de saudade
de pessoas
ensimesmadas

respiração

tenho opinião
segunda respiração
acho
acho porque não faço
a dificuldade inibe a coragem
a vaidade inibe o risco
a certeza inibe a ambiçãoum leigo como uma poema há muito mais do que ar numa simples fala

Futebol

a vida é uma mistura de saúde, conhecimento e dinâmica
conhecimento é o domínio da bola
dinâmica é a capacidade de jogar futebol
correr, pular, defender, atacar
mas mais importante
do que conseguir achar a posição que nos levará à vitória
é cair no time certo, que seria a sorte

livros e discos

agora entendi
o sonho que tinha em criança
se explica
se sustenta
aos doze tentei
aos vinte e dois também
aos trinta e dois com a morte de meu irmão não tive tempo de tentar submergi
e só estava preocupado em respirar aos quarenta e dois depois de uns dois meses vomitando pela manhã descobri a saída e passei a vomitar poesias no processo não fui levado a sério o que para meu raciocínio matemático foi um desastre lutei contra tudo e quase todos mas agora estou livre das explicações com mais tempo para trabalhar no que é importante: lançar livros e discos

terça-feira, 28 de junho de 2011

irreal

não se imagina a realidade
vem estampada na nossa cara com litros de sangue pingando dos jornais vespertinos assasinos nos convidam para o café da manhã e amanhãs ninguém irá ler poema novo pois o poeta está transbordando de vida real vida real não serve para nada irreal

tripas

única solidão perceptível
porque dói
mói
corrói
as tripas
a virilha
como íngua
não se dissipa
como a chuva no asfalto
alto preço a ser pago

GLAUCO FLORES DE SÁ BRITO, poeta

"DA PUREZA

Não é o teu olhar de lua e verde
ou teu aire de sal e de presságio;
nem o sorriso, fonte de clareiras,
a dissipar as insuspeitas mágoas;

nem o silêncio, cão alerta à mágica
das palavras, do gesto e do segredo,
e não trazes gravado sobre a face
o que me atrai (talvez nem o percebas)

e prende como um imã: é essa pureza
intrínseca e perfeita que te resta
e me devolve os sóis de que careço.

É tua pureza idêntica a uma réstia
a trespassar meu ser, e em ti me vejo
no que sou de memória e descoberta".

WILSON ROCHA, poeta

"EXTENDE MANUM TUAM SUPER MARE

a Maria Inés Maldonado


Busca os mistérios mais sutis, esses
de que se formam as coisas mais simples
-- o sortilégio do azul, por exemplo,
que é a infância das sombras,
e a tristeza do amor,
feito de solidões.
Olha profundamente a beleza fugitiva,
a forma vã, a pequenez da criatura
-- essa impressentida extensão.
Guarda cada momento, que é a vida passando
-- esse mover-se em distâncias.
Escuta, no teu e em cada coração,
o fluir da eternidade destilando
a densidade dos tempos.
Contempla a majestade do infinito.".

ninguém

a solidão é tanta
a solidão é tamanha
que passo horas a procurar
alguém
que possa explicar
como nos encontramos sem saída?
procuro por horas, minutos
segundos que sejam por alguém que possa me dar alguma explicação
mas
até agora ninguém parou para me (se) escutar

PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS, poeta

"NOTURNO

Divago pisando trevas:
cor de sândalo, cor de gôndola,


trajando estranha roupagem,
quase bruma, quase alheio,
do sono o verso nasceu.


Quem o fez? Secreta mágoa,
ou a mão de um anjo oculto?


Cegueira de olhos velados,
perdida graça da origem,


que sabe a flor da raiz?".

PAULO BOMFIM, poeta

"O CALEIDOSCÓPIO


No caleidoscópio
De um deus
Figuramos
Em intenções
E desejos".

MÁRIO DA SILVA BRITO, poeta

"O ANDARILHO

O tempo regride a um tempo
selvagem e sem história, feito de fogo,
lavas e larvas ávidas de vida.

O tempo passa sobre o tempo,
em meio a silêncio que a silêncio se sucede,
silêncio enovelado em torno de si mesmo,
-- quietude onde, devagar,
os séculos futuros se germinam.

Do tempo -- inexorável maldição--
mais tempo nasce e cresce e cresce.

É ele o errante que ceifa -- ou semeia -- a vida,
o que gera e destrói, o incansável andarilho.
É Ahasverus, eterno viajor da eterna senda,
o condenado sem remissão,
é o enorme bocejo de tédio
nascido com a primeira aurora.


O tempo pesa sobre o tempo.".

DARCY DAMASCENO, poeta

"SEGUNDO MITO DO INFERNO

Saía cada noite, ia tragar
seu copo de loucura.
Sequazes, só demônios torpes
entre as rugas da sombra:
e despencavam juntos.

Voltava à palidez núncia do dia:
aderente às paredes,
trêmulo encolhia-se, morcego
inserindo-se nas frestas do medo.
Ali dormia.".

AMÉRICO FACÓ, poeta

"MAGIA


Rubro riso amante
brilha...Súbita centelha,
Joia no ar, diamnte,
Borboleta de um instante,
O sol numa asa vermelha!".

JORGE MEDAUAR, poeta

"AS ÁGUAS


As águas que viste são os povos,
e as nações e as línguas

Apocalipse



Vejo-as: são águas verdes e profundas
de um mar imenso e indevassável. Vejo-as
depois escurecendo sob a noite
e ouço-lhes o gemido dos rochedos.

Sobre o impassível líquido, soturno
dorso do mar que ao longe se retorce
outras águas em vão, de chuva doce,
como inútil consolo se despejam.

Dentro da noite inteiramente escura
as águas se misturam, confabulam
para a revolta em líquida linguagem.

Ai de vós, ai de vós margens e diques,
arrecifes, limites e rochedos
se as águas de manhã vos atacarem.".

pedrada

somos nossos erros
se aprendermos
somos mais os erros
acertos não nos machucam
não curam feridas
acertos são beijos de irmãos
apertos de mãos
os erros nos magoam e nos fazem pensar
como uma perda
uma pedrada na testa

salve

pássaros cantam
onde se espantam?
onde se espetam
recordações?
ferrugens
nuvens
que chovem aqui dentro
centro
de minh'atenção
domesticada
sempre
amada

salve

séu

olhar triste de saudade
olhar que cala
olhar azul
Da Lua a Terra é azul
como o azul do mar é do seu
como sou céu

segunda-feira, 27 de junho de 2011

GERALDO VIDIGAL, poeta

"ESPELHO

Entre nuvens de sombra e sóis de acaso,
Trago no lábio o espinho desta sede:
-- Fátuo fui eu, quando supus durável
o fogo-fátuo dos teus olhos verdes!

às vezes surges num clarão de tarde!
E murchas num contorno de parede,
Antes que eu possa, ansioso, debruçar-me
E em teus lábios matar a minha sede.

Mas -- água esquiva, fogo-fátuo! -- quando,
Na orfandade das noites silenciosas,
Teu hálito povoa o meu deserto,

Ergo-me, em transe, e bebo, delirando,
Orvalho em tuas mãos, ó irmã das rosas,
Espelho do fugaz, eco do incerto.".

DOMINGOS CARVALHO DA SILVA, poeta

"A ROSA IRREVELADA

Correi o mundo e procurai palavras novas para um poema.
Dos aoceanos trazei nomes de peixes e remotas ilhas,
tranças de virgens, seios afogados,
pálpebras mortas, decepados sonhos,
mas
antes de tudo palavras para um poema.

Caminhai nas trevas em busca de uma rosa.
Colhei nos cardos a flor menosprezada.
Buscai no mar os liquens, as esponjas,
trazei convosco pérolas,
peixes negros e plantas submarinas.

Trazei a náufraga de olhos devorados
por gaivotas. A náufraga de seios como luas
entre ciprestes de algas. A náfraga
de coxas como praias
onde o desejo espuma e desfalece.

Não procureis anelos e ternura
nem um pássaro de canto engaiolado.
Quero-vos noite escura, corpo escuro
de mulher em silêncio, rosa inviolável.

Trazei da noite palavras para um poema.
A irrevelada morte para um poema.".

olhar da lua

um olhar da lua
olhar azul
nova visagem
nova sugestão nova lua nova
olhar azul
a perspectiva de um menino querendo acordar cansado de tanto brincar...
olhar azul
é a intenção muito mais do que a razão

tristeza

olhar azul
(desculpe, faço blues
pequenas letras
em grandes poemas)
um olhar de surpresa
pela certeza da vida
que é una:
despedida, rima...

a melodia não consegue deixá-la menos triste

"...triste é viver na soildão da dor cruel de uma paixão..."

cortiças

gelado argumento
vento
sendo
requentado ar
sem sustento
vento sendo eu
sem você
tento e minto
arrebento em desculpas vãs
em cortiças mãos
sem condição de laço

DANTAS MOTTA, poeta

"CORPO


Nem velhice, nem mocidade.
Perdi a fé, o gosto da alegri.
E uma tristeza talvez somente minha
Tem trânsito na solidão do meu corpo.

Corpo por onde a amargura caminha,
Frágil, sem mistério e sem mulheres.
A ele tanto se lhe dá este como aquele fato.
Uma gravata contudo não lhe fica mal.

Põe-lhe um sorriso. Beija-lhe a boca.
A boca afinal tem suas utilidades.
Depois, olhe-o trotando solena pelas avenidas.

O corpo então dança: se tem farda é general,
Trapo é mendigo, oração é fechado.
E é num corpo desses que eu caminho emprestado.".

MARCOS KONDER REIS, poeta

"CARTA AO MENINO QUE EU ERA NAQUELE TEMPO

Nós estamos sozinhos, e eu somente,
Eu que posso chamar-te pobre eu mesmo
E porque sinto tudo o que tu sentes
E andei sentindo tudo o que sentiste
E guardo na memória
A memória de todos os teus dias,
E porque sou teu menino e teu espelho e porque trago
Nos lábios a tua sede e porque trago na pele
O talho de todas as tuas dores e no rosto
As tuas cicatrizes...
E porque tenho no sangue os rios arrepiados de tua angústia
E dentro d'alma
O solo vacilante das tuas aventuras...
Eu que vivo o que vives entre a certeza e a dúvida e que sou
Como uma flor sombria do que te lembras: a música
Daquele tempo, numa tarde, e um passeio aos domingos
Nos arredores da cidade, quando o mundo
Era para nós
Como um confrangimento de prazer definitivo.


