sexta-feira, 3 de abril de 2015

Reina Maria Rodríguez: Havana, 1952. Licenciada em Literatura Hispano-Americana, obteve com Para un cordero blanco, em 1983, o prestigioso Prêmio Casa das Américas.

LE COUPLE (1931)

um escultor francês de origem russa
esculpiu o teu rosto no gesso
(escolheu este instante e não outro; escolheu este quadro,
ou nenhum) o triângulo do queixo, o gesto
que se inclina para oferecer a boca
o álcool armazenado nas veias do pescoço
azuis brancas ácidas
o desejo, o ângulo da clavícula aloja
uma fortificação (uma ponte) ao beijo.
em frente, à esquerda da sombra do meu rosto, vaga
-- o fundo é sempre negro –
o relevo da tua beleza, a ocacidade dos meus olhos
(eu observava as sombras, sem demora descobri que essas
            Sombras
Possuíam luz, ou um certo resplendor que feria se não
            Inclinava
As pálpebras para te ver)
Ficamos eternamente ali, na companhia de Ossip  Zadkin
Um escultor francês de origem russa

Que não nos conheceu.

Reinaldo Arenas: poema VOZES

VOZES

            Nós viemos pelo ar
Nós viemos pelo mar
Nós chegamos amarrados ao pneu de um automóvel
Nós chegamos presos à roda de um avião
Nós saímos conjurando tubarões e guarda-costas
Nós saímos tradeando um túnel no ar
Nós saímos agarrados à cauda de um cometa
Nós chegamos a nado, vomitando bílis,
soltando os bofes,
os ossos ao sol, desidratados,
descarnado o coração.
            Sim, sem dúvida somos os mais ditosos
                                                           -- os afortunados.
Os demais jazem para sempre sob o mar
ou condenam a nossa fuga

enquanto secreta e desesperadamente desejam partir.

Reinaldo Arenas: Holguin, 1943 – Nova Iorque, 1990. Cresceu num pequeno povoado, sem pai, no seio de uma família pobre e louca, composta pela mãe, os avós e dez tias solteiras.

TU E EU ESTAMOS CONDENADOS

Tu e eu estamos condenados
pela ira de um senhor que não dá o rosto
a dançar sobre um lugar calcinado
ou a esconder-nos no cu de algum monstro.

Tu e eu sempre réus
daquela maldição desconhecida.
Sem viver, lutando pela vida.
Sem cabeça, pondo o chapéu.

Vagabundos sem tempo e sem espaço,
uma noite incessante nos envolve,
nos enreda os pés, nos tolhe.

Caminhamos sonhando um grande palácio
e o sol sua imagem gasta nos devolve
transformada em prisão que nos acolhe

José Koser: Havana, 1940. Poeta, ensaísta e tradutor.

 RENASCIMENTO DE FRANZ KAPRA

É uma casa pequena de dois pisos não muito longe do rio
num beco de Praga. Na madrugada
de onze para doze de Novembro teve um sobressalto, desceu à cozinha com a mesa redonda e a cadeira de
tília, o fogareiro e a chama azul de metileno. Acendeu
o fogão
e o fogo verdejou ao mesmo tempo (três) chamas nos três
vidros da janela: cheirava a enxofre.
Quis
passar
à salinha de comer para beber uma tisana de boldo e mel,
correu a cadeira e acomodou-se diante de uma taça
de barro castanha que
tinha colocado não se sabe desde quando
sobre o porta-copos de vime de seis
cores, obséquio
de Felicia: e uma vez mais
apareceu Felicia com a risca ao meio, as duas tranças e um
resplendor de velas na
oval branca daquele rosto ávido de
farinhas e pães da consagração,
rosto
três vezes
uma labareda no vidro da janela: apareceu. E era uma
vez mais a menina três vezes dos seus mortos, acudiam
ao toque
do triângulo uns músicos de câmara e ao toque da
sineta (as três) no alto campanário não muito longe
do rio:
acomodaram-se, dez
taças, dez
cadeiras no imenso casarão das mansardas, a casa em
que as varandas e as marquises (estábulos e alpendres) se
abriam dia e noite, a água
e as esponjas
reluziam. Pois, sim: era outra época e um coro de
raparigas vigiava as chaleiras (ferver) os eucaliptos
(ferver) a manjerona e uma
Água digestiva (mentas) águas
Da respiração: tudo
Tranqüilo (por fim) tudo tranqüilo, subiu os degraus e viu
Janela (por fim) sem uma
Aglomeração de pássaros

Na janela.

365 dias com poesia -- 03 de abril de 2015, Lugares-incomuns: marco

Lugares-incomuns: marco

 


Marco de lágrimas (mar)
Marco de rosas (mar)
Marco velho não mete a mão em cumbuca (macaco)
É preciso ser muito marco para... (maluco)
Vai dar marco! (merda)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Poema sorrysos

Sorrysos

A Pablo Picasso


Picasso era tão extremamente plástico que parecia um elástico vomitando cores entre as cinzas duma sociedade hipócrita que sempre aposta que o silêncio é melhor do que os gritos que para alguns poucos ouvidos são canção Picasso assustava menos com o touro e mais com o tamanho da sua liberdade adquirida no sofrimento de entender-se extremamente humano enquanto suamos desculpas esfarrapadas Ele nos amarrava e de nossos segredos sorria em pinceladas inclusive cinzas

Plácido -- Picasso: poema fonte

fonte

Versão livre dum poema de 30/12/35 de Pablo Picasso

a noite
na fonte

o sonho, torcido bico
o golpe dado
contra o ar

arranca
as tripas
da cor

(grito)
escondido
na guitarra

alegria
embriagada
pelo canto
da cor

escapa
o fi(lh)o
que sustenta
o prato
da cena

deságua
água
lustra
a longa escada
que
a mão negra
guarda (-chuva)

orelha azul
ressoa

a bolha de sabão
que escapa

descontrolada
prisioneira
da nascente
madrugada


Poema original no blog PeNsAmEnToS eM mOvImEnTo