segunda-feira, 30 de abril de 2012

o frio

funciona que é um absurdo, o frio
mudo
me põe para pensar
escrever
assustar
encontro-me com algumas recordações
cheiro de pipoca, filmes e uma porção de motivos para não andar na praia
a chuva ajuda a preguiça
tudo ajuda a angústia
de continuar
tudo funciona quando queremos parar

KAVÁFIS, poeta grego -- ARTISTA DE CRATERAS

Na cratera    pura prata
fatura em prol    do solar Heracleide
o gosto súpero    avulta:
vê! flores pulcras    arroios, arbustos,
no núcleo    o sumo púbere,
nu, erótico;    uma perna sub
merge na água    ainda. Ó memória,
em meus rogos,    eras arrimo ótimo! Queria a figura
do novato benquisto,    seu rosto, ícone exato.
Empresa sobre    difícil: quinze anos,
quase, nos    separam da jornada
em que derruiu na pugna    de magnésia, em pleno ofício.


Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- MAR MATUTINO

Deter-me aqui. Vislumbre um pouco a natura.
O rútilo blau do mar matutino,
a abóbada sem nódoa, a orla ocre. A tudo
embeleza a luz efusa.

Deter-me aqui. Me iluda um tal panorama
(verdade: estático, o vi fugaz);
um tal, e não, também aqui, as fantasmagorias,
as rememorações, a luxúria das miragens.



Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- RARIDADE

Quase um antepassado. Curvo e extênuo,
devastado pelo tempo e excentricidades,
sôfrego em sua cadência, cruza a viela.
Tão logo se recolhe à moradia,
com o intuito de ocultar a decrepitude e a idade,
pensa no que ainda tem dele a mocidade.

Efebos recitam sua poesia.
Seus vislumbres ocupam as retinas vivazes.
A fibra de suas psiques voluptuosas,
a carne rija e bem distribuída,
comovem-se com sua experiência de beleza.


Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- FUI

Não me retive. Abri-me inteiro e fui.
À voluptuosidade, real às vezes,
concretizada às vezes em meu cérebro,
fui, no luzidio pleno de uma noite.
Goles de vinhos encorpados, como sói ser
com quem desteme o prazeroso.

KAVÁFIS, poeta grego -- TEDIÁRIO

O enfado jornalário emula o enfado
jornalário. A idiotia reincide
no episódico, idiotia rediviva -
a minudência espetacular do vai e vem.

A mesmice mensal do mês.`Presumir o porvir não requer talento:
o torpor engravida a véspera.
E, vazio de amanhã, amanhece.


Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- Desejos

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,
chorados à clausurade um mausoléu magno,
com pétalas à testa, com jasmim nos pés,
assim transcorrem os desejos que abortam,
alheios à volúpia de uma noite única,
ao rútilo clarão do seu amanhecer.



Tradução: Trajano Vieira.

ciência

o problema não é o medo de errar
mais do que isso
é o medo de respirar
ao respirarmos com consciência tomamos ciência de quem somos e do que queremos fazer
dos nossos anseios, mais especificamente
e depois disso quem disse que queremos parar de correr?

Wallace Stevens, What We See Is What We Think

AQUILO QUE VEMOS É AQUILO QUE PENSAMOS

Ao meio-dia, a desintegração da tarde
Começava, o regresso ao fantástico, se não mesmo
aos fantasmas. Até então tinha sido a outra via:

Imagináramos as árvores violetas, mas as árvores continuavam
verdes.
Tão verdes, ao meio-dia, quanto para sempre ficariam.
O céu era azul para além da mais abobodada frase.

Meio-dia significava isto: o fim do tempo normal
Uma subida, um élan sem perturbação,
O imprescritível zênite, livre de arengas,

Meio-dia, e o primeiro instante cinzento depois,
Uma espécie de cinzento violeta, um violeta verde, um fio
Com que tecer a perna ou a manga de uma sombra, um esboço

No pedestal, uma ambiciosa página dobrada,
Em cima, à direita, uma pirâmide em que um lado
É como um corte espectral nas sua percepção, um declive,

E a sua caricatura fulva e a fulva vida,
Um outro pensamento, o supremo bulício...
Pois aquilo que pensamos não é nunca aquilo que vemos.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.

domingo, 29 de abril de 2012

fruturo

muda, a muda muda
com o milagre
da multiplicação
do choro
passará
de semente a árvore
provando
que não há risco
num futuro
pendurado
por um galho

Wallace Stevens, Of Modern Poetry

DA POESIA MODERNA

O poema da mente no ato de encontrar
O que basta. Nem sempre houve o que encontrar:
Havia uma cena pronta: que repetia o que
Estava no guião.

                             Então o teatro transformou-se em
Algo de diferente. O que ele era tornou-se recordação.

É preciso estar vivo, é preciso aprender a fala do lugar.
É preciso olhar os homens do tempo e encontrar as
Mulheres do tempo. É preciso pensar no que é a guerra
E é preciso descobrir o que basta. É preciso
Construir um novo palco. É preciso estar nesse palco
E, como ator insaciável, devagar e
meditadamente, dizer palavras que ao ouvido, Ao mais delicado ouvido da mente, repitam
Exatamente o que ela quer ouvir, no som
Em que uma invisível audiência escuta,
Não a peça, mas ela própria, expressa comno se,
Numa emoção de duas pessoas, como se, de duas
Emoções tornadas uma. O ator é um metafísico
No escuro, arranhando
Um instrumento, arranhando uma corda metálica cujos
Sons atravessam súbitas exatidões, um todo
Em que a mente está, abaixo da qual não pode descer,
Para além da qual não tem vontade de ir.
                                                                      É preciso
Que seja o encontro de uma satisfação, e talvez de
Um homem patinando, de uma mulher dançando, de uma mulher
penteando-se. O poema do ato da mente.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.

MARCO PLÁCIDO BRASILEIRO, Set List do show do dia 04/05



(Introdução)



1 – Desafios;



2 – Encantadas;



Boa noite, agradeço a presença de todos!



3 – O Alvo;



4 – Quase Sem Querer;



5 – Minas;



6 – Pedra;



7 – Don’t Stop Dancing;



8 – Constelação;



9 -- Contra;



10 – Complexa Vazão;



11 – Sweet Sina;



12 -- Brigas;



13 – Crazy;



14 – Jaques Som;





INTERVALO





15 – Little Wing (nova);



16 – Sim;



17 -- À Cecília;



18 – Cegos;



19 – Versos;



20 -- Inútil;



21 – Truques;



22 – Perdão (nova);



23 – Dias de Luta;



24 – Papai me empresta o carro;



25 -- A Saudade/ Blues do Medo.

Wallace Stevens, Martial Cadenza

CADÊNCIA DE MARTE

I

Só esta noite vi de novo, baixa, no céu
A estrela da tarde, no princípio do Inverno, a estrela
Que na Primavera coroará todo o horizonte a oeste,
De novo...como se voltasse, como se a vida voltasse,
Nãonum futuro filho, numa outra filha, noutro lugar,
Mas como se a noite nos encontrasse jovens, jovens ainda,
Ainda caminhando no nosso próprio presente.

II

Foi como um rápido tempo num mundo sem tempo,
Este mundo, este lugar, a rua na qual estava,
Sem tempo: como não tem tempo aquilo que não é:
Não é, ou é feito daquilo que foi, cheio
Do silêncio anterior aos exércitos, os exércitos sem
Trombetas ou tambores, os comandantes mudos, as armas
Por terra, fixadamente imóveis, numa profunda derrota.

III

Que tinha essa estrela a ver com o mundo que iluminava,
Com o vazio dos céus sobre a Inglaterra, sobre a França
E sobre os acampamentos alemães? Parecia estar alheia.
E, no entanto, é isto que permanecerá -- ela própria
É tempo, alheio a qualquer passado, alheio a
Qualquer futuro, o sr que sempre é
O que sempre respira e mexe, o fogo permanete,

IV

O presente próximo, o presente realizado,
Não o símbolo mas aquilo por que o símbolo está,
A coisa, viva no ar, que nunca se transforma
Se bem que o ar se transforme. Só esta noite eu a vi de novo,
No princípio do Inverno, e de novo eu caminhei e
Conversei, e de novo fui, e de novo respirei
E de novo me movi e de novo cintilei, o tempo de novo cintilou.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.