Eu somente, porque sou tu mesmo,
Embora não podendo pronunciar teu nome,
Nem ser o ombro para a fadiga de tuas tardes,
Posso, te dizendo, ter certeza
E ser tua palavra e tua verdade:


Menino, o tempo não existe.


E quem não for capaz, depois de tudo,
De ser como nós dois os dois num só
Não será grande.".

papel-poema

...esperança tanta...
...reza tanta
por chuva
de vida
lágrimas divinas
enterrando realidades
embrulhadas em papel-poema

pirraças

sobre a terra
arde a desconfiança
raízes de árvores
são pés de combatentes esquecidos
galhos são feras retorcidas em sofreguidão
o guidão de uma bicicleta velha
lembra uma infância
sem água
de terra arrasada
pirraças
me salvaram de secar

cacho

combato
desconfiança com fato
mato insatisfações com termo exato
falo com substância
trabalho as concordâncias
faço
de um cacho de uva
ato
falho

Malu

combater
o mal com o mal
pode gerar um mal-entendido
um mal-estar
um mau inimigo

pixote

em sua saga
por sorte, se enganava
combatia moinhos
pela sensação
da batalha
não ganhava
não perdia

vivia

pária

repartido
entre desejos e vaidades
o homem do meio de meia idade
arde
em inveja e difamação
não se dá conta
porém
da óbvia manifestação
quando sangra
pelos olhos
vendo amizade
palavra desconhecida de intenção

LÊDO IVO, poeta

"O VENTO

Tanto o vento soprava que me vi
mudado na vetigem sibilina
do vento que ventava, comprazido
em tornar tudo vário e turbulento.

No seu soprar ele arrastava as folhas,
areia, ramo seco, e até meus sonhos
que se desvaneciam no ar medonho,
em matéria volátil transformados.

Rodeado de tanto desamparo,
o que me espanta não é o turbilhão
das coisas arrastadas na tormenta

mas o que fica em nós, o que não passa
nem jamais se desfaz no vendaval,
e ousa resistir ao próprio vento.".

domingo, 26 de junho de 2011

broches

pequenos broches
confeccionados com audácia e sorte
de um principiante da vida
um norte me trouxe um pote de ouro
arco-íris
em olhos de menino
que brilham
que primam
pelas rimas-novidades

os tintos

os detalhes do meu novo rosto estão acentuando os novos contornos que trago esfumaçado por dentro cinza hálito de cigarros não fumados mas horríveis por isso mesmo o forte sabor de cinzas entopem as saídas me impedem de declamar um poema triste que acabei de fazer terei que vomitar todas as rimas todas os tintos todas as esquinas que me fizeram sofrer

grito-rabisco

...rabisco de um grito
(lido)
(fixado)
(repetido)
rabisco de um grito
aflito
preso na garganta durante anos
perplexos enganos desabrocharam em segundos
em dias um botão virou plantação
o grito abismado, força de furacão,
foi rabiscado em milhão

atento

...atento...
muito atento
atento aos medos
atento aos gracejos
atento aos ensejos
atento ao tempo
atento ao tempero
atento ao fermento
atento atento atento

gracejo

é preciso acreditar em algo que não seja real
o desafio diário da página em branco só será preenchido com imaginação
imagino imagens
imagino sons definindo imagens
imagino palavras rimadas suprindo as dificuldades
preencho tudo com ritmo
gracejo fingido
sonolento
desejando fim de tarde

BUENO DE RIVERA, poeta

" O ALEIJADINHO, RETRATO FINAL

Era o gênio em ruínas.

Um lençol de asas brancas encobria
as repugnâncias.
Na cintura, o cordão da Confraria
dos Artífices de Cor.


Sobre as molas de arame da cabeça
desabava o chapéu de cogumelo.
Agachado, era o próprio cogumelo,
chapéu e corpo atarracados.


Na boca de rebordos obscenos
cambaleavam os negros cariados
pela viela torta das gengivas.


Talhando os oratórios nas igrejas,
suspenso nas roldanas e amarrado
nas cordas, parecia
uma aranha gigante balançando-se.


No trabalho noturno, a luz de azeite
projetava na tela dos altares
a sombra do monstro aracnídeo
que, movendo a mandíbula peluda,
engolia os arcanjos enleados
na teia dos florões.


Naquela pipa de dores,
nervos, rins, pulmões e coronárias
diluíam-se, filtrados.


no alambique de agonia.


Numa noite de trevas quando as trevas
de Ouro preto eram mais trevas,
finou-se o gênio
no catre-solidão.


Não teve os dedos cruzados sobre o peito
pois dedos, orelhas, o nariz e o sexo
morreram antes da morte.".

ARTUR EDUARDO BENEVIDES, poeta

"POEMA ÀS TRÊS DA MANHÃ

Não há notícias do mundo. Todos
devem estar mortos. Lívidos. Ou quedos.
E em sossego tecem
os últimos segredos.
Tudo cai em repouso. Nada ouso.
E a solidão é esse peso enorme
sobre o mundo que dorme.

Meu corpo não me tem. E sou
aquele que restou, além,
na longa insônia em mim reinventada.
Sou a nudez que não se conformou
em ficar como está, desencantada.

Os mortos não falam:ressoam.
Como aves noturnas voam.
Ou em etéreas canoas passam.
E se embaçam.

(Oh, o silêncio!
O gesto dos que se descompassam.
Dos que se esperam em vão. Ou se espedaçam.)".

JOÃO CABRAL DE MELO NETO, poeta

"GRACILIANO RAMOS

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina cega
seu gosto da cicatriz clara.


* * *

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se na fraude.


* * *


Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:


e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo de míngua.


* * *


Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa ym despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperiosos,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.".

LÚCIO CARDOSO, poeta

"O REPENTE

Preciso do repente, como quem abre
a fresta de um relâmpago.
Ah céu anoitecido onde vivo,
que importa o desalinho
se a febre é o meu sistema?
Descerrem-se portas, retinam
momentos de fuga e de cristal:
galos de luz, trevas feridas,
missas proibidas, primaveras!

Tudo serve à fome que me impele.".

NILO APARECIDA PINTO, poeta

"A CIDADE DO SONHO

A cidade fantástica que eu trouxe
no pensamento e cuja ressonância
-- sino a dobrar na torre da distância --
ouço chamar por mim, longínqua e doce,
vejo-a no sono, aspiro-lhe a fragrância.
A minha alma perdida reencontrou-se
à sua antiga voz como se fosse
o rio que escutei na minha infância.
Mas se transponho seus jardins cinzentos
sob as arcadas da noturna praça,
logo batida de confusos ventos
a cidade do sonho evapora:
ruas de cinza, casas de fumaça,
beirais de bruma adormentando a aurora.".

MARIO QUINTANA, poeta

"CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!".

ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO, poeta

"UMA NOITE SÓ TUA

Carregas no teu bolso uma noite só tua.
Um poema? uma canção? o rascunho de um grito?
Supões (por que o supões?) que te mudaste em mito.
Que não é (se já foste) e que a alma é fria e nua.


como uma extensa praia, uma deserta rua.
Um poema? uma canção? o rascunho de um grito?
Carregas no teu bolso uma noite só tua.
Vais levando contigo um tátil infinito.


Supões (por que supões?) que não pertences mais
à terra, nem ao céu: o que quiseste, aflito,
é cinza só, e nuvem. Num silêncio cais


tão forte e tão absurdo, que teu corpo flutua.
Um poema? uma canção? o rascunho de um grito?
Carregas no teu bolso uma noite só sua.".

sábado, 25 de junho de 2011

Meia Noite em Paris

A Woody Allen

O tempo angustia...
...as pessoas se escondem do tempo
paralisando-se
negando-se
inventando desculpas
escondendo sentimentos
mas...
cruel
inexorável
ele passará
e
nos fará passar
a culpa de fingirmos desconhecê-lo será imensa...
tão grande quanto a rotina do medo de perdê-lo
é o arrependimento de não tê-lo possuído
na apnéia sem grito
de assustados sem espírito

silvo

um poema não salva o mundo
silva
salva o poeta
sibila
na cabeça dos que ainda têm salvação
avisa
interrompe ideias
ao aquecê-las
derrete falsas informações
apito de menino

salva o poeta do silêncio

indago

preciso de palavras
palavras que digam
as exatas sensações
sentidas
mentirosas já me bastam
preciso de coragem
preciso de força
preciso de amor
próprio para indagá-las sem medo das respostas

Azul olhar

da lua a terra é azul
olhar azul
uma criança brincando no parque
olhar azul
uma alegria palhaça na rotina de risadas
olhar azul
uma galinha pondo um ovo no galinheiro do sítio do vovô
olhar azul
tudo de bom é azul porque escolhi azul
poderia ser rosa
ou verde
mas
gosto de azul

verde-devastação

quem descobriu o azul do céu?
quem transformou o mar em verde-devastação?
quem disse que o céu é lá em cima?
por que o inferno é lá embaixo?
do centro do meu mundo acho que tudo está em nós

Olhar azul

quem trouxe
esse mundo cinza
ao meu olhar
azul
foi o tempo com sua rotina de perdas?

aliado

essencialmente falho
escrevo como falo
e olha
falo muito
tudo me chama a atenção a tensão a contra mão a sugestão a aceitação a comprovação a certidão
e sempre escrevo escrevo como falo e falo e escrevo sem parar o tempo já foi meu aliado agora é contra a rotina é falha

