sábado, 20 de setembro de 2014

Bandeira sobre Bruno Giorgi

   Tanto se pode dizer que o paulista de Mococa, Bruno Giorgi, é um autêntico toscano, como que o toscano Bruno Giorgi é um autêntico brasileiro de Mococa. Na verdade, ele funde, admiravelmente, na sua arte e na sua sensibilidade, o refinamento espiritual de Florença, seu equilíbrio estético e humano, e todo o acesso de luz, forma, cor e ritmo da natureza e do homem brasileiro.

   Se por um lado, ele é toscano pelo sangue, pelo nobre porte de sua pessoa e, sobretudo, pelo espírito; por outro lado, ele é brasileiro pois na sua arte reflete uma alma brasileira, que não deseja ficar contida nos limites das formas escultóricas. Não, ela rompe os diques e se estampa naqueles corpos nus, naquelas faces mestiças, mesmo, naquela procura de um tipo físico e humano, caracteristicamente brasileiro.

   Estou mesmo inclinado a acreditar que isso só foi e está sendo possível, porque séculos de cultura florentina repousam sobre sua formação artística, por isso, sua sensibilidade, insuflada pela extraordinária riqueza do conteúdo humano barsileiro, pode abrir-se à compreensão e à identificação da nossa melhor tradição.

   Nesse sentido, Bruno Giorgi, artisticamente, é um escultor brasileiro. Suas soluções plásticas, seus temas, sua acentuada exuberância de formas, quase formas tropicais naqueles nus adolescentes, naquelas jovens que dão testemunhos dos flagrantes da generosidade da nossa riqueza humana, nas suas preocupações estéticas, se processaram num ritmo de afirmação inteiramente brasileiro. O seu racionalismo florentino incentivado pela forte luz e pelo calor sensual da nossa paisagem brasileira.

   Sua obra, possui uma unidade sólida, ele é essencialmente um artista fiel a si mesmo, ou antes, como dele disse, com extraordinária propriedade, o nosso grande Mário de Andrade: "Bruno Giorgi não é mais senão a teoria escultórica em si mesmo". E explicava que não há fantasmas refletindo-se nas suas obras. Nem antigos, nem o Renascimento, nem os Modernos, nem Despiau, nem Maiollol. Assim Bruno Giorgi é Bruno Giorgi. Tinha razão Mário de Andrade, pois Bruno Giorgi é um escultor que incessantemente se reproduz nas suas obras, atingindo com elas uma unidade admirável. E isso só pode acontecer porque Bruno Giorgi enriqueceu seu espírito toscano com o contato da alma brasileira. Essa, a unidade sólida, que transforma toda a sua obra, num bloco único de escultura.

   Assim, apesar da diversidade de materiais, de temas, de processos e de tratamentos, todas as suas obras estão unificadas por um toque, uma maneira artística de ser toda especial, bem Bruno Giorgi -- um artista que infiltra o plástico de uma violenta contaminação da vida. Suas formas são animadas por um sopro criador que faz brotar flores -- as árvores da vida -- na dura argila. A sua alma de artista serve-se da seiva da vida e dela se forma, por uma dessas extraordinárias metamorfoses artísticas, um palpitante instrumento. A um gesto seu, mesmo os materiais mais estéreis germinam a vida, a beleza, a arte. Sobretudo, a vida, abeleza e a arte.

   Esse caráter perfeitamente vital, essa como que intromissão da vida, do que no plástico atinge e conquista sua maior grandeza, essa humanização -- tão profundamente brasileira -- que transparece na arte de Bruno Giorgi, parece-se um traço mais característico de sua obra. Daí sua preocupação de fazer esculturas que encontram o seu segredo, mais do que na sua expressão plástica -- que ele não esquece, nem abandona nunca -- no eixo do mundo, força cega da natureza. Por isso, a escultura é para ele, por excelência, uma arte viva, ou melhor, uma arte capaz de se tornar viva e palpitante porque repousa sobre o próprio equilíbrio do mundo.

  

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