Wallace Stevens, On The Road Home

NO CAMINHO DE CASA

Era quando eu dizia
"Não há uma coisa chamada verdade"
Que as uvas pareciam mais cheias.
A raposa acorria do seu buraco.

Tu... tu dizias,
"Há muitas verdades,
Mas não são partes de uma verdade"
Então, à noite, a árvore começava a transformar-se

Deitando fumo através do verde, fumo azul.
Éramos duas figuras numa floresta.
E dizíamos que estávamos sós.

Era quando eu dizia,
"As palavras não são formas de uma única palavra.
Na soma das partes só há as partes.
O mundo deve ser medido pelo olhar";

Era quando tu dizias,
"Os ídolos viram muita pobreza.
Ouro e serpentes e piolhos,
Mas não viram a verdade";

Era nessa altura que o silêncio ficava maior
E mais longo, a noite mais redonda,
O perfume do Outono mais quente,
Mais próximo e poderoso.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.

Wallace Stevens, Poetry Is A Destructive Force

A POESIA É UMA FORÇA DESTRUTIVA

Eis o que é a desgraça
Nada ter no coração.
Há que isso ter ou nada.

Há que ter essa coisa,
Um leão, um toiro no peito,
Snti-lo a respirar.

Corazon, cão encorpado,
Jovem touro, urso de pata arqueada,
Sente o próprio sangue, não o cuspo.

Ele é como um homem
No corpo de um animal violento.
Os seus músculos são seus...

O leão dorme ao sol.
Com o nariz nas patas.
Pode matar um homem.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.


verdade e mentira

aproximam-se de mim
duas verdades
uma sonora
outra
assombrada
acobreada
de talento
uma esnobe e pobre de argumentos
sendo todos, tudo querendo, minto
em mentol hálito de natureza
sonho concreto, turmalina
a outra, e última sendo cristalina
(mentira)

Wallace Stevens, The Sun This March

O SOL EM MARÇO

O excessivo brilho deste sol precoce
Faz-me sentir quão escuro me tornei

E de novo ilumina as coisas que no vasto
Azul se cobriam de oiro e eram parte

Do espírito instável de um eu muito antigo.
E também isso regressa com o ar de Inverno,

Como uma alucinação que chega espreitando
Pelo canto do olho. O nosso elemento,

O frio é o nosso elemento e o ar de Inverno
Traz vozes como se leões chegassem

Oh! Rabbi, Rabbi, protege por mim a minha alma
E sê o verdadeiro sábio desta escura natureza.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.

cerca

A Wallace Stevens

o vento se move como meus argumentos
pesado
cansado
modorrento
sendo o tempo
influí no meu humor
me põe de joelhos e choro a incompreensão
que é minha que é vida que é cerca
de todos nós
humanos
que muitas vezes
só(s)
escutamos o vento

Wallace Stevens, The Wind Shifts

O VENTO MOVE-SE

Assim se move o vento:
Como os pensamentos de um velho humano
Que ainda pensa com fúria
E avidez.
Assim se move o vento:
Como um humano sem ilusões
Que ainda sente coisas irracionais dentro dela *
Assim se move o vento:
Como humanos que orgulhosos se aproximam,
Como humanos que em fúria se aproximam.
Assim se move o vento:
Pesado e pesado, como um humano
Que não se importa.

*(erro de concordância como o original)


Tradução: Maria Andrensen de Sousa.

Wallace Stevens, The Snow Man

O Boneco de Neve

É preciso que a mente se faça Inverno
Para olhar o frio e os ramos
Dos pinheiros encrostados de neve

E ter tido frio durante muito tempo
Para ver os juníperos, hirtos de neve,
Os toscos abetos no distante brilho

Do sol de Janeiro; e sob o som
Do vento não pensar em dor alguma,
O som das poucas folhas,

Que é o som da terra,
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo deserto lugar

Para o ouvinte, que ouve na neve
E, nada sendo, nada vê do que
Ali não está e vê o nada que está.


Tradução: Maria Andresen de Sousa.

sábado, 28 de abril de 2012

Shakespeare, soneto n. 60

Quais ondas rumo aos seixos de uma praia,
Nossos minutos correm para o fim,
Cada qual sucedendo ao que desmaia,
Lutando por chegar mais longe enfim.
O nascimento, luminosos instante,
Para a maturidade avança herói;
Eclipses frustram sua glória adiante
E o tempo que o gerou ora o destrói.
Trespassa o tempo o ardor da juventude,
Enruga a face da beleza opima;
Nutre-se do que é raro em plenitude,
Nada lhe escapa à foice que dizima.

Mas meus versos esperam no papel,
Louvando-te, vencer a mão cruel.

urina

a noite traz o sossego
do medo
das imagens que ficaram guardadas
não sei onde
não sei ontem o que se passou
mas recordo
e a noite machuca utopias
espalha pedaços de sonhos

nalgumas noites frias
às vezes só a urina
vem me esquentar

Noite

Noite

açoite de silêncio

sendo

silêncio de pose

contra o tempo

Shakespeare, soneto n. 34

Por que me prometeste um belo dia
Fazendo-me viajar sem agasalho,
Se havia nuvens a encobrir a via
E a ocultar teu fulgor o céu grisalho?
Não basta, abrindo as nuvens, te condoas
Para secar de minha face a agrura,
Pois ninguém ao remédio tece loas
Que trata a chaga mas o mal não cura.
Teu remorso não sara o meu tormento,
Pois te arrependes, mas o mal se adensa.
O pesar do culpado é fraco unguento
Àquele que suporta a forte ofensa.

Mas se de amor as lágrimas desatam,
-- Pérolas ricas -- todo o mal resgatam.


Tradução Ivo Barroso.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Shakespeare, sonetos

17

Um dia crer nos versos meus quem há-de
Se eu neles derramar teus dons mais puros?
No entanto sabe o céu que eles são muros
Que a tua vida ocultam metade.
Dissera o que de teu olhar emana,
Teus dons em nova métrica medira,
Que acharia o porvir então: "Mentira!
Tais tratos não retratam face humana."
Que mofem pois deste papel fanado
Qual de velhos loquazes, e a teu ente
Chamem de pura exaltação da mente
E a meu verso exageros do passado.

Mas se chegar a tua estirpe a tanto,
Em dobro hás-de viver: nela e em meu canto.


Tradução de Ivo Barroso

quinta-feira, 26 de abril de 2012

pontapés

não se engane
esse poeta que voz fala
foz de água ardente de saliva
que era o brigão das peladas de outrora continua com o mesmo instinto do menino que queria ganhar todas as disputas e que corria sempre em qualquer campo contra qualquer time e como um desesperado contra um mau resultado palavras são a bola de antigamente e os livros são os pontapés editados

florado

calma é conseguir respirar
paciência é conseguir pensar, ao respirar
a idade traz as duas
que combinadas
tiram o peso da caminhada
e
ajudam a encher o caminho
de imagens de possibilidades rimadas

plantas

os poetas não ensinam poesia
ninguém ensina
no máximo
damos dicas
de como é que se constrói
um jardim de rimas com raiz

salvação

...esse um dos problemas
em princípio somos sectários
os engenheiros acham que só eles constroem
os médicos que só eles curam
e os religiosos têm certeza absoluta
que só eles sabem
o caminho da salvação

a obra

o desejo foi tão grande que descobriu a possibilidade
da ardência de parte
a história foi contada
em várias pequenas homenagens rimadas
baseadas mais na audácia
que na diversidade
e agora que o edifício está um pouco mais alto
sua sombra impede as pessoas de se deslumbrarem?