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Branca cor

cedo ou tarde estaremos juntos
nada
nenhuma estação
impedirá o amor
nenhuma cor
nenhuma mão
nenhuma manhã
nenhuma cortesã
seremos sonho
seremos branco
seremos medo
seremos segredos na imensidão
seremos corpos voando
planando na emoção
corpos nevando
serenas melodias
seremos dias de verão

quinta-feira, 23 de junho de 2011

vidro

o uivo do vento
é um suculento alimento
de vida
de bambu
suco de inesperado sabor
mero companheiro amador
de um profissional do sofrer
saber resistir
ao atrito da pedra no vidro
é lindo

umbigo

insisto
na delicadeza do suspiro
na aspereza do umbigo
ideias são formadas
cabeças são fornalhas
rápidas na sensação sublime de sentir o ar ao respirar sentir o amor se corresponder no átimo do tempo do engasgo falho ao não querer-te no espaço da brevidade

celeste

para sempre a lua
a lua é nossa
o céu é só seu
o céu sou eu
sigo em sonhos o azul do corpo
celeste
sigo sendo
quem desejo
seguir o poente é um desenho de vida

sopros

sopros divinos
sopros de vida
é o que somos
sopros de sonhos
de sonhos...
nego a realidade dura e crua
vontade
de voar
de ser mais do que pássaro
pena numa tempestade

o som

o choro, o desespero, seco
falas de fadas senso esperança
olhos azuis de lembranças
segurando tudo o que não sou
simplesmente voo
cego estou
seco de amor
névoa de sexo
nada segue o som

PUNK MAN

Não finja para você esse ódio embutido é amor em algum momento escondido você chora de raiva que seja mas é amor amor pelo que você não tem pelo que acha que quer sei lá se é o contrário do ódio que você diz sentir por tudo por todos acaba sendo um sentimento invertido princípio de um tino de uma ideia verdadeiramente revolucionária plantar rosas de afeto ao invés de protestos ter netos quem sabe não é isso que falta uma família punk?

instâncias

enfrento a crença de que não há lugar no céu para os poetas tudo é inferno a consciência arranha rasga ingenuidades abstratas todas abstratas sandices magoadas de quem quer se magoar a vida é uma batalha que só saberá lutar quem quiser aprender a lutar rimas são apenas circunstâncias instâncias de descanso da dura verdade falha

OSWALDO MONTENEGRO, poeta

A LISTA

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você

Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver

Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

conjuntos

vida dividida em conjuntos
(qualquer estudante de primário entende esse imaginário)
o conjunto maior é da vida real
os demais
poesia, cinema, teatro, impostos, taxas, direitos, esquerdos, nonos, andares sexo, drogas e roque em rou fazem parte do primeiro se busco entender o primeiro como não perceber os demais?

entre dedos

num dia chuvoso ao invés de andar
sonhar
iludir-me nas palavras
rimas mais fáceis do que tomadas de decisão
vida que segue frouxa
escrita sem vida é pastel de vento
pum no firmamento
sexo entre dedos

falecimento

a vida me chama
a viver
o poeta
vive para escrever
é viver
é escrever
se não escrevo
faleço de sentimentos

WOOD ALLEN

Wood Allen pode filmar em qualquer cidade do mundo, porque na verdade não filma cidades se utiliza de suas imagens para iludir. Filma pessoas, relacionamentos entre seres humanos, que só por coincidência vivem nas cidades filmadas.

Imperceptível

Artistas, sem trabalho artístico, denominados não-artistas, se surpreendem com a força do trabalho artístico na vida dos artistas, assumidamente artistas? Não entendi!

ilusionista

ilusão de palavras que não voltam, partiram dessa para aqueloutra que não sei se existe insistem em dizer que sim insisto em achar que não pois então velha discussão sem comprovação por isso prefiro adiar o encontro com a ilusão, iludindo-me

Blues X Poesia

só depois de dois dias sem escrever nada me dei conta que a pesquisa de blues antigos que estava fazendo foi a responsável por não conseguir escrever as melodias estavam atrapalhando o fluxo de saída das poesias

sussurro

faz um tempo
foram dezoito anos aprendendo
(ainda tento)
converso por dentro
invento um começo
espero que o vento amplifique meu sussurro
de amor

pios

(entre silêncios)
entre silêncios
escrevo
qualquer som
inibe a descrição
do som que tenho dentro
um pio de passarinho
ao contrário estimula
parece que a anatureza me empurra
me força a não ter medo de mostrar tudo aquilo que estava guardado que ainda está

quarta-feira, 22 de junho de 2011

poema-riacho

não me pergunte nada
apenas escrevo
na maioria das vezes
não sei por quê começo
olho para a testa e as palavras vem chegando a primeira frase como essa se apresenta e nem olho mais a tela apenas digito seguindo o poema-riacho

miragem

o reflexo nos meus olhos da praia de sua memória...
somos reais ou desejamos existir?
onde está o céu azul que estava aqui?
a areia branca me pertence ou é só um oásis
ilusão na íris, negra
olhar turvo de incompreensão, negra
miragem

MATISSE E PICASSO (5)

Matisse, não desconhecendo o "fardo do passado", "não se cansava de citar as palavars de Cézanne:"Desconfiem dos mestres influentes" E acrescentava:"Quando se imita um mestre, a habilidade dele inibe o imitador e forma à sua volta uma barreira que o deixa paralisado. Eu não saberia reproduzi-lo" No fim da vida, Matisse se preocupou com o efeito da sua própria arte nos jovens pintores e descobriu, por si mesmo, uma lei que os historiadores da literatura e da arte chamaram de "lei do avô" -- o conceito de que, na busca de uma autoridade, artistas e escritores pulavam uma ou várias gerações, para conseguir se libertar das realizações intimidadoras de seus antecessores imediatos.

(...) Uma influência, então, é exercida de maneira negativa (ao menos para aqueles que não "sucumbem"). Para falar como Bloom, é isso que um grande artista deve combater, embora, como diz Matisse, ele não deva, de forma alguma, "evitá-la". Não evitá-la significa encontrar um meio para responder, e esse meio é precisamente constituído pelas diferentes armas que Bloom reúne sob o termo coletivo de creative misreading (má leitura ou mal-entendimento criativo)."

MATISSE E PICASSO (4)

"...é preciso notar que o diálogo aqui tratado é, antes de tudo, um diálogo entre obras de arte e não entre indivíduos que as produziram. E, tanto as obras de arte quanto nas conversas da vida cotidiana, uma não-resposta também é uma forma de resposta: durante muitos períodos Matisse e Picasso parecem ignorar completamente um ao outro -- a até de maneira agressiva."

"(...) E o que acontece com a incompreensão? Se é evidente que, a longo prazo, toda interação passa por mal-entendidos ocasionais, o que dizer da incompreensão intencional (...) --- que harold Bloom chama de misprision, isto é, menosprezo?"

Num conceito psicanalítico, "o filho deve matar o pai", ou seja, o poeta novo normalmente utiliza-se de uma estratégia de incompreensão. Uma "leitura autoritária", má leitura (misreading), erro fundamentla de interpretação , proposital, na base da relação que todo grande poeta (ou artista) mantém com a obra de seus predecessores. Esse mal-entendido inicial com os rivais passados é a precondição da grandeza de um poeta: é o que eventualmente dá possibilidade ao poeta de se libertar da "angústia da influência".

MATISSE E PICASSO (3)

A compreensão como "resposta", o enunciado como "dirigido a um interlocutor" e a soma dos enunciados como "contexto" são as ferramentas conceituais que o sistema dialógico de Bakhtin nos fornece para desembaraçar o emaranhado complexo e mutante das relações entre Matisse e Picasso. Antes da morte de Matisse, em 1954, a replicação contínua entre os dois artistas se transformou numa troca privilegiada e tingida de nostalgia. "Precisamos conversar muito", dizia Matisse. "Quando um de nós morrer, haverá coisas que o outro nunca mais poderá dizer a ninguém." Aliás Gilot atribuí a mesma frase a Picasso, que acrescenta:"Levando tudo em consideração, só existe Matisse".

MATISSE E PICASSO (2)

"...A explicação habitual -- que Matisse teria "influenciado" Picasso -- não é nada satisfatória. A própria noção de influência, com suas conotações de passividade, não combina com o que sabemos sobre Picasso e sua exploração onívora de todos os estilos, passados e da época dele.
(...) muitas coisas estavam em jogo e o verbo compreender (e seus derivados) deve ser levado a sério. Provavelmente não há melhor definição do que a proposta por Mikhail Bakhtin, obstinado em estender a noção de diálogo a todos do fatos socias: "Uma compreensão autêntica, ativa, já contém o esboço de uma resposta.
(...) A compreensão é uma forma de diálogo; ele está para a enunciação, como a réplica está para a réplica, no diálogo. Compreender é fazer oposição à palavara do interlocutor com uma contrapalavra".

MATISSE E PICASSO (1)

O artista japonês Riichiro Kawashima escreveu: "Há muito tempo (1913), quando Picasso morava num ateliê da moda que dava para o cemitério Montparnase (...) eu lhe perguntei: "Você gosta de Matisse?" Ele arregalou os olhos brilhantes e me disse: "Bom, Matisse pinta quadros bonitos e elegantes. Ele é compreensível". (...) Quando visitei Matisse há quatro anos (1929), indaguei: "O que você acha de Picasso?" Depois de um momento de silêncio, ele me respondeu:"Ele é caprichoso e imprevisível, mas compreende as coisas".

abelhas

algum engano
é muito melhor
do que a certeza do ócio
ópio do povo
negócio
venda de sonhos
aos ajoelhados
próprios
na ingênua necessidade de ter alguém que resolva seus problemas
alimentos de abelhas

diamante

...compreendo...
a incompreensão tem um nexo
a dificuldade é um pretexto
seixo em fogo de palha
grita
atrapalha
a fogueira
que incinerará nossas falhas
cinzas produzindo
algum carbono
sono perfumado de enganos

dentes

a tristeza é um estado de espírito pouco respeitado todos são só sorrisos ajudados por produtos químicos alguns até liberados entre risos e sorrisos seguem atordoados absortos com os desgostos não identificados e continuam sem cerimônia mostrando os dentes ao cachorro do vizinho ao poste aos meninos dos sinais insatisfeitos mas sorridentes esse é o lema dos inapetentes

terça-feira, 21 de junho de 2011

sendo eu

somos a alma
que traz o passado e o presente ao um futuro que será desconhecido
que será totalmente absorvido por alguém que talvez não seja eu
entendeu?

doído

...e o quê é a vida senão uma sucessão de esquinas pés arranhados por pedras mãos calejadas por carregar a notícia de uma certeza rugas caminhos dos desvios signos da insatisfação pelos desavisados nãos corpo doído pela rotina de não saber dizer-se sim

plebe

...e acaba sendo simples asssim: membros da elite enfastiados passam a se interessar pelos motivos que levam a plebe a alegria

CARLOS NEJAR (7) -- poema

TESTAMENTO VERDE

Para Carla Carpi Nejar


Tudo o que é humano
sabe a espelho. A luz real
apenas reflete. O nosso
nome é igual, sou tão precário
mas sabes que te amo.
Perece o sonho, se não
o regamos. A chuva
é o instante de ser nuvem.
E me fui despindo
dos adornos, dos taciturnos
ódios. Os meus puídos anos,
com os sapatos. O patrimônio
de palavras e cuidados. Talvez
o patrimônio de silêncio.
E que a inteligência seja flecha,
mas saiba repousar. Impávido
ou adverso, em nós se funde
o tempo e o universo
é um sigilo, um informe secreto.

