sexta-feira, 3 de abril de 2015

Rolando Sanches Mejías: Holguin, 1959. Reconhecido como um dos melhores poetas e narradores da língua espanhola, vive exilado desde 1997 em Barcelona.

ABSTRATO


Na habitação há um quadro de dois metros de comprimento. Não está bem pintado. Talvez tenha sido feito à pressa (alguém tinhá de partir, ou chegar, ou o pintor era simplesmente medíocre). Não sei como se chama esse verde, abstracto que com um pouco de branco (também abstracto) que vem da janela (do quadro) faz da pintura uma possível “reflexão sobre o verde”. Ou o branco.
Pode-se refletir sobre o branco? Estou sentado do lado de cá, pensando, não inteiramente no quadro, porque tenho uma parte da cabeça posta no quadro e outra (outras) num lugar ou em vários ao mesmo tempo. Num dos lugares espera-me uma mulher.
Olha-me com a sua pobreza de verde-ouro nos olhos (a pele pálida, a da minha esposa, como a tua pele). Diz-me: “Porque não regressas? Eu ensino-te o caminho.”
Tantos anos e não encontrei o caminho! Verde abstracto e barnco abstracto, o pintor deixou escorrer um pouco a tinta, ou raspou, raspou depois para que os móveis – uma máquina de lavar roupa, uma estante para utensílios de cozinha, um bocadinho da substância que escorria, como leite – abstracta – da janela.

Eu continuo a pensar, mas agora os meus olhos estão postos noutra coisa.

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