o povo e o Rei

desde de que o mundo é mundo
as palavras são valorizadas
mas
o poder de traçá-las não era concedido a qualquer um
o Rei podia manipulá-las
o mago
o sacerdote
a princesa
o povo não podia nunca tanto que não aprendia nada
a ele só era dada  a possibilidade de trabalhar
só a elite deveria pensar para melhor controlar a situação
os anos se passaram e algo mudou desde então?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

ócio criativo

é preciso
ter
calma e paciência para viver
para quê correr?
correr para qual direção?
precisamos respirar para pensar em algo que nos motive
que nos coloque em crise e dessa venha uma invenção
revelação de quem somos na confusão
e dos princípios norteadores da nossa vida
não devemos esquecer do ócio
criativo

Rio de Janeiro

onde anda o meu amor
que dobra esquinas em Copacabana?
que ensina um menino de circo
a ser menos palhaço?
em que parte do rio encontro um sorriso
para adornar esse presente e dá-lo ao meu amor latente?
em que idioma falo a língua dos amantes
antes que doa
antes que parta uma parte de mim
que destoa de quem finjo ser?
onde está aquele ser que é metade e me faz inteiro?

inteligência artificial

...corremos
para ficarmos parados!
ratos é o que somos
dum laboratório de drogas
dum país de merda
desses que fedem até pela tela
de filmes de quinta
que algumas produtoras americanas
ainda teimam em produzir
com astros enlatados e gastos
que se esforçam para provar
que os anabolizantes de bosta
produzem algum tipo de inteligência artificial

bruxa

...mais do que a própria uva
é do cheiro da uva
que se trata
mais do que o nariz com verruga
é da gota de lágrima do olho da bruxa
que a arte realça

torcedores

o amor não pode ser discutido
todos temos nossos vícios
uns bebem
uns comem
uns torcem

um time é um signo
daquilo que queremos como princípio
o não entendimento disso demonstra o desrespeito ao querer alheio

nós humanos deveríamos guardar com zelo nossos desejos
e o desejo alheio com respeito

irmã

Qual Narciso
retorno ao papel
procurando
a irmã
saudade
que me legou
a eternidade
num lago de rimas

terça-feira, 24 de abril de 2012

crise

o tempo passa aproveitando-o ou não
(e todas as retinas cansadas sabem dessa verdade sem contestá-la)
a juventude é da pá-virada
pois se espanta com as obviedades da vida que desconhece e que não querer conhecer
(por isso se espantará quando começar a envelhecer, sem saber, sem saber do que poderia prever)
a meia idade, que dizem ser aos cinquenta -- como se todos chegassêmos ao cem anos, atravessa as crises com mais resignação, muitas vezes ajudada pela oração, que consola e alivia uma raiva atávica e segue em frente com o medo inerente a quem também não pensou que podia envelhecer
a melhor idade -- ironia dos mais novos, com a terceira e última idade, não vê saída e aproveita até a última piscada desprevenida para se livrar de todas as idiossincrasias que poderiam ter sido despachadas lá pelos quarenta, antes ou depois da crise
(isso alguém me disse)

na barca

hoje
na barca
o passado
me intimou a continuar
me disse tendo o mar como testemunha
que escrever é amar
que amar é rimar
que rimar é não hesitar
é preciso continuar
sem excitar
sem se magoar
com palavras impróprias
apenas continuar é preciso
como é preciso sal para sentirmos o gosto da vida

doceiro

...enquanto fingem a dor
de esquecê-la
intimo a dor
que desapareça
entre letras
e que forme
palavras que me definam
(que mostrem a fome que sinto)
e definhem diante dos olhares assustados de leitores abismados com tal audácia

(a produção de dores açucaradas é especialidade da casa)

pequeno sorriso

enquanto tentam se livrar das palavras
por desconhecê-las
ou temê-las
as pessoas
outras
acabam
admirando os poetas
que procuram enfrentar
os medos
os desejos
os fonemas
e tentam juntar sentimentos
em palavras
e quando conseguem
esquecem do risco até ali corrido
e abrem um pequeno sorriso
de satisfação
com algo
que parece um texto verdadeiro

reflexo mundano

refletido nos meus olhos
está o mundo que escolhi
contar para vocês

um mundo que é azul
por escolha
das palavras
mas
se quisesse
poderia ser cinza
ou
de outra cor
de minha preferência

flor

pétalas

amor

dor

segunda-feira, 23 de abril de 2012

No meio do caminho

por não ter rabiscado nas cavernas de Lascaux, escrevo
por não ter pintado a Monalisa, escrevo
por não ter inventado o telefone, escrevo
por não ter surfado as maiores ondas do Havaí, escrevo
por não ter dado o primeiro beijo em novelas, escrevo
por não ter feito o poema No meio do caminho tinha uma pedra...




Mallarmé, poeta frânces

O AZUL

De um infinito azul a serena ironia
Bela indolentemente abala como as flores
O poeta incapaz que maldiz a poesia
No estéril areal de um deserto de Dores.

Em fuga, olhos fechados, sinto-o que espreita,
Com toda a intensidade de um remorso aceso,
A minha alma vazia. Onde fugir? Que espreita
Noite, andrajos, opor a seu feroz desprezo?

Vinde, névoas! Lançai a cerração de sono
Sobre o límpido céu, num farrapo noturno,
Que afogarão os lodos lívidos do outono,
E edificai um grande teto taciturno.

E tu, ó Tédio, sai dos pântanos profundos
Da desmemória, unindo o limo aos juncos suaves,
Para tapar com dedos ágeis esses fundos
Furos de azul que vão fazendo no ar as aves.

Que sem descanso, enfim, as tristes chaminés
Façam subir de fumo uma turva corrente
E apaguem no pavor de seus torvos anéis
O sol que vai morrendo amareladamente!

--- O céu é morto. --- Vem e concede, ó matéria,
O olvido do ideal cruel e do Pecado
A um mártir que adotou o leito de miséria
Ao rebanho feliz dos homens reservado,

Pois quero, desde que meu cérebro vazio,
Como um pote de creme inerme ao pé de um muro,
Já não sabe adornar a ideia-desafio,
Lúgubre bocejar até o final obscuro...

Em vão.O Azul triunfa e canta em glória
Dentro dos sinos. Sim, faz-se voz para sus-
Pender-nos no terror de sua vil vitória,
Rompendo o metal vivo em angelus de luz!

Ele rola na bruma, antigo, lentamente
Galga tua agonia e como um gládio a sul-
Ca. Onde fugir? Revolta pérfida e impotente.
O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!

exclamações

é preciso ter
cabeça
tronco e membros
são acessórios
o conteúdo é tudo
o mundo precisa de certezas
por isso
desdenha dos poetas
e suas rimas
em forma de exclamações

Deu no New York Times

A opinião pública transformou -- para pior, nossa opinião, pública. Todos já estamos treinados em não emitir opinião, preocupados que vivemos em não queimar nosso filme. Explico: todos queremos ser os mocinhos do filme de produção nacional (Isso porque somos humildes!).
Sempre sorridentes e amenos, evitamos, pelo menos, na frente das câmeras (e são tantas!), expressar algo que não seja o discurso perfeito, todos sabemos o que os outros querem ouvir.

Outro dia, a propósito, isso foi claramente demonstrado pelo Rafinha Bastos, quando ao entrevistar vários populares, em São Paulo, a respeito do preconceito sexual, todos os que falaram como se a câmera estivesse desligada assumiram ter preconceito.
Porém, diante da luz vermelha, sinal de que a câmera estava funcionando, passaram a tecer considerações bastante pertinentes acerca da aceitação ao outro ser humano, homossexual.
Hipocrisia total!
Até deu matéria no New York Times, como se os americanos pudessem ter ficado espantados com o tamanho da nossa falha moral.

domingo, 22 de abril de 2012

Lauro Escorel, opinião sobre Drummond

(...)
Não há, sem dúvida, homem sensível que não tenha experimentado, em certo momento da vida, sobretudo na adolescência, esse sentimento de solidão absoluta, de vazio, de abandono, que faz com que o animal humano se sinta literalmente perdido num mundo povoado apenas por seres indiferentes e hostis. Uma tal experiência de solidão se me afigura mesmo necessária ao amadurecimento do homem: um enclausuramento indispensável para que se trave, no silêncio do indivíduo, o diálogo essencial entre a consciência e o ser, sem o qual nenhum conhecimento é possível. Acontece, porém, que a introversão do solitário pode levá-lo ao endeusamento do próprio "eu", à autoclontemplação narcisista, impedindo-o de se sentir participante de uma comunidade frente à qual tem deveres e obrigações e através da qual há de se consumar o seu destino temporal.