E quando venta, estou perto,
percebes. A lei morre
em seu peso. A dor
se esgota. è no simples
que as coisas são completas
E, filha, importa
resistir sob o pavio dos ossos
Refazer a vida, tantas vezes,
quanto a vida doer.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

trincheira

um poeta só vale morto!
quem atura vaticínios?
quem atura incertezas escritas?
quem atiça a preguiça?
quem vive para realçar o que nos é primordial?
sou do contra e por sê-lo surpreendo-me com verdades inconsequentes até
tolas mas verdadeiras pérolas de sabedoria de quem ainda consegue parar de raciocinar sobre nossa sina sobre nossa estratégia de vida nessa trincheira

Set List (atendendo a pedidos)

(Introdução)
1 -- Desafios;
2 -- Encantadas;
3 -- Andarilho (nova);
4 -- O Alvo (nova);
5 -- While my guitar gently weeps (nova);
6 -- Pedra;
7 -- Constelação;
8 -- Contra;
9 -- Complexa vazão;
10 -- Brigas;
11 -- Jaques Som;
12 -- Minas;
13 -- Sim;
14 -- À Cecília;
15 -- Cegos;
16 -- Versos;
17 -- Inútil;
18 -- Truques;
19 -- Dias de Luta;
20 -- Papai me empresta o carro; e
21 -- A Saudade/Blues do Medo.

particípios

se fosse comigo não haveria sinistro
salvaria as letras e deixaria os verbos arderem no inferno dos particíos das declinações absurdas das derivações opções de uma vida de ação
às palavras seriam dadas todas as vantagens de uma vida de rabiscos entre filhos

conto

olhos de ingenuidade
típicos dos niños
esquecidos da denuncia que são
ao amadurar
mostram-se lobos
esperando
um conto de fadas

GAVIOTA

em segundos o sentimento do voo pertence ao surfista
gaivota que se utiliza da prancha como desculpa
deseja ser peixe mas sem pensar
procura voar

domingo, 19 de junho de 2011

PROVOCAÇÃO

...e se eu te dissesse que se não posso parar não paro e isso me enriquesse entristece saber que poucos fazem algo com o coração? que a alma humana inventou o estipêndio e acabou fazendo com o que o corpo sofra por não saber dizer sim não?! todo não é uma solidão comprada a juros no cartão todo sim é um motim contra o que nos ensinaram sim?! pois quero ver quem terá coragem de responder a essa provocação

FOTO (Show no Centro Cultural Memórias do Rio, em 09.06.11)



FOTO (Show no Centro Cultural Memórias do Rio, em 09.06.11)



algodão

amigo
é o que divide o pão
aquele que se preocupa em dar solução ao um problema
o que atura o choro da desilusão
aquele que sempre tem uma palavra de conforto
o que espera o momento certo para falar a incômoda verdade
aquele que sabe como estamos por dentro
o que simplesmente olha e cala
aquele que entende sem explicações
esse deve ser tratado como um botão de algodão
com quantos dedos podemos mostrar sua presença?

ajuda

o jornal me pede para comentar um assassinato
...
desculpe não tenho essa capacidade
escrevo pela e para a vida
que desprevenida acaba sempre indo embora sem precisar de qualquer tipo de ajuda

segundo

os brasileiros não valorizamos a derrota
e explico
quando não valorizamos o segundo lugar demonstramos não estarmos acostumados a tentar

sábado, 18 de junho de 2011

passos

...pensei em chorar
mas
não adianta
melhor
continuar a lembrar da vontade de vida
continuar a continuar perseguindo a vida
respirá-la segurá-la com as duas mãos
de nada adianta
pensar que tudo poderia ser diferente se o tempo não volta o tempo está em nós dominamos ou somos dominados pela preguiça pela fácil sensação da mentira de não carregarmos o passado tanto carregamos que estamos prontos para o próximo passo

violeta

esperança violenta
violeta
vida lenta, uma lembrança
violenta

violenta esperança violeta
lembrança uma lenta vida violenta

Ao Bernardo

o que escrever para você?
Moleque sapeca
perereca de continentes
oceanos indiferentes?
nunca
nunca diga a palavra nunca
tudo é possível
com o brilho que tens
parabéns
continue sendo do seu jeito
meigo, bonito
intenso
seus olhos oferecem argumentos
versos são seus modos
seu amor pelos pais
pela atriz
pela família
que sempre onde estiver estará com você
rico sobrinho de intenções
ria beba coma todas as lasanhas
todas as melancias serão suas
um grande palavrão...
AMOR

sexta-feira, 17 de junho de 2011

sereno

saudade do sereno
friagem de fim de noite
lua de início de madrugada
iluminando olhos
da cor do desejo
que ardendo
encerra verdades
inibe vaidades
esmorece palavras
no sereno
sussuros viram declarações de amor

Apresentação do livro "No princípio... POESIO"

No princípio era o verbo era sem sexo Deus inventou o amor Deus inventou Adão, Eva e a cobra os três inventaram o sexo daí ao inferno foi um pulo foi o mundo inventado em sete dias em alguns séculos esquecemos o exército de anjos que ajudavam na arte e na religião homens salvam-se salvamo-nos pela visão do sacro num poema espalho flores e dores acumuladas na exata proporção da emoção de lágrimas disfarçadas em palavras que não são quase nada quase arde quase é uma parte da imaginação que é menor muito menor do que uma infância feliz a pintura rupreste é uma diretriz mínimo no máximo de simplicidade plástica redução de mágica um poema é do tamanho do que temos por dentro

magros

emagreceremos, sim!
dividindo
s
o
n
h
o
s

dois estados

a verdade é que a realidade acaba com a fantasia experimentei ficar uns dias lendo os jornais e estava ficando difícil quase impossível escrever poesia a imaginação precisa de cores não de dores já bastam as que nos acometem e sempre existiram então: "abaixo a atualidade viveremos agora só de dois estados o futuro e o passado!".

declínio

os outros não existem porque não nos vestimos com as roupas das nossas verdades queremos tudo sem esforço sem esforço queremos as vaidades digo que escrevo mas não mostro pinto o sete mas escondo e por aí vai até que chega uma hora que o tempo depõe contra nossas tolices e... quem assiste ao nosso declínio?

vento

andando na praia o vento frio me fez pensar:"A vida é muito forte, um mendigo (de mais de dez anos de praia) se balança se aquece apenas em sua esperança de continuar!".

joia

olhando por horas um homem de muletas procurando por horas joias numa maré baixa de praia...
a isso chamamos esperança

Os três

a realidade impõe o presente
a imaginação
o futuro
saia de cima do muro
do passado
e venha sonhar

quinta-feira, 16 de junho de 2011

F...DEU!!!

O fato de ter começado aos quarenta e quatro foi um acidente de percurso senão vejamos dentista músico Weber e Serginho no Companhia do Cais lá pelos vinte e tal jazz and blues perto dos trinta MPB (Rita e Djavan) a vida inteira os roqueiros de sempre -- Stones, Beatles, Led, Purple, U2 etc. Trabalho há não sei quantos anos na continuação da Rua da Carioca, grande reduto de lojas de instrumentos musicais e por aí vai. Pai violonista amador, mãe cantora...Até que um dia de abril de 2009 resolvi ir a um estúdio na Lapa e....F....DEU!!!

presenteado

o passado segue comigo rumo ao futuro fruto que de presente darei à minha ilusão

papéis

no verão
"...já tive a ilusão de que ser homem bastaria..."
na primavera
folhas eram borboletas de árvores
no outono
folhas caiam no chão como papéis de bala
no inverno
fechei os olhos e chorei

pio

a audição
do poema Quilate
em segundos transformou
um amigo em ator
declamador
declamou a dor
que senti e sinto
a dor
que é um constante
arrepio
pio triste
na boca de um passarinho

papiro

uma semente na mão de uma criança, esperança
um galho na mão de um errado, assassinato
uma folha do chão em minhas mãos, solução

egoísmo

sorrisos se esqueceram
de mim
os passos
passados
são...
senti um riso de esperança vindo em minha direção mas não tive vontade de olhá-lo por não querer retribuí-lo

no canto

me
sinto
entupido
entupido
de
ar
hoje

o
canto
me
salva

vovô

o que é o tempo
um fechar de pálpebras?
a maldade sendo planejada?
uma lágrima se espalhando pelo olho
que não deseja dela se livrar?
o
tempo
me parece
é um machucado no dedo
sendo contado
a um neto abismado
com a coragem do vovô

anestesia

um corpo cansado
escreve
mas não canta
descobri há pouco
que a garganta fecha
os olhos fecham
tudo fecha
tudo está escuro
quando a consciência do mundo é uma pedra
não há tempo para o canto
a tristeza espanta o encanto
palavras viram sílabas
o tempo fica mais devagar
anestesia o susto da realidade
anestesia perspectivas

