sábado, 10 de março de 2012

Rainer Maria Rilke, sábias palavras

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Lembre-se de pessoas que você encontrou juntas, sem que tivessem ao redor de si uma hora compartilhada. Por exemplo, parentes que se encontram em torno do leito de morte de uma pessoa realmente amada. Aí uma pessoa vive nesta lembrança, e a outra, naquela lembrança profunda. Suas palavras passam umas pelas outras, sem que saibam uma da outra. Suas mãso se desencontram no primeiro embaraço -- até que a dor por trás delas se amplie. Sentam-se, abaixam a cabeça e silenciam. Sobre elas, um rumor como na floresta. E estão próximas umas das outras, como nunca antes.

Do contrário, se uma dor forte não calar de pronto as pessoas, uma escuta mais da poderosa melodia do fundo a outra menos. Muitas nem sequer escutam mais. São como árvores que esqueceram suas raízes e então acham que o rumorejar de seus galhos é sua força e sua vida. Algumas pessoas não têm tempo de ouvi-las. Não toleram nenhuma hora ao seu redor. São pobres apátridas que perderam o sentido da existência. Batem as teclas dos dias e tocam sempre o mesmo tom monótono e perdido.

Se quisermos, portanto, nos iniciar nos segredos da vida, é preciso pensar em dois aspectos:
Um deles, a grande melodia, da qual participam coisas e aromas, sentimentos e passados, crepúsculos e desejos; e então: as vozes de cada um, que completam e aperfeiçoam todo esse coro.
E para fundar uma obra de arte ( ou seja: uma imagem da vida mais profunda da vivência, mais do que de hoje, sempre possível em todos os tempos) será necessário relacionar corretamente e equilibrar as duas vozes: uma, a daquela hora em questão, e a outra, de um grupo de pessoas dentro dela.
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