A solidão é o fruto capaz de envenenar o homem que o prove sem dispor do antítodo da humildade. O fascista é um envenenado: o orgulho converte a sua solidão em algo de inumano e monstruoso, fazendo dela a substância de seu ódio e do seu ressentimento. O homem humilde, ao contrário, supera a solidão graças ao amor, que é essencialmente correspondência e comunhão.

Aquele momento em que todas as ligações com os próprios semelhates parecem definitivamente rompidas; aquele momento de incompreensões, de rupturas e de choques com o próximo, com os próprios pais tantas vezes; aquele momento em que a vida interior surge como o único refúgio possível, embora encerre muitas vezes o desespero, é decisivo para a formação do indivíduo. Dele, poderá sair místico, que vença a solidão pela participação do divino, um fascista, que nela cultive a suficiência, a prepotência e o orgulho, ou um homem íntegro, ao mesmo tempo consciente de si mesmo e contemplado pelo vínculo da solidariedade humana e pelo sentimento do mundo).

sábado, 21 de abril de 2012

insipiente

para algumas pessoas o silêncio é inteligência
(para quase todas, admito)
oportunidade de não demonstrar medo
desprezo pelo próprio tempo
arremedo de estilo
zelo a princípio
um vício de
incipiente vida

a lua e o cristo

o cristo segura a lua
ou a lua segura o cristo?
dois momentos decisivos
luz em olhos de escuridão é meu vício
por isso sigo seguro sendo
estilo

Tradução do poema AMOR, de Manuel Moure



AMOR:

Amor que vida pones en mi muerte

Como una milagrosa primavera:

Ido ya te creí, porque en la espera,

Amor, desesperaba de tenerte.

Era el sueño tan largo y tan inerte,

Que si com vigor tanto no sintiera

Tu renacer, dudara, y te creyera,

Amor, solo un engaño de la suerte.

Mas, te conozco, amor, y tan sabido

Mi corazón te tiene, que, dolido,

Sonrie y quiere huirte y no halla el modo.

Amor que tornas, entra. Te aguardaba.

Temia tu regreso, y lo deseaba.

Toma, no pidas, porque tuyo es todo.




AMOR:

Amor, que vida põe em minha morte

Como uma milagrosa primavera

Já te senti, porque na espera

Amor, desespero em te reter

Era um sonho tão pesado e imenso

Que se não sentisse com vigor intenso

Teu renascer, duvidaria de mim

Amor, eu seria um início sem fim

Mas, te conheço, amor, e de tão conhecedor

Dos seus segredos, meu coração dolorido

Sorri e ouve sua voz de qualquer modo

Entre amor, não me importo. Te aguardava

Temia seu regresso, mas o desejava

Me tome de assalto, porque tudo...sou todo seu.

saudades

À tia Ilza


uma voz me chama
em mim
arde
a lembrança

tanta esperança
tanta...
que vejo um buquê
de tudo o que escrevi
nada me lê
tanto
quanto um amor
à distância
que me lembra
sempre
quem sou

flor-poema

...o sentimento do mundo...

um profundo amor
que
por vezes
é dor

e em outras flor

flor nascida do calor da dor do amor

sexta-feira, 20 de abril de 2012

chope

os prédios ali embaixo fervem
as pessoas se perdem em confissões de mesa de bar
todas procuram o que falar e contam até as lágrimas suas histórias
inventando finais felizes
etílicos e simples

(como se a vida pudesse ser resolvida em alguns goles de chope)

uma verdade

o silêncio da saudade é combustível para uma obra de arte
e quando a solidão tem melodia
é poesia

adubo

se o amor
é uma flor
seu perfume
inebria
e impossibilita
a identificação daquilo que não é amor
ódio
inveja
calúnia
difamação
são
cascas de uma fruta podre
que pode quando muito virar adubo

Drummond, opinião

"É verdade que muitos de nós vão à América e de lá voltam -- ou não voltam, o que é pior -- com uma epiderme norte-americana colada à carne cabocla. Deixam-se invadir pelos Estados Unidos, e daí por diante não podem deixar de considerar sob um prisma ianque qualquer problema brasileiro que se lhes proponha. Trazem consigo um estoque de soluções nova-iorquinas para as nossa necessidades sertanejas. E desde o motorzinho elétrico para atar e desatar cordões de sapatos, até o aparato psicomecânico para denunciar os maus pensamentos dos funcionários públicos em hora de expediente, esses cavalheiros a todo instante nos oferecem os instrumentos miraculosos, de que se abasteceram no vasto arsenal de maravilhas da civilização norte-americana -- máquinas, filmes, best-sellers, camisas, planos econômicos, doutrinas pedagógicas, legumes enlatados... E nada nos falam, efetivamente, dos Estados Unidos, da sua alma e da sua atitude nova no mundo.".

amarelinha

a alegria
menina
de fazer um poema errado
é como se fosse uma amarelinha  pulada às gargalhadas

corpo absurdo

absurdo
o escuro assustar...
será que é por que temos tempo de pensar?

pensamentos são sempre sofrimentos?

o corpo doente não nos permite pensar?

Carlos e Mário

quando falava com Carlos
Mário se abria
tinha conhecimentos muito acima daquilo que escrevia
e escrevia errado
porque queria um português do Brasil
sem se esmerar em copiar os trejeitos
estrangeiros
com Osvaldo lutou
e foi incompreendido
difícil missão
dum homem das letras
que
como todos
queremos ser amados

princípio

...é tarde
eu sei
para qualquer demonstração
mas
um poema
é uma ilusão que cativo por princípio

a vida ensina

o ensinamento que fica
a despedida nos ensina a valorizar quem nos aproxima

sabáticas

as águas marinhas são minhas
como são minhas as recordações salgadas das viagens sabáticas que fizemos por ingenuidade

churrasco

sinto o sal
da carne do churrasco
fica a sensação do amargo
magro gosto
descontete e frouxo
esforço
que fiz para me encher de recordações

sinais

...dizemos não saber
quando não sabemos ou quando achamos que não sabemos?
se temos opinião sobre tudo
sobretudo em relação ao trabalho alheio
desconhecemos o que sabemos?
sempre desconfio de quem fala do que não faz
aliás
alguns professores inclusive ensinam...
triste sina

dois rolos

dois rolos de papel higiênico
se tocando
formando um óculos
ócio?
desejo de vingança?
de união?
símbolo póstumo de um artista
intimista?
símbolo fálico do poder da antevisão?

machado

rápido e indolor
um poema
é um machado
no caule de uma árvore de certezas

...e deixa marcas que podem ser chamadas de obras de arte

emergência

do silêncio retiro

um ensinamento

amar é a única saída

para quem ama

amar arranhar

com a unha lixada da obra de arte

gesso

falo-me ouço-me escuto-me pouco-me escrevo-me rondo-me gosto-me muito
deságuo-me enterro-me sobrevoo-me sublimo-me até me livrar daquilo que me engessa

quinta-feira, 19 de abril de 2012

caras pálidas




...o cheiro de chuva me mostrou o sentido da vida...