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Lábios

o tempo é um desejo de boca
passado presente futuro
lábios: em orelha em lábios em lábios descarnados

longevo

com outros poetas
controlo o tempo em que aprendo
no ritmo de cada página
escolho o modo que irei me surpreender com segredos de vidas
passadas
são
páginas
sendo olhadas
aquilatadas
com a angústia e o desejo
de um olhar longevo

compaixão

nos livros
onde se encontra?
o amor de mãe
o amor para um filho
o segredo do silêncio
o cheiro do medo
a palavra que defina compaixão

invulgar

atrás dele muito já corri
agora
espero pelo tempo
sofrendo
mas espero
o cenho ardendo em pensamentos de primavera
árvores repletas de frutos de poemas de tudo sendo cantado rimado amado no fundo do peito do tempo sem censura sem cerimônia um suspiro de gosto invulgar

abraço

do esforço da lagarta
penso no voo
colorido
asas transformam vida em poema
da terra de minhoca
ouço o peixe tremendo nas mãos calejadas do pescador
(a dor do peixe por asfixia é minha)
do choro de nuvens carregadas penso na parreira carregada de histórias tintas
barulho de crianças saindo da escola me avisa do tempo em que piqueniques eram possíveis
tempo em que as bananas por incrível que pareça tinham gosto de bananas
tempo em que cartas de amor eram escritas antes do primeiro beijo de sexo
tempo em que um abraço era dado com os braços...

inspiração

...não há regras...
a métrica de um poema
é a respiração do poeta
num poema emotivo
o encaminhamento das palavras
seu ritmo
será mais calmo
mais almo
num punk poem
a porrada come e não há como não digitar as primeiras palavras que vierem à cabeça
num poema infantil o diapasão é diferente mais lúdico mais dolente
significando menos e brincando mais com as palavras (que são asas)
num poema de cunho social menos palavras e mais significados
não há espaço para desperdícios
mas todos estão em sintonia com a expiração e a inspiração do poeta

casca

em lágrimas...a árvore chora sementes
futuros frutos, dádivas
esperando águas para sonhar
um passado
um pássaro
ensina a voar a sonhar
com o azul do céu
com o branco do sal
só um santo se sacrificaria por uma monção
um sorriso uma canção
é um canto, esperança
nas asas de uma folha desgarrada
um pedaço de casca
é uma declaração de estação
folhas forram o chão de ilusão esverdeada

POCKET SHOW

(intro)
1 -- Desafios;
2 -- O Alvo;
3 -- Pedra;
4 -- Constelação;
5 -- Contra;
6 -- Cegos;
7 -- Sim
8 -- À Cecília
9 -- Minas;
10 -- Brigas;
11 -- Jaques Som;
12 -- O blues.

SET LIST (depois de muito pensar)

(Introdução)
1 -- Desafios;
2 -- Encantadas;
3 -- Andarilho (nova);
4 -- O Alvo (nova);
5 -- Don't Stop Dancing (nova);
6 -- Pedra;
7 -- Constelação;
8 -- Contra;
9 -- Complexa vazão;
10 -- Brigas;
11 -- Jaques Som;
12 -- Minas;
13 -- Sim;
14 -- À Cecília;
15 -- Cegos;
16 -- Versos;
17 -- Inútil;
18 -- Truques;
19 -- Dias de Luta;
20 -- Papai me empresta o carro;
21 -- A Saudade/Blues do Medo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

pétala

todos os poemas já existiam estavam no ar esperando alguém pegá-los pégasus pétalo pétala em piruetas bailando serena desejando ser apropriada escrita falada numa boca que declama lágrimas

barulho

o ontem, na semente
a árvore me lembra do vento
(do hoje barulhento)
o fruto amanhã
será comido
e do resto
um novo início

recuerdos

pedrada
é como uma letra errada
uma palavra
que produz mágoa
uma pedra levada
ao extremo de uma dor
um peso
um olor de suor
cor de fogo
pó de recuerdos

sacrilégios

e s c r e v o

escrevo
escrevo pelo
escrevo pelo sofrimento
escrevo pelo sofrimento da
escrevo pelo sofrimento da consciência

escrevo pelo sofrimento da consciência da
escrevo pelo sofrimento da consciência da perda



escrevo pelo sofrimento da consciência da pedra

meada

por diversas vezes tentei fazer um romance em várias oportunidades já me perguntaram e disse que não tenho onda de fazê-lo um poema é um mundo pequeno mas um mundo em que todos os ingredientes batem ponto sexo drogas e roque em rou um sufoco em poucas linhas que são de difícil acesso para a maioria dos escritores reduzir com graça uma arte que descobri que sabia mas alongar não ésó o reverso é o que me pergunto vira e mexe tento meio sem graça como se fosse uma traição com o amigo poema quando consigo um início interessante logo perco o fio da meada e por iso resolvi escrever essas linhas mal traçadas

os gênios

onde estão os gênios da economia?
ganhando dinheiro ou sofrendo por estarem envelhecendo?

natural

se o tempo soubesse que eu existo não seria o tempo seria o vento que há anos roça sua força contra minha solidão que há anos enverga um espantalho usado pelo outro companheiro que relaxado ri da pouca importância que tenho para a vida natural

do pedro

o pedro
sentiu
o peso
da pedra
o medo
foi peça
seu jeito
cratera
no sexo
um feito
o seixo
na hera
perfeito
a fera
do pedro na pedra

A pedra

não conhecia seu rosto
em menino
os dias não eram findos a noite era um pequeno detalhe uma vez que a cabana continuava armada na sala sempre as brigas pontuavam a brincadeira da vida e quando meu irmão chorava geralmente estava de cabeça para baixo truque que eu utilizava para poder me safar de um dos dois pestinhas que me atazanavam os dias eram felizes na ingenuidade de crianças felizes seu rosto nunca fez parte de nenhuma história não existiam bruxas más só as boazinhas davam o ar da graça e tudo era quase perfeito (o quase é por minha conta de agora) mas um dia como em toda história da carocinha vi seu rosto e o desgosto me fez depois de anos escrever uma canção de amor à perda entendi sentindo e não me escondi escrevendo hoje quem escreve não é o poeta é o irmão e filho que sabe o tamanho e o peso da pedra

segunda-feira, 13 de junho de 2011

antiga extensão

o pedido é o primeiro passo
necessário
para o estender as mãos
o segundo passo é o primeiro do perdão
que só acontecerá se uma pessoa se perdoar do sentimento inútil que nutre fútil subcutâneo verdadeiro sangue verde que insano segue sempre na razão de um olho avermelhado na rotina magoada da falha realçada do antigo amigo antiga extensão da casa

o valor

se sou calmo abusam
se sou calmo me acham
no calo assusto
não calo assusto
falo
falo e escrevo pelos cotovelos
velas acesas de ira e raiva
não provoque um justo
um pecador pagará a entrada do inferno
deserto de amigos
isolamento castigo
incompreensão
todos que só falam têm opinião
os que fazem sabem o valor do perdão

FMI

não existem organismos internacionais
ONU, OEA, Fundo Monetário Internacional são formados por pessoas
ou você acha que um dia ocorrerá uma cagada internacional?

faz jazz

alguns projetos cegam imagine que inventei de fazer ao vivo poesias enquanto um grupo de amigos faz jazz imagine a loucura insanidade de me arriscar em produzir sem nenhum tipo de truque na hora poemas que logo depois serão mostrados e se não gostarem do resultado?

(para você posso confessar...não vejo a hora de começar...)

Bom sujeito

e a pressão qual é da pressão? se o cara de quarenta não é casado é viado? se é casado sem filhos é fingido? se tem um único rebento é pulguento? se tem dois meninos por que não tentar a menininha? se nunca viajou é chato? se nunca velejou é gato? se nunca entrou num museu é plebeu? se nunca escreveu é ignorante? se já escreveu é metido?se não gosta de samba bom sujeito não é? se gosta é pinguço safado tarado? se gosta de roupas coloridas é tio sukita? se anda de preto parece um Fábio Júnior? se aprecia bons vinhos é gourmet? se gosta de pintura é "na moral cultura" se gosta de farofa é paraíba? se gosta de rir é distúrbio? se gosta de ferir é o quê mesmo?

Caetana

essa é a única época que é minha
porque ainda estou
produzindo
desafios
roço o fio da teia de aranha que caetana arranha a trama nada mecânica nada afônica nada atrapalha a rima que é uma verdade de vida

domingo, 12 de junho de 2011

pecados

os espaços estão ocupados
corpos se deslocam
loucos com a pouca perspectiva
atrativa onda de olhos comandados por pescoços
viro e velho vejo torto vejo sem brilho
esqueci os óculos em casa
acesa a fogueira das sombras
que tampam os buracos dos meus pecados

os porquinhos

não desconheço influências
estou um cara tranquilo
difícil foi começar
agora mais cascudo
meio pedra
meio barro
aprendi a dividir os instantes em que faço cimento ou laje
me divirto muito vendo a dificuldade
do outros porquinhos construindo com palha ou serragem

nós

o tempo somos nós mesmos
nós mesmos somos o tempo nós
mesmo nós somos o tempo todo
mesmo sós somos o tempo todos nós?