a semente espera a hora da água viva que pode ser lágrima

espuma de cachoeira

ou uma bendita saliva

que escapou da boca de uma criança indígena perdida entre habitantes de um mundo branco

de caras pálidas

de almas lavadas com perfume de cidade

que não sabem nada

que não sabem nada

da natureza das coisas

as sereias

a falência das formas influencia o conteúdo não há acessório tudo é norma culta maneira de pensamento se estargo o molho do macarrão estraguei o pão e não serei perdoado as sereias estão cantando desafinado e por isso me desencantaram

Bardo

Bardo
mago
ardo
asso
aço
ardo
macho
falo
ardo ardo ardo

quarta-feira, 18 de abril de 2012

magistério

o voo de pés de passarinho que pintam uma arara uma casa uma história
carinho de memória
pássaro salvador
de talento e dor
toque de flor
num jardim de encanto e mistério
dum magistério de vida

cusparadas

um monte de bocas aguadas
plantas de uma natureza morta
mudo?
que nada
continuo falando
na esperança tanta
de que as plantas
sejam molhadas e cresçam
à cusparadas

a (p)rosa

a prosa é para sempre
a rosa é para alguns
a poesia para o ausente
sentimento latente
inerente
que prende o poeta à sua dignidade

distraído

bocas abertas
palavras sinceras?
o silêncio magoado serve melhor aos meus olhos distraídos
de homem sentindo...

prevenidos

como um rio
a vida segue
nutrindo margens
quando no seu cruso normal
destruindo passagens
quando cheio em estado excepcional
mas segue
seguindo
sorrindo para os que prevenidos aprenderam a nadar

abelhas

demente
semente do silêncio
me proteja já
do alento
da burrice
propagada pelas abelhas da aceitação

demente

a demência
estado mental de insuficiência
traz o silêncio...
consciência de um homem debilitado?
ciência de estado corporal de um animal?

choques

na terra dos homens que buscam medalhas
a palavra era de ouro
o silêncio era o que devia existir
todo ar
desperdiçado
provocava choques
e ninguém queria viver de choques

toda vez que se abria a boca tinha que se obter uma resposta
quem controlava o processo?
(e se a outra pessoa mentisse sobre o silêncio?)
não pergunte para mim ainda estou espantado com o fato de não ter me dado conta dessa realidade

adormecido?
esquecido?
inibido?
talvez
tantas são as possibilidades
que preciso pensar antes de falar

(talvez responda num próximo poema)...

domingo, 15 de abril de 2012

santa

um amigo chama de oração
pode ser mas um poema
é mais uma lembrança
de um fato
de um ato
de um som
uma imagem que não tem nada de santa
também pode sensibilizar o poeta
que apenas senta e junta as mãos para contar
a emoção

S.U.C.E.S.S.O.

S

Urdo para as

Calamidades ouvidas

E

Sucessivas, como se as pessoas

Soubessem, escutassem,

O que dizem...

Baependi

A Regina Mendonça

algo que não sei o nome
existe
é como um calor de paredão
no verão
como um pingo de ar condicionado
que do susto produz um sorriso
como um gelado de tangerina em Baependi
como um suco de rimas de Drummond
como uma uva pisada numa vinícola do sul
como um tango argentino na Argentina
como uma menina afilhada soltando pipa em Paris

muitas vezes não é de fato

sendo apenas uma sensação
que nos leva adiante

outras sendo
um começo de intenção

Faustão

um tagarela erra quando acredita que o esforço de se mostrar mudará a crença dos outros de quem ele é

as pessoas não querem ter opinião e preferem acreditar no Faustão

sábado, 14 de abril de 2012

náufrago

...essa canoa foi construída com pedaços de sonhos que tive de inventar espero que passe pela arrebentação e possa me levar para a civilização das palavras

lodo

até onde iremos com nosso segredo
sentimos medo
do quando
e por não sabermos como
insistimos em paralisar
nossos passos
afundam no lodo de nossa certeza
essa a dificuldade em lidar com a nossa natureza

mina

a natureza provoca medo por ser o destino cristalino

redondezas

Ali onde até há pouco era o sol
maneira que encontrei de dizer querer continuar
inventar errar
para outra vez
reinventar
colocar palavras na boca de olhos sem esperança
que são meus seus teus
não importa
de quem são
importa que sãos
somos todos aqueles que escolhemos deixar de fingir
para começar a tentar

micos

a natureza é a única prova que viemos com um plano definido os micos nas árvores de uma cidade devastada provam o que digo

austero

um poema
não é um soco na cara
como a piada
é mais reflexivo
soco no estômago
do inflexível

sóror

combustível da cor
dor?
combustível do amor
dor?
combustível da sóror
dor?

pensamentos

quando quero comer
primeiro penso em algo suculento
quando quero dançar
primeiro penso em algo que possa batucar
quando quero escrever
primeiro penso em algo que gostaria de ler

a idade

quando esse ser humano
passou a se emocionar?
quando sentiu a sombra do próprio olhar?
será que ele chegará a chorar de amor?

a idade é amiga da racionalidade
e por isso podemos descobrir quem somos

SET LIST do show do dia 04/05/2012

MARCO PLÁCIDO BRASILEIRO



(Introdução)

1 – Desafios;

2 – Encantadas;

3 – O Alvo;

4 – Quase Sem Querer;

5 – Minas;

6 – Pedra;

7 – Don’t Stop Dancing;

8 – Constelação;

9 -- Contra;

10 – Complexa Vazão;

11 – Sweet Sina;

12 -- Brigas;

13 – Crazy;

14– Jaques Som;


INTERVALO


15 – Little Wing (nova);

16 – Sim;

17 -- À Cecília;

18 – Cegos;

19 – Versos;

20 -- Inútil;

21 – Truques;

22 – Perdão (nova);

23 – Dias de Luta;

24 – Papai me empresta o carro;

25 -- A Saudade/ Blues do Medo.


Bis: Andarilho e mais duas à pedido.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Ao amigo Paulo

Cara Renata,
A verdade é que você casou com uma menina de 1,85 metro, uma flor de pessoa...

Paulo, não não sei qual é sua crença, mas acredito que você, como eu, creia na natureza e na amizade. A poesia é apenas um modo de dizer a verdade. Continue sendo esse cara cuidadoso com os amigos, continue tinindo na vida, continue a arte de ter sorrisos, continue sempre sendo assim, do seu jeito, único, porque continuar é nosso destino. Lembre sempre do cheiro das pessoas que te fazem menino e fale pelos cotovelos amá-las, porque elas, como já conversamos, sentem falta de seu amor de filho, neto, pai, o que seja... Amigo flor, felicidades sempre! Marco e Angélica Plácido.

FLAMENGO

Os veteranos ainda dão conta do recado...Os novatos são bons mais ainda não sabem a dor de perder um campeonato! Correm mais? Correm! Mais sabem para qual lado? Há a hora de segurar a partida, de atacar, de defender e também de torcer. Não podemos deixar de observar a cartolagem, muitos jogos são ganhos no tapetão. Os juízes sabem quem podem prejudicar...Devemos ser um time, com defesa meio-campo e ataque. Um bando nunca irá conseguir impor o próprio ritmo, nunca conseguirá ser respeitado. Pensem nisso, caros boleiros, pensem bastante e certamente estarão do meu lado. FLAMENGO!

colibri

A Jorge Falcão

amigo
um poema é um abrigo
pena de passarinho
lembrança do ninho
que nos permite sorrir
siga sentindo a intensidade da vida
serena que será sempre sua
sólida
no silêncio do seu talento
de olhos verdes

o calor e a flor

o carvão é o labor
o calor sendo produzido
lindo

a flor
é a emoção da descoberta
de que
todas as pétalas são cobertas
de um cobertor de sustos
pintados pela vida

quinta-feira, 12 de abril de 2012

arbusto

esse silêncio aqui de dentro está germinando uma flor de ideia um jardim de azáleas que poderá suprir um aroma de esperança?

fleur

cada pétala de flor
desse jardim
que escrevi para mim
é um pedaço de amor

...e irá adubar um pedaço de terra sem esperança

desmoralização

por que preciso de uma opinião que não é sincera?
devo apenas escutar a melodia da solidão que me faz escrever sem parar
e sarar cada pedaço de ferida surgida da desconsideração que não entendia que era para mim