(Esse poema nasceu de uma resposta ao álbum de fotos de minha cunhada Andréa Rosane, que mora em Portugal, distante realidade, cuja rima com saudade desmistifica as teorias que dizem que as rimas devem ser ricas! Como ricas, se todos distantes sofremos?! Quem procura beleza num corpo de poema onde há sal e idade, não acha porque procura o que não deve ser achado!).

significados

não aguento mais ficar pensando e não escrever quero parar de ficar parado senão vou morrer de indigestão de gestação precoce de palavras incubadas por compreensão às vezes equivocada mas acelerada preciso correr escrever uma nova canção não preciso de sucesso preciso de significados

Os heróis

onde estão os heróis?
que não nos ajudam a entender a fala arrastada de padres de autoridades carentes de entendimento pleno
onde estão os mestres que poderiam nos ensinar a rezar?
onde descobrimos o que nos define o que nos preenche por dentro sem ao menos gastar uma lágrima uma página?

padres

enquanto autoridades discutem se cinquenta reais é muito ou pouco heróis de vermelho queimam em desespero ardem sintonizados na dificuldade do trabalho quase escravo quase escrevo o nome do irresponsável que brinca com a vida desses fardados padres

vincos

eu mudei
o natal mudou
porque você não está mais aqui
sobras de sentimentos já foram todas usadas
não tenho o quê inventar
estou espremendo um resto de lenço um resto de cuspe passando por lágrima
gastas palavras numa folha reaproveitada
amassada e com vincos
como a minha cara
mina sem pepita
olhos sem perdão

musical

já não sei olhar
já não sei cheirar
já não sei sentir
pois sinto como você
me perdi sozinho
esqueci de me avisar
quando tivesse começando a desejar algo estranho à minha personalidade devia parar e respirar fundo desenhar em cavernas letras que me definissem que combinassem e fizessem uma palavras ou várias que mesmo que não formassem nenhuma frase me ajudassem a dizer algo musical

N AMOR ADOS

N
AMOR
A
D
OS
S
O
DA
R
O
M
ANAM
ORA
DOS
SO
DA
RO
MA
N

Sepulto

Vinha
Vinha
vinha...
veio com os pés sujos
tintos
macerados
(macerado)
dentes roxos
avinagrados
olhares raiados
(avermelhado
parreiras
turvando
minha visão
esverdeada)
esperava tudo
menos um vinho sepulto

Versos (Pelas Janelas Amarelas -- 5)

Pela janela
Vejo a vida passar
Sinto medo
Devo confessar
Mas me visto com as roupas
Da coragem
E com lealdade
A quem pretendo ser
Saio para combater
Um por um
Todos os meus moínhos
Zarpo sem rumo
Pelo simples prazer
De saber
Estar
Enfrentando o mar
Não por gostar de navegar
Mas para me testar
Acalmar
aguar
Meus sentidos
Salgar
Minha vida
Para
Com versos adoçar
Tudo em mim.

Natureza (Pelas Janelas Amarelas -- 4)

Com a cabeça dentro d’ água
Só penso no ritmo
da respiração e das braçadas
Não existe
nesse instante
Nada
A vida se resume
a água

um corpo dentro d’ água
sem pensamento
sem angústia
sem necessidade de perdão

um corpo sendo natureza

Fagulha (Pelas Janelas Amarelas -- 3)

Entre pedras
Da batida
Nasce a faísca
Da faísca
o mato seco dá a luz ao fogo
A fogueira queima tudo o todo de mata
A fogueira mata
A mata não respira
O ar não se espalha
Esquecendo da fagulha
Que nua
Não aquece as pedras
Desse poema

Bernardo (Pelas Janelas Amarelas -- 2)

entre os vários motivos provavelmente o mais importante foi o que ainda não escrevi sobre quando via o sofrimento do meu sobrinho Bernardo cedo afastado do convívio de parte da família que ficou no Brasil dizia à minha cunhada que o menino seria poeta parece-me agora uma previsão ainda correta pelos motivos que apresentara a ela só que aqueles motivos também me diziam respeito e quando hoje lembrei do Bê e seu olhar de fado tenho o momento exato em que tudo começou

Balanço (Pelas Janelas Amarelas -- 1)

No balanço
Que vejo da janela
do meu quarto
Tem pousada
Uma pomba
Que não sei
donde veio
Será da paz?
Ou no meio
disso tudo
que vivemos
Nem as pombas
são mais de paz?

Vivo (No Tempo do Vento -- 5)

palavra de sal
saudade
por segundos paralisa
alisar os cabelos, uma pista
o tempo sem pensamento roendo unhas, outra
aquele olhar distante
adiante
o passado é o perfume da rosa
os espinhos cuidado com o futuro
o presente é estar vivo

Um Dia (No Tempo do Vento -- 4)

Um dia, quando tiver tempo ou condição, escreverei um romance. Não um romance de capa e espada ou de amor, um romance meio como nossos tempos, sem compromisso, sem cuidado, sem carinho com pessoas ou palavras. Não capricharei de propósito, serão parágrafos misturados às dores de fato, não será escrito em outra pessoa que não a minha, romance totalmente na primeira pessoa.
Relembrarei casos e ocasiões, amigos e os safanões que a vida me deu, por ter essa louca mania de querer me comunicar. (não temo vento, momento, não temo nada para me fazer alcançar). Desconheço dificuldade, essa, talvez, minha maior ingenuidade...Característica que assusta e humilha os desconfiados de suas habilidades, alguns inclusive preferem destacar minha falta de tato, como se pudessem esconder o medo da chuva...(Impressionante o medo de saliva e idéias que temos. Todos tememos descobrirem uma das únicas verdades, desconhecemos por completo nosso jeito com os novos acontecimentos que certamente virão nos causar dor...).
Continuarei escrevendo sem me importar com a opinião dos especialistas em detonar a especialidade dos outros, sábios que, de tão treinados em escrever, não escrevem por receio de ensinar seus dotes ou truques aprendidos durante a vida (gostaria de saber que livro ensina a viver?).
Um dia, quem sabe, um dia terei condição mínima de não copiar os erros de ninguém e ao escrever conseguirei demonstrar que aprendi olhando o passado mas desejando o futuro...quem sabe descubra que o muro de ilusões e calos que construí não foi em vão e que nele conseguirei subir para avistar algo que não seja inveja, calúnia e difamação!
Um dia, quem sabe, um dia...


Niterói, em 28/05/2010.

Tempos (No Tempo do Vento -- 3)

O passado
no bico do pássaro
O presente
na semente
O futuro
na árvore com fruto

Sem Abrigo (No tempo do Vento -- 2)

Tantos anos foram
Vividos...
Precisei viver
Tantas coisas
Tantas passagens
Que não quero relembrar
Mas estão em mim
Sentimentos
Olhares
Cheiros e desejos
Continuam em mim
E por tantos anos me seguiram
Como um cão segue um mendigo
Como
Uma verruga
Permanece
na carne encravada
unha roxa
que sinaliza
tudo que se deu
tantos anos
e não foram poucas
as despedidas...
páginas corridas
de diversos
mestres foram
engolidas
quase sem saliva
empurradas
digestão abaixo
e
lá do alto
meus olhos só faziam chorar
lacrimejos
de desejos
por seus beijos
que ainda não existiam
bebês
que estavam
começando a engatinhar
nesse mundo de ilusão
e
por não saber
quem eu era
e quem seria
a vida era vivida
dia após dia
sem a necessária
dose de alegria...
doce e ingênua
forma
de me arrastar
até que algo
pudesse despertar
ou...
despedaçar
tudo à minha volta
não me deixando
margem para desperdiçar
aquela que
quiçá
fosse
minha única chance de me encontrar
outra vez comigo...
(sem abrigo...).

Niterói, em 24.09.09.

Cosmos (No Tempo do Vento -- 1)

Em tudo há luz
Mas
Também sombra
Em tudo há calor
Mas
O frio também
Se faz presente...
O futuro
Ainda ausente
Chegará amanhã
E assim
Sucessivamente
Até que o hoje findará
E esqueceremos de quem somos
Ou fomos

Cosmos

Quiromancia (Soul Poesia -- 5)

Um índio olha
uma estrela cadente e não sabe explicar mas entende...
um garoto olha
um crime na esquina e não sabe explicar mas entende...
um poeta faz
um poema e não sabe explicar mas entende...
entende
que alguém mesmo sem entender
sentirá

PoESIa ruSSA 2 (Soul Poesia -- 4)

Espaço P E dAço sem CONSIDEr ação
Sem à
C
O s
N
C
A ve
T
E z
naçÃo eS
ordemalEAatóriasEMrumo
AÇÃO é D I Z E R não!

(Tradução:Espaço, pedaço sem consideração, sem concatenação, ordem aleatória sem rumo, às vezes ação é dizer não!)

Maria (Soul Poesia -- 3)

Maria
Mesmo que seu nome
Não rimasse com poesia
Te diria
Te quereria
Como
A fruta quer o dia
Como a água precisa da fria
Água fria
Que vem dos pólos
Como o soro
Necessita da veia
Como a praia da areia
Precisaria de ti
Para encontrar
A religiosidade perdida
Pomba voando na sacristia

Homeless, o poeta (Soul Poesia -- 2)

...e o poeta continua mendigando atenção
executivos buzinam
em desespero
juízes
se escondem
em insulfilms
cada vez mais negros
e os desejos?
Os desejos
são descobertos pelos poetas
que vivem nas ruas
sem serem notados
como párias
alguns poucos
são destacados
pelo cheiro do que escrevem

Daqui (Soul Poesia -- 1)

Para onde eu vou tem papai noel?
Para onde eu vou tem papel
De escrever
Coisas de amor?
Para onde eu vou tem amor?
Para onde eu vou
Existe algo parecido com pavor?
Para onde eu vou posso espirrar
Ou não precisa?
Para onde eu vou
Vou ter amigos
Ou só vizinhos
Mudos, esquisitos?
Para onde eu vou
Papai e mamãe
Também podem ir?
Para onde eu vou
A pomba da paz
Pode parir?
Para onde eu vou
Estarei seguro?
Para onde eu vou
As crianças podem pular o muro para roubar mangas?
Para onde eu vou
Mangas serão revistas bacanas?
Para onde eu vou
Olhos puxados
Serão apenas olhos puxados?
Para onde eu vou
Não existem buracos?
Para onde eu vou
Qualquer um pode ir?
Para onde eu vou
Quando acabar daqui?

Sobra (Imaginar-te -- 5)


Com
O sol
Poente

Com água corrente

Com a natureza

Mas sem tristeza

Me vejo

Seu beijo

Com tudo em volta

Com o todo
E a sobra

Invasora Arte (Imaginar-te -- 4)

Parte consciências
Invade residências
Entalha na carne
Grava na alma

Pinta a fauna
Mancha de tinta
A palma da mão

A arte não acalma
Agita
Desfralda
Desfolha a solidão

A arte
Amanhece o querer
Ilude a tarde
Antecipando o anoitecer

Sombreando sorrisos de ilusão
A arte
Impossibilita
Arrisca
Petisca
o encontro com a pretensão

A arte
namora
esfola
Vai embora
Cativando em nós uma paixão
Ao descobrirmos
quem somos ou fomos
antes da invasão!

Humano (Imaginar-te -- 3)

Extraio do barro
Palavras sem adjetivos
Desenho sem cor
Somente pela impossibilidade
Sem sobras.
Palavras de barro
de dor
Esculpo a flor
Escultura mais que pintura
Pintado por música
em (des) harmonia
Nostalgia do fazer
Pretende
Ultrapassar o particular
alçar vôo
alcançar o humano
Que há em mim!

Duas Pedras (Imaginar-te -- 2)

dos desequilíbrios
da
vida
e
do
poeta
(duas pedras)
nasce
a faísca

A arte chama

Capa (Imaginar-te -- 1)

Se
fosse
Fome
Comeria
Todos
Tudo
E me livraria
Só das capas...

Mentes, brilhante (E = mc2 -- 5)

Mentes
Brilhante
Mentes tanto
Tão brilhantemente
Que pretendes me enganar?
Mentes
Tão profundamente
Que consegues provar
Que a água tem cor, cheiro e sabor!
Mentes
Pelo amor da inverdade
Querendo
Afirmar
Verdades incongruentes
Mentiras concludentes
Quantas brilhantes mentes
pretendes enganar?

Fotos (E = mc2 -- 4)

Fotos
não espelham quem somos
Fotos
não brilham como nossos olhos
Fotos
não identificam nosso jeito
Fotos
destacam nossos defeitos
Fotos
não nos permitem sonhar
Fotos
não se escondem para chorar...

...Deus também (E = mc2 -- 3)

Deus existe

é
nossa crença
no futuro

O Diabo existe
está em nós
é
nossa consciência
no escuro

Creio (E = mc2 -- 2)

Creio em Deus
Creio no tamanduá
(sendo formiga)
Creio em mim
Creio em tudo
No nada também
Creio pode crer
Creio para ter crença
creio para ter freio.

Árvore-dor (E = mc2 -- 1)

De brincadeira
Fiz versos de amor
Na cumeeira
De brincadeira
Fiz cestas da cor
Verde da trepadeira
Sem brincadeira
Fiz versos da cor
Azul da cachoeira
Sem brincadeira
Fiz cestas da árvore-dor
De uma vida inteira...

sábado, 11 de junho de 2011

Um Cara (Meu Vagabundo Olhar -- 5)

Umcaratatuadonomeiodeoutroscarastatuadoséapenasmaisumcaratatuado

Truques (Meu Vagabundo Olhar -- 4)

Não quero
me utilizar de truques
Não quero copiar
rima em livros antigos
desdigo quem sou
se fizer isso
quero verdade
quero suor molhando o papel
quero seu fel
se assim for
quero sentir seu calor
não quero
me utilizar de subterfúgios
quero subúrbios
com mocotó e feijoada
quero samba no pé com mulata
quero Cartola, Martinho
e da Viola
quero Paulinho
Claudinho e Buchecha
quero rap, funk soul
sei quem sou
por isso posso querer
o que quiser
(o processo foi dolorido
bonito resultado
que ao seu lado
obtive
me abstive de votar
no meu candidato
eu não posso exercer mandato
na minha própria empresa
minha presidência
é totalmente demais)
louco satisfaz
o próprio querer
sem nunca esquecer
dos truques necessários
para manter
escondidos no armário
seus verdadeiros desejos
próprios beijos
aquecidos
por mel e grossos lábios
perfeitas satisfações
relicário de ilusões!

Truques (Meu Vagabundo Olhar -- 4)

Não quero
me utilizar de truques
Não quero copiar
rima em livros antigos
desdigo quem sou
se fizer isso
quero verdade
quero suor molhando o papel
quero seu fel
se assim for
quero sentir seu calor
não quero
me utilizar de subterfúgios
quero subúrbios
com mocotó e feijoada
quero samba no pé com mulata
quero Cartola, Martinho
e da Viola
quero Paulinho
Claudinho e Buchecha
quero rap, funk soul
sei quem sou
por isso posso querer
o que quiser
(o processo foi dolorido
bonito resultado
que ao seu lado
obtive
me abstive de votar
no meu candidato
eu não posso exercer mandato
na minha própria empresa
minha presidência
é totalmente demais)
louco satisfaz
o próprio querer
sem nunca esquecer
dos truques necessários
para manter
escondidos no armário
seus verdadeiros desejos
próprios beijos
aquecidos
por mel e grossos lábios
perfeitas satisfações
relicário de ilusões!

Contra (Meu Vagabundo Olhar -- 3)

Contra tudo
Que não seja a favor...
Contra ismos
(esnobismos?)
contra ites
(já tive apendicite
E sei o quanto dói!)
Contra o irreal
Sentimento que corrói
(meus poemas são
Expansões da crua realidade!)
Contra a falta de invencionice
Na vida real
(viu, ice pode!)
Contra a miséria
(intelectual deveria
comer pão sem ovo
de vez em quando!)
contra a canalhice
criancice
de achar que mulher
não pode dar
(dar não, que é feio, emprestar fica melhor!)
contra lista
de revista
contra caras e bundas de revista
(bunda em brasileiro é palavra bonita!)
Contra o que mais...?
Contra um poema que não seja a favor...

Niterói, em 17.04.09.

Caminhando e rimando (Meu vagabundo Olhar --2)

nenhum olhar atravessado nenhuma lei nem a do silêncio nenhum carro nenhum engarrafamento nenhum emprego nenhum desemprego nenhum sim muito menos um não nenhum montão de coisas ruins nenhuma crítica nem mesmo um comentário de contrários nenhum podia ser melhor nenhum Bon Jovi nenhum fresco som da garotada que ainda não sabe que está errada nenhum zero nenhum universitário seja forró seja sertanejo nenhum realejo nenhum filho de famoso nenhum colosso de osso nenhuma gravadora equivocada nenhum bando muito menos uma banda...

Alfinete (Meu Vagabundo Olhar --1)

Não tô nem aí se remete a Saramago se às vezes lembra Pessoa estou aqui afogado em loas não quero medalhas sei o tamanho do alfinete estilete entre os dentes esse é meu nome os que sabem que não sabem não escrevem por não terem coragem e eu sabendo que sei escrevo sobre o que não sei não me vejo à toa nesse mundo midiático em que a performance é medida mais pelos amigos de bar do que pelo tamanho das letras em todos os lugares é isso que faz funcionar a engrenagem nunca direi nada contra isso ao contrário quero descobrir para que lado é a maré e surfar de pranchão não tô nem aí para sua opinião vou fazer de qualquer jeito já aprendi nado de peito no leito deito e tremo a mão de frio não me importo aprendi a escrever com calafrio não preciso das condições ideais quem as tem? Comigo é no ferro! passar bem

Verbo Tecnologia (No Princípio...POESIO -- 5)

eu poesia

tu tecnologia

ele calado

nós fios desencapados

vós maquinaria

eles indiferença

Verbo Árvore (No Princípio...POESIO -- 4)

eu semente

tu água

ele sol

nós vegetação

vós milhares

eles devastação

Triatleta (No Princípio...POESIO -- 3)

como o triatleta
também confronto o tempo
(e sempre perco...)

a saudade impede a paisagem de me seduzir

poeira (No Princípio...POESIO -- 2)

sendo poeira
a poesia
não marca
não pesa
fica coçando nos olhos
de quem desprevenido foi pego olhando para o nada

Como uma árvore (No Princípio...POESIO --1)

um poeta
é como um árvorenos dá sombra
a poesia como fruto
nos alimentaum poema não é feito para quem sabe
é feito para quem não sabe que já viveu...

um suspiro (No Inverno, Fechei os Olhos e Chorei -- 5)

num relógio
a poesia
sendo o ponteiro dos segundos
marca os mundos percorridos durante um suspiro de amor

Esperança-ilha (No Inverno, Fechei os Olhos e Chorei -- 4)

O poeta se forma no instante antes da lágrima
quando segura as próprias mãos, sem fôlego, que nos ensina o valor de amigos
no silêncio em que navegam sentimentos
um peito dolorindo de desejos
ansiando por beijos, agora inexistentes
segundos de dormentes pensamentos
mundo que voa vago, falho, como somos todos
o esforço da lagarta, não fotografado
aquela esperança-ilha de achar vida numa linha escrita

Van Gogh (No Inverno, Fechei os Olhos e Chorei -- 3)

o que assusta na noite é a escuridão
ela ilumina nossa ilusão
nos faz ver a verdade
monstros pulam no colchão
a maldade das palavras jogadas contra nossa solidão
aparece transparece
lembramos dos
sorrisos irônicos
dos olhos catatônicos
das vozes sinfônicas
que nos ajudam a nos desacreditar
a escuridão da noite é uma tela de Van Gogh

(noite estrelada)

Balbucio (No Inverno, Fechei os Olhos e Chorei -- 2)

Não é difícil continuar
(é como respirar, não precisamos pensar)
difícil é continuar
amando
esperando algo que nos satisfaça
ansiando por algum tipo de palavra, que não vem
porque não é da natureza fazer crescer
uma planta-palavra
que dê luz, que dê sombra, que dê água
não é da natureza humana criar uma planta
simples como uma margarida
que nasce em qualquer esquina
e que se chama
(como se eu soubesse pronunciar)
compaixão

Quilate (No Inverno, Fechei os Olhos e Chorei -- 1)

Para minha saudosa mãe Bertha Fróes Cruz Plácido

A partidanão é despedida
lágrimas molhando o chão de terra batida
palavras escritassem olhos que as queiram sorrir
enquanto vejo meu filho de cinco dormindo
lembro de sua alegria sem eletricidade
não me despeço em palavras
estamos juntos como juntos estávamos há pouco
estamos enlaçados(presente no passado)
poema num retrato
em que sorrisos são captados pela intensidade das mãos dadas
lágrimas na terra molhada
promovem o encontro da vida com a vida
alegria herdada
melancolia preservada
na pedra bruta da saudade
que arde

quilate

Emília ((IN) fluências -- 5)

...aquela boneca de irmã, perdida

...poesia

Céu-constelação ((IN) fluências -- 4)

essencial
o silêncio, terra adubada
letras, chuva
o talo da flor são palavras sendo germinadas
entre o nada e o som
entre o espaço e a intenção

um jardim é o reflexo de uma relação
céu-constelação

Sal ((IN) fluências -- 3)

sal
e
idade

saudade

A Prisão ((IN) fluências -- 2)

olhos são telas
celas
costelas
cabelos
fios de alta tensão
dentes
arames
mãos cadeados
pensamento
prisão

(A Miguel Gullander)

(céu) ((IN) fluências --1)

"...quis amar o infinito como um corpo."
escopo de um fragmento que se encerra
num sopro de idéia absurda
de possuí-la, estratosfera
de vê-la inteira nos meus braços, sincera...
sério das responsabilidades advindas de ser
seu
(céu)

5 poemas de cada livro

Nessa história, recente mas intensa, de poesia e na consequência de música, escrevi uns vinte "teclusdigitus", que acabaram em nove livros, chamados: a) (IN) fluências; b) No Inverno, fechei os olhos e chorei; c) No Princípio...POESIO; d) Meu Vagabundo Olhar; e) E =mc2 (Explosão é igual a ação vezes emoção ao quadrado); f) Imaginar-te; g) Soul Poesia; h) No Tempo do Vento; e i) Pelas Janelas Amarelas.