é mais fácil desmoralizar uma pretensão do que estender a mão

oração

uma palavra
às vezes define o nada
às vezes é preferível olhar intensamente
a solidão do outro
e sonhar em revelá-la
numa canção
como se fossem mãos dadas
como se fosse uma última oração sagrada

esquinas

palavras não ditas
são minas
esquinas de ventos
onde cestos de maçãs são vendidos
e os quilos
são ouro para os meninos
que brincam de entender
o silêncio
de pés sem rotina

Do livro POETAS QUE INTERESSAM MAIS

Muitos dos poemas desse livro (Lira de Líquen, de Nuno Júdice) são narrativas sobre as deambulações de sujeitos que se entregam a experiências de dissolução, loucura, e ao poder do imaginário. São histórias de excessos e desmedidas, de seres que enfrentam o silêncio, o vazio e a morte. Quero dizer que os sujeitos que transitam pelos poemas redescrevem o mundo como se sonhassem e de forma impressionista falam de sensações múltiplas e simultâneas, numa perspectiva interseccionista, optando pela fragmentação e pela impossibilidade da unidade, seja do sujeito, da paisagem, do poema ou da realidade. O chamado da poesia é um desafio frente ao concreto do mundo, uma luta no interior do ser, exigindo do poeta o despojamento de sua vida comum para se lançar numa travessia, qual Orfeu, em busca de outra margem, lugar do não nomeável. Nesse sentido, a poesia é um lago de Narciso, "segredo que oculto em mim persigo" (JÚDICE) , motivando esse desejo de conhecimento de si e da outra vida que na poesia existe e perdura. Também a multiplicidade de personagens que dizem eu no texto, encenando seus dramas nos cenários do poema, indica-nos a questão pessoana da alteridade. Há entre o escritor e o poeta a afirmação da ficção com diferentes personas, não apenas cifradas, mas também vindas de obras alheias, constituindo-se o jogo intertextual.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

guizos

...sorrisos
guizos de um homem que acredita na poesia
apesar de tudo que sabe
a arte é a consciência extrema de nossa possibilidade
como ser humano
típico
símio
no egoísmo barato
na preguiça enfática
que esfrangalha qualquer ilusão

fotossíntese

papai eu quero entender sobre a natureza se fazemos parte também de um plano maior do que comprar brinquedo e estudar quando começamos a plantar uma ilusão de medalhas quando beijaremos o escudo protetor do amor você consegue me explicar por quê precisamos chorar sozinhos enquanto lembramos das vozes emitindo som luz de desconsideração onde estão as razões do sol continuar nascendo se ainda estamos sofrendo e ao crescermos saberemos sonhar estaremos prontos para andar ou precisaremos nos apoiar no talento alheio veremos o sol nascer com olhos de sorrisos e os gritos serão nossos ou para nós outros dos gostos de estarmos felizes seremos eternos ou aprendizes da fotossíntese

moedas

onde está o sol
que me iluminava?
fugiu?
caiu?
para onde?
quando outra vez estarei dourado?
terei que comprar pílulas
para me iludir?
parir?
sair de mim?
onde estão as moedas amarelas
fingindo ouro
que me dão a tênue sensação de
pouca solidão?
onde estou?
onde estão?

carecas

desistências
geram carências
ou
vice-versa?
com frequência faço versos carecas
certo da inocência necessária
pilar do ato de escrever
pergunto para não responder?

muito mesmo

inventei de fazer poemas de um modo que não sei fazer poemas despistei-me para não deitar-me em berço esplêndido e ficar repetindo fórmulas normas regras gramaticais acabam só reduzindo meu assunto aqui tento escrever como falo e olha que falo muito muito mesmo

ali onde até há pouco era o sol

quando pensei em fazer um livro chamado ali onde até há pouco era o sol não sabia onde tinha me metido imaginei uma quebra de rotina e inventei uma solução poemas que são feitos como se fossem todos para um único livro mas que na verdade são realizados como se fossem únicos e depois vou tentar emendar transformar inventar um mote um cobre uma pista para ter uma possibilidade mais do que uma verdade

sói

A Andrea Rosane

Rosa portuguesa
certeza tesa
frequência de amor
força de motor de locomotiva
movida ao doce aroma do amor
prosódia florida
cromada em dor
sólida como as montanhas que adornam Niterói
Araribóia nu que dói
em retinas cansadas da saudade que sói

cena

a facilidade de água
não gera casca
gera terra amolecida
sem condição de nutrir
uma semente-letra
que poderia tornar-se
uma árvore-poema

sucesso

a semente rompe a terra
o sol que a ajuda se for demasiado atrapalha
a sombra precisa ser precisa
senão a dor se espalha
e a árvore não vinga
e...

quero vingar

terça-feira, 10 de abril de 2012

plantação

...revolver a terra
afastando
antes o sal
das mãos sem ilusão

devo acreditar
no ar
repleto de novidades
que irá
me ajudar
a plantar
sensibilidade

crua

numa noite sem luz
nada reluz
não há poesia
na impossibilidade
escura e crua
da realidade

carvão

produto do dia a dia sem ilusão
carvão
trabalhar com arte
desenhando no chão ilusão
jardim
florido
de rimas
sortidas
das cores possíveis da vida

domingo, 8 de abril de 2012

conozco

humanidade reconhecível
reflexo do invisível
que trazemos conosco
amor exposto em palavras
dores em lágrimas
cores das partidas
enlaçadas
em nós
outros
tolos

(poesia)

SET LIST do show do dia 13/04/12

Abertura: poema JAZZ AND BLUES, com Hélder Teixeira.


(Introdução)

1 – Desafios;

2 – Encantadas;

3 – O Alvo;

4 – Quase Sem Querer (Legião Urbana);

5 – Minas;

6-- Pedra;

7 – Don’t Stop Dancing (Creed);

8 – Constelação;

9 -- Contra;

10 – Complexa Vazão;

11 – Sweet Sina (nova);

12 -- Brigas;

13 – Crazy (nova, Seal);

14– Jaques Som;

(intervalo)


15 – Little Wing (nova, Jimmy Hendrix);

16 -- Andarilho;

17 – Sim;

18 -- À Cecília;

19 – Cegos;

20 – Versos;

21 -- Inútil (Ultraje a Rigor);

22 – Truques;

23 -- Perdão (nova);

24 – Dias de Luta (IRA!);

25 – Papai me empresta o carro (Rita Lee);

26 -- A Saudade/ Blues do Medo.

tolo

ilusão
o esforço do disfarce
segurar a vontade
critico o destaque
e fico fingindo
indo de lá para cá
aplaudindo sem gostar
ao invés de me colocar
chamo de louco
o outro
corajoso

ilusionistas

as plantas nascem pelo calor ou pelo amor?
a terra necessita de choro?
quantos estranhos sentimentos toscos salvam uma pá?
onde acabará nossa rotina de jardineiros ilusionistas?