A seguir irei postar cincos destaques de cada um dos nove livros, na ordem respectiva.

detratores

o sol chega
e traz as sombras
prédios
remédios
médicos
fingem sentir
algo por alguém
mais sinceros são os bandidos que não esperam para agir
matam
esfolam
roubam
sem dó nem perdão
mas
fazem tudo com a calma e o profissionalismo exigidos pelos
exímios detratores do idioma pátrio

promessa

ontem prometi a mim
que hoje ficaria
pensando, lendo e sonhando
aprendendo
com o passado nas linhas escritas
das vidas romanceadas
ficaria resguardado do frio e com a tristeza que em mim repousa
imaginando o encontro no momento impossível
retirando o pó das gavetas, costelas
tentando ludibriar o choro
fonte de profundos risos
em que me encontro com o menino
que me mantém vivo
naquela promessa

cadeado

onde estacionei meus desejos
tinha um fusca
um fusca de receios
seus anseios seus seios servem
me servem me condenam ao estado de ferrugem se não me abro se não te abro me sinto
me sinto um cadeado

firmamento

imagino uma vida
e
escrevo
minto
mito
meto
letras onde só há possibilidade
palavras de asas passam a pedra
pombos a mensagens
algumas sofridas passagens fazem jazem
valorizam o todo
que picotei em partes
extremamente maiores do que sou por dentro
vejo que a realidade é um firmamento

sansão

...só linhas
sendo preenchidas
algumas lições ensinam que a tinta
pode adoçar
depende do olhar
depende da direção escolhida
depende do suspiro sincero
da saudade aguada e ardida
espremido por silêncios
fiz
um poema
(são só
linhas
preenchidas...)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Flamenguista

Político que abusa da paciência do eleitorado, óbvio, não se reelege. O povo anda sem tempo mas não tem nada de otário, quando o político abusa do palavreado, chamando bombeiro de hidráulico, ladrão de caixa d'água está pedindo para tomar um corretivo. Que no caso específico é eleger o adversário, que ainda não existe ou já foi farinha do mesmo saco. As pessoas esquecem, ou, na falta de opção, fingem esquecer, e começa tudo de novo (o novo finge que é preparado e o antigo finge que é sério) e de novo votam errado. Ufa! Só com muita poesia e música para aturar a realidade (se é que ela existe). Aliás, se o cidadão carioca não estivesse desesperado não torceria para o Botafogo, Fluminense ou para Vasco.

Las Vegas

magia de luzes e ação como não se apaixonar pela criança ali risonha brincando de soltar dós rés mis sols fás? aquele olhar de pidona desejando se soltar ainda mais o palco é mais ou menos como Las Vegas lugar de brincadeiras adultas

alentejo

meus atos não influem no tempo se ficar parado envelheço de qualquer jeito uma hora a pele irá enrugar e se não me arrisquei o que irei contar aos meus netos?
que persegui borboletas no alentejo?

multiverso

como num multiverso acreditar na existência de alguém se preocupando como irei me comportar no meu novo emprego?!

ovelhas

...é exatamente o que penso:
"Lobos na pele de cordeiros enganam as ovelhas que estão esperando pelo pastor".

o infinito

o infinito é quando passamos a existir na memória dos inimigos

Navalha na carne

navalha na carne que sangra de saudade o sal do choro teto sem forro ardendo quentes redordações de um passado ainda recente porque em mim já li não existir morte é vida sem vontade sem esperança quando nos lembramos estamos evocando a parte em nós de quem se foi

como balões

enorme é a vontade de gritar:
"esqueçam opiniões são como balões de ensaio das próprias desilusões!".

pássaros

a vida não é um ensaio
pena que às vezes só nos damos conta disso muito tarde
a vida é à vera
erros são cobrados e na maioria das vezes não são perdoados
acertos são tidos como obrigação
essa a verdadeira maldade
que só reclamamos quando nos sentimos atingidos esquecendo quando atiramos no outro pássaro

fezes

ser humano
fede
suas certezas
fezes
suas incertezas
tremem
suas pequenezas
ferem
suas
suas até aprender a pedir perdão

símio

cego certo sério sigo seguro simplesmente sigo cego silvo seu sincero cega sucesso servil símio sabor

SET LIST (depois do show de ontem)

(Introdução)

1 -- Desafios;

2 -- Encantadas;

3 -- Andarilho (nova);

4 -- Pedra;

5 -- O Alvo (nova);

6 -- Constelação;

7 -- Contra;

8 -- Complexa Vazão;

9 -- Brigas;

10 -- Jaques Som/Desire;

11 -- Minas;

12 -- Sim;

13 -- À Cecília;

14 -- Cegos;

15 -- Versos;

16 -- Inútil;

17 -- Truques/Ah Ah Uh Uh;

18 -- Dias de Luta;

19 -- Exagerado;

20 -- Papai me Empresta o Carro;

21 -- O blues.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pra rir

criativo
foi o navegador
que descobriu o novo mundo
descobrir o velho mundo é mole

oi

um poeta não precisa escrever

ter a capacidade de antever
sofrer de amor
escorrer lágrimas por amizade
parecer desatento mas cuidar de longe, alisar os cabelos do pai mesmo que por palavras não ditas, não escritas
um eu te amo num simples:"oi, pai!"

(vícios)

(...acaba sendo simples, na vida o sucesso vem da capacidade de nos mostrarmos sem grandes vícios)

guerra

não sei se o que escrevo tem relevância mas
para mim é muito importante escrever e saber-me lido todos os poemas mais bonitos foram feitos pensando que seriam lidos que outras pessoas estavam à sua espera
(ilusão ganha guerra?)

memórias

de qualquer maneira o tempo passa
sendo mais ou menos precavido
sendo mais ou menos menino
sendo mais ou menos trabalhador
sendo mais ou menos sofredor
o tempo não acata sentimento, passa
os que viveram terão histórias para contar
memórias são o sofrimento de termos prestado atenção aos nossos desejos

jornada

...azul-solidão ...

cor que só existe num poema
cor das palavras aqui perdidas
sentimento-blues
(como escrevi logo no início da jornada)
um quê de porquê
um algo a mais na caminhada

(por vezes fingimos esquecer que é finita
linda mas finda
céu azul com nuvens cinzas
adubam a árvore da vida...)

triste

Por que poesia é triste?
porque é triste viver sem aqueles que nos geraram, em uma piscada nos escapam e não temos mais nenhum olhar desmascarado
porque é triste descobrir crianças na rua sem chance de serem animados como nossos filhos
porque é triste que os segredos virem notícia de jornal
porque é triste ver desconfiança rimando com sobrevivência
porque é triste viver sabendo que um dia a tristeza acaba com a gente

filhos, futuro

única esperança
ter filhos
vendo os meninos terem opinião sobre tudo o orgulho é imenso vê-los inteiros sendo cortejados pela vida é como se tivesse valido chegar até aqui simples amorosos zelosos do seu futuro do meu futuro só posso agradecer por tê-los conhecido

"cadáver adiado"

...e a vida segue
continuamos fingindo que o tempo está nos ajudando
quando ele nos agride com perdas diárias
todo dia me sinto tendo acordado com os atrasos retirados durante o dia de ontem hoje nova batalha e assim até que o futuro chegue e apresente a conta para o "cadáver adiado"

Paz

se soubessem como doi não ficariam rindo pelas minhas costas num mundo de processos e despachos escrever poesia gera troça incompreensão dos que temem ser confundidos com estátuas
a eles desejo paz

servil

...vejo
o precipício...
de dentro de seus olhos vejo um aflito cidadão quase pedindo perdão por não sei o quê pedindo uma mão que pudesse lhe acolher pedindo um cheiro um beijo uma risada que foi embora olhos miúdos de desejo por uma vida que não volta não tem volta para frente sempre humildade servil ao tempo
...de dentro desses olhos vejo um espelho...

CORTELLA, filósofo

TEMPOS

Ao filósofo Mário Sérgio Cortella

O passado
no bico do pássaro
O presente
na semente
O futuro
na árvore com fruto

NELSON MELLO E SOUZA, escritor e filósofo

"Sabe que a grande obra não é a que mais vende, é a que sobrevive. E se sobrevive, se merece a atenção da posteridade, é porque, como diz o solitário Franz Kafka, "nos atinge como um soco no rosto, como um suicídio".
São as obras que nos falam dos sobressalatos do amor,das incertezas da vida, da certeza da morte, do mistério do tempo e do enorme fardo do ego. Sendo temas comuns, são sempre individualmente tratados porque o ego traz consigo a carga da memória pessoal, o acúmulo dos desacertos e o custo de todas as perdas."
A vida se nega a ser compreendida por quem se coculta de si mesmo. Se a olharmos de frente vamos ver que o tempo somos nós. Não está no espelho misterioso em que "deixamos a nossa face", como sentiu a melancolia fatal do poeta. Nossa face, não a deixamos em lugar algum porque nela o que se reflete é a essência de nossa história. Os vincos que a deformam são os mesmos que nos constroem. E cada um tem os seus. Equívoco é o dos que buscam no viver, descuidado pela alegria do lúdico, esconder esta verdade."

quarta-feira, 8 de junho de 2011

entrega

Brinco com o tempo
com o passado
quando leio e
quando lanço um livro
entrego um presente
ao futuro

terça-feira, 7 de junho de 2011