Diamantes

somos humanos
e sendo
sofremos
as agruras do incerto tempo
do quando que virá
somos estranhos bípedes
num mundo de quadrúpedes
muques munidos de armas nucleares
bestas milenares em desagregados lares
avantajados por detalhes sem importância
nos afastam da verdadeira dança que deveríamos dançar
quilates de amar
deveria ser nosso destino sem pensar

lamento

tantos são os momentos desperdiçados em lamentos modorrentos tantos somos que não sabemos nos colocar poderíamos nos unir mas preferimos nos misturar e aguar sentimentos tolos contra algo ou alguém que nem conhecemos pouca sombra de inteligência quando poderíamos cantar o amor de estarmos vivos

o cisne (The Swan)

o cisne cisma em grasnar
quando me vê faz música
dança de lá para cá
soltando penas
das asas
criatividade
pescoça o ar
com graça
e grasna
quando podia
apenas cantar

sonrisa

Um poeta
rima
um pintor
pinta
um palhaço
sorri
por estar lotado de gargalhadas
ouvidas

JOHN LENNON, poeta

Imagine
Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today
Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace
You may say
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world
You may say,
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will live as one

os meninos

os meninos estão crescendo e eu vendo isso fico aqui escrevendo chorando pelos dedos inteiro na mania de me alisar querendo entender onde não há o que entender é só a passagem do tempo nos obrigando a viver

Livro Ali onde até há pouco era o sol

Meio enjoado dos poemas que estava fazendo, tentei criar um nome de livro que me permitisse sair do lugar-comum, então pensei em poemas que fossem sequências e que terminassem de repente, como pedaços de prosa que estavam separados e eu, assumidamente, iria tratá-los como pedaços de prosa. Assim, acabou nascendo o livro "Ali onde até há pouco era o sol", que eu nem sei se sobreviverá...

cracas

estou da altura da copa das árvores
do meu apartamento
vejo pequenas borboletas
amarelas brilhantes pelo sol
os edifícios são grandes áreas de sombras
toldos tombam nas calçadas gastas por pés cansados que passam a caminho da praia
longe e escassa mata ainda sobrevive para contar história de passadas passados heróicos nos barcos que agora são casas de cracas

incerto

...como não sofro?!
sofro pelo passado que passou
pelo presente que me deixou
pelo futuro que vejo escuro por que sem alguéns
talvez sem mim também

sofro porque
o certo é o incerto
não há nada reto
é como navegar sem estrelas
é como afirmar sem certezas

as flores de dentro

uma flor murcha
em palavras caçadas da memória
necessário continuar a busca e é essa a dor do resgate
uma flor se abre
em palavras cantadas que expressam a dor de conhecê-las
necessário continuar soando e é esse o cansaço do processo

(tanto murcho
quando me abro
mas
é necessário...)

Alea jacta est

existe sorte?
dom é uma facilidade para a execução de algo
trabalho e persitência completam o quadro
como Picasso dizia:
sou sortudo porque
toda vez que a sorte me procura
estou trabalhando

discurso

colha do dia as margaridas
pegue as sementes e espalhe bondade
a germinação é uma luta por igualdade
que redunda por inteiro
na carência de preconceitos
e quando o jardim estiver florido
você tem um discurso infinito

um senhor

um pássaro passa voando
passado
esperando a hora de bicar
um menino
empurrando um carrinho
um presente
querendo despertar
um senhor
um futuro
fruto
que irá me ajudar
nos momentos difíceis
em que precisarei
do calor de recordações

pássaro

sempre o sol vem me despertar sempre me chateia perguntando quando irei acordar para a realidade da vida de sexo, regras e roque errou e sempre tenho de explicar que a realidade é contra a rotina de rimas

sábado, 7 de abril de 2012

página

Foz das palavras exatas
ritmo
sabor
e lágrimas
produzidas pelo calor de saber-se solidão
encaixe de ilusão
misto derretido de paixão
pela vida
que se encerra sem lição...

(muitas vezes uma árvore não dá uma página)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Estela, amarela

da costela de Adão saiu Estela
magrela e bela
amarela
e séria
cheia de opinião
serelepe
coquete
charrete
de insatisfação
para ela
o tempo era lento para tanta paixão
não queria ler
só queria brincar de amar
desconhecendo a palavra
compaixão

bigorna

Parei!
meus pés não aguentam mais correr
agora
o que tiver de acontecer
acontecerá ao seu tempo
e se não acontecer
sentarei e contarei as histórias que as tentativas me proporcionaram

e por que forjaram um homem melhor

intriga

choro palavras
as lágrimas secaram
estão presas num rosto amargo
com o tamanho da tarefa
desde de que me dei conta do tamanho da pedra
as perdas
me explicaram a vida
mais do que qualquer
intriga
de vila

margarido

você me ouviu e descobriu quem sou
eu te ouvi
e te descobri para mim
um voo de pássaro
um cheiro de jasmim
(só para mim
só para a rima
só para reinventar o amor...
reinventar a dor da margarida)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

DORMENTES!

VI Cada coisa...TudO foRa do lugar, CUstei a acreditar, Ninguem...aH, ninguém sAbe como parar de desejar o mal, ninguém quer carregar a CRUZ de mudar, de trabalhar seus defeitos, mais fácil Parar e pLAnejar CIsmar com os DefeitOs do vizinho lindos porque nos melhoram siginificativamente, DORMENTES!

guloso

VI No IníCIo Uma oStentação de sinal, que me marcou, uma CUNHA que registrou uma cicatriz, uma marca, uma CRUZ, que indicou meu caminho, uma árvore de menino, que com seu jeito PLÁCIDO me ensinou a amar o silêncio de olhos gulosos

áspero

aqueles olhos de outrora
estão desgastados
pela arranhada dura que a vida sempre dá
perdemos quase tudo:
os melhores amigos da infância
os pais
alguns, os filhos
e é isso que nos dá a dimensão da aspereza da vida
como não nos perdermos de nós?
como conseguir seguir sem mudar quem somos?
como depois de tudo continuar fechando os olhos com sonhos?

coração de amor

as estações também mudam
as plantas gritam por socorro...
não paramos para ouvir nem nossos anseios
quanto mais o outro medo
desejos são defeitos
amores são falhas
cartas fora
de um baralho de piadas
a importância esta em nós
que demonstram a idade das árvores
que gritam e não são ouvidas
que acabam retirando a sombra de nossas feridas
e
portanto
não temos mais
aonde gravar
um coração de amor

canoas

Lápide
saque-me daqui
rapte-me
desse mundo camaleoa
onde pessoas fingem
estar à toa
e ficam
mudando de cor
invejando meu pulsar
interestelar-pavoa
que soa
ressoa
atordoa
que transforma navios
em canoas
pelo tamanho da maré que tenho em mim

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Texto (poema) de apresentação do show de 13/04/12.

JAZZ AND BLUES

Sexo, drogas e rock and roll
Era o lema dos doidões de ocasião
Jazz and blues, lema dos eternos loucos
Dispostos a tudo por amor
Se blues é saudade
Jazz é ansiedade
Já dizia o poeta
Loucos não têm idade
Para aprontar das suas
Assumem a própria fúria
De manifestar suas vontades
Dar cabo dos acepipes
Do banquete que é a vida
Ciúmes são tirados de letra
Qual tabela entre craques
Zico, Riva e Sócrates
Invadindo a área alheia
Para desespero dos zagueiros
Grandalhões
Sem ginga
Sem paixão
Pelo grande esporte bretão
Em que lugar em
Que se plantando tudo dá
Consegue-se formar
Guinga, Baleiro, Buarque
Veloso, Gil e Jobim?
Criadores de grandes melodias
Em harmonias jamais copiadas
Dominguinhos é uma parada
tocando o tal do jazz
Botou no chinelo os gringos
com graça
Sem esforço e compaixão
Quem mandou aprender com o rei do baião?
Grande país em que se
Plantando lirismo tudo dá!

terça-feira, 3 de abril de 2012

a barba

a barba que aumenta meu queixo é um pedaço de cabelo cheio de vida nos seus fios negros alguns poucos reforçam o tempo em que estou tentando entender a vida

néctar

ervas nas mãos dos poetas
as letras
são partes de uma poção mágica
em que as palavras são o néctar
que transforma duendes em príncipes
que tingem a vida de possibilidades

boca e pés

os pintores que pintam com boca ou pés nos ensinam que os pintores não pintam registram o que sentem extremamente

choro seco

uma planta necessitando de água chora seco avisa o quase momento no marrom da figura sem honra que desmancha

os palhaços

onde estão os criadores de animação?
aqueles que entendem de sofrer e por isso gastam tempo nos fazendo sorrir?

vento sereno

às vezes apenas escrevo palavras que são sopros divinos de um vento sereno que sempre me vem no silêncio do medo

flautas

não se exceda em movimentos extremos
somos de papéis de sentimentos
suamos fedemos serenos
nossas falhas
são música de flautas
tocadas pelo medo de sermos
farsas
máculas de um criador invejoso da nossa capacidade de amar
fisicamente

segunda-feira, 2 de abril de 2012

omar

omar


amo amar
amo amar o mar
amo amar o mar e olhar o mar
amo amar o mar e olhar o mar no seu olhar
amo amar o mar e olhar o mar no seu olhar de amar
amo amar o mar e olhar o mar no seu olhar de amar omar

ser ou não ser

ser ou ter?

ter ou comer?

comer ou ver?

ver ou crer?

domingo, 1 de abril de 2012

Cézanne (por e para o Senhor Stock)

Crítica do Senhor Stock sobre os quadros recusados do pintor pelo Salon de 1870: "Coubert, Manet, Monet e vocês todos que, para pintar, utilizam a espátula, a escova, a vassoura e outros utensílios, estão ultrapassados! Eu tenho a honra de vos apresentar o vosso mestre, o Senhor Cézanne. Cézanne? Quem? O quê? Que é isto??? Cézanne é de Aix-en-Provence. Trata-se de um pintor realista e, sobretudo...de um pintor que convence. Ouçam só o que ele me disse com uma pronúncia muito carregada do Sul:" Sim, meu caro Senhor Stock, eu pinto o que vejo e o que sinto. As minhas sensações são muito fortes. Os outros, Coubert, Manet, Monet, etc...sentem e vêem como eu, mas não têm coragem. Eles pintam quadros para o Salon, eu não, eu sou atrevido. Tenho a coragem das minhas convicções e o último a rir é quem ri melhor!"

a poema

chamado
o poema
por ser filho da poesia
passarei a chamar a poema
quando for filha
dileta alegria de misturar
dores e flores na proporção exata
que exale
perfume
da vontade de sonhar

Possíveis músicas (5), CAMÕES E EU

CAMÕES E EU

Olhando vossa inclinação divina

Tão decantada e prezada

Raramente presente
Na boca dos pequenos
Das artes bélicas

Que viram em largos anos, largos meses
Os portugueses e ingleses

Sonhando
Imaginando
Tua presença de musa

Medusa
Com sangue fervente

Vinda de um império preeminente

Ando com passo diligente

Com toda ambição


Para te encontrar

Levando minha frota
A navegar

Na parte mais remota do
Teu mar!

MEDUSA

Medusa
Com sangue fervente

Vinda de um império preeminente

Ando com passo diligente

Com toda ambição
Olhando vossa inclinação divina

Tão decantada e prezada

Possíveis músicas (4), CHORO DA MENINA

CHORO DA MENINA

Morna maré
Mar aberto
Brinquedo boiando
Lembra criança chorando
Criança chorando

Amores adiados
Desejos
Adormecidos
Pais
Paz

Avó Menina Mulher
Boiando aberta
Brinquedo morno
Me lembra maré
Me lembra maré

Criança adormecida chorando
Mar de desejos adiados
Desejos boiando
chorando
Amores mornos adormecidos
Adormecidos

Clamando
Esperando
o choro da menina
Que só expiará a culpa que não tem
Quando se afogar em lágrimas
Quando se afogar em lágrimas

Ajoelhada e
Gritar aos céus
Amar
Desejos
Adormecidos

Avó Menina Mulher
Menina mulher
Menina mulher X 2

Possíveis músicas (3), FOLHA SECA

FOLHA SECA

E da luz
fez-se letra
Nascida
desmascarada
certeza

E da palavra
Fez-se
seca recordação X2

E do choro
fez-se som X2

Triste e simples
Devaneio
Freixo (fresco) X2

REFRÂO

Da folha seca
Fez-se música
Minha emoção X2

Perturbada
Por sua chegada
Macia

Extasiante
Distante senso de despedida... X2

Possíveis músicas (2), ASSOBIO

ASSOBIO

A noite azul assobiando X2

Seu nome para mim é um pranto X2


A noite sozinha me namorando X2

Seu nome para mim é um manto X2


Em qualquer lugar
Sua voz é um assobio

Me chamando X2



(Convenção com assobio)


A noite azul me namorando X2

Seu nome para mim é um encanto X2


Em qualquer lugar
Sua voz é um assobio

Me chamando X2


A noite sozinha assobiando X2

Seu nome para mim é um canto X2


Em qualquer lugar
Sua voz é um assobio

Me chamando X2



(Final com assobio)

Possíveis músicas (1), A VOZ

A voz

Agora te entendo
agora também já tenho segredos
ouço a voz do vento
(sua voz fina)
buscando meus pensamentos...

(agora já sei por que escrevo)
agora já consigo chorar
escrever aquelas palavras
tão duras
de vidas
desgastadas
que para os outros são cascas
e para nós outros
são
Minas...

Guernica

A Pablo

da arcada dentária de um touro
a dor ecoa
um bebê vê a fumaça da montanha e não sabe que a vida é estranha
feita de entranhas e punhais
e sexo entre animais
a esperança vê à direita uma lâmpada será nossa santa ignorância?
guernica retrato de nossa humanidade

perdida (?)

passadas

o fruto sobrevive à semente
que é ele
modificado
pela experiência
de água e sol, presentes
e
raízes
sugando
passadas,
nutrientes
para aguentar o vento da vida real

duas mãos

...alguns poemas marcam mais por serem despedidas
outros falam da aflita mania de fingir que não sabemos
(cansa fingir que não morreremos)
outros ainda são detalhes da vida sendo vivida
e portanto
se são detalhes importantes
não são detalhes
e por aí vai e vem também
porque tudo na vida é uma via de mão dupla...
e se tenho mãos
escrevo

Sal e Idade: SAUDADE

Sal e idade: Saudade...e quem é que não sabe disso?! Sinto falta de tudo da minha infância feliz: do arroz com alho da vò Arlete, dos banhos de banheira no apartamento da Usina, das cosquinhas de intrumentos nas costelas, da vó Arlete... Do meu irmão e da minha mãe então (ambos viraram livros, para poder lê-los como foram sem o perigo do esquecimento senil). Sentimos falta de tudo, pela consciência plena do fim e se acabará teve de ser bom o início, não é mesmo? O fim também não traçamos e ai nos vemos numa encruzilhada: o que fazer para o meio valer a pena? Corro, ando, falo, me escondo? Como não sabemos gostaríamos de ter uma opinião que nos ajudasse, mas isso é difícil numa vida corrida com competitividade...fulano comprou isso, sicrano viajou para Paris...e eu o que vou fazer? Escrever, comer, foder, vou ter futuro comprido que me permita buscar os netos na escola, andar de terno bonito? ou preciso ficar ferido de amor? Sei lá, e por não saber, o poeta senta e escreve para inventar um modo de conversar sobre como será o quando e aplacar a única certeza que trazemos como bagagem a esse mundo de deus, nosso senhor, dizem...

pantera

a nove anos atrás
uma bolinha de amor
com olhos azuis nasceu
(e se não fossem azuis quantos poemas ficariam no ar)
temperamento de menina portuguesa
(já nasceu adaptada á vida real)
linda
Beatriz
é e sempre será
nossa princesa
comanda os primos
com punhos de quem sabe que a vida é uma batalha
doce bailarina
com grandes dotes
adora rosa e sair de rosa então...
passeia com a dinda
de mãos dadas para o futuro
que no seu caso será
o mundo

ditador

...o susto de acordar vivo
é esse sentimento compartilhado em cada manifestação
poética
estética
um poema é uma declaração de princípios
político
porque humanista
de espantosa religiosidade sem ser religioso
um osso na goela
de muito marmanjo metido a ditador

bela arte

...é uma questão de ir preenchendo os espaços em branco ir desenhando significados
escrever o ato falho
o tropeção
não esconder a angústia de todos nós sobre como irá ocorrer o quando
e ter a coragem de olhar adiante
procurando
uma compaixão
que nos emocione
que nos transforme em instrumentos da bela arte de viver