De nojo, o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.
De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.
De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.
De amor ao tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...
Poesia, música e pensamentos, muitos pensamentos ao vento, pensamentos em movimento...
domingo, 3 de janeiro de 2016
365 dias com poesia, 03 de janeiro de 2016 -- A INFÂNCIA REDIMIDA
A
INFÂNCIA REDIMIDA -- Lêdo Ivo
A
alegria, crio-a agora neste poema.
Embora
seja trágica e íntima da morte
a vida
é um reino --- a vida é o nosso reino
não
obstante o terror, o êxtase e o milagre.
Como
te sonhei, Poesia! não como te sonharam...
Escondo-me
no bosque da linguagem, corro em salas de espelhos.
Estou
sempre ao alcance de tudo, cheio de orgulho
porque
o Anjo me segue a qualquer parte.
Tenho
um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia.
Maior,
porém, era a beira da praia de minha cidade
onde,
menino, inventei navios antes de tê-los visto.
Maior
ainda era o mar
diante
do qual todas as tardes eu recitava poemas,
festejando-o
com os olhos rasos e às vezes sorrindo de
paixão,
porque
grande coisa é descobrir-se o mar, vê-lo existir no mundo.
Ó mar
de minha infância, maior que o mar de Homero.
Brinco
de esconder-me de Deus, compactuo com as fadas
e com
este ar de jogral mantenho querelas com a morte.
Depois
do outro lado, há sempre um novo outro lado a
conquistar-se...
Por
isso te amo, Poesia, a ti que vens chamar-me para
As
califórnias da vida.
Não és
senão um sonho de infância, um mar visto em palavras.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Ruy Cinatti -- DEPOIS DE DESPACHO COM S.EXA. O GOVERNADOR E, LAHANE -- 1951--1956,POETAS PORTUGUESES 2016
Atiro ao sol as montanhas
e fujo, deliro,
perseguido por palavras falsas.
Adiro à terra, ao cavalo
pastoreando no verde
sombrio vale.
Galopo, galopo até o mar.
Na praia, os rochedos ferem.
Eu quero ser,
só o que sou.
Aos Timorenses chamo meus haveres.
Celebro ritos. Calo
Timor aos deuses.
Melhor que qualquer palavra
é o silêncio.
Melhor o contrato:
sangue aceite.
São braços levantados
frente ao Ocidente.
O sol-posto
nasce.
e fujo, deliro,
perseguido por palavras falsas.
Adiro à terra, ao cavalo
pastoreando no verde
sombrio vale.
Galopo, galopo até o mar.
Na praia, os rochedos ferem.
Eu quero ser,
só o que sou.
Aos Timorenses chamo meus haveres.
Celebro ritos. Calo
Timor aos deuses.
Melhor que qualquer palavra
é o silêncio.
Melhor o contrato:
sangue aceite.
São braços levantados
frente ao Ocidente.
O sol-posto
nasce.
José Blanc de Portugal: CONTINUANDO, POETAS PORTUGUESES 2016
Serei sempre somente o eterno estudante
Jamais me empalharão em uma Academia.
Sairei de tudo o que amei
Deixando todavia memória própria ardente
Sinal que o meu amor não finda
E, de quando em quando, uma tristeza já de fim de mundo
Como se nunca mais houvesse dia.
Jamais me empalharão em uma Academia.
Sairei de tudo o que amei
Deixando todavia memória própria ardente
Sinal que o meu amor não finda
E, de quando em quando, uma tristeza já de fim de mundo
Como se nunca mais houvesse dia.
José Blanc de Portugal: OLHANDO NITERÓI, POETAS PORTUGUESES 2016
As barcas velhas, não antigas que eu vejo cruzar
esta baía hoje cinzenta no céu e na água
quem as mandou fazer nunca pensou
que poderiam servir para meu sofrer.
Dói-me corpo e alma vê-las a passar
entre um cais que me é oculto e a frágua
da outra banda onde não aportou
nenhuma das barcas que eu estou a ver.
Vejo-as sair e entrar por um telhado
do lado de cá. Paro e de tal frágua lhes distingo o rumo;
olho-as para logo as desfitar nos dias claros;
nos de bruma cerrada elas como eu nela se perdem.
Hoje é dia de cerração; o ar molhado
dilui as coisas em tênue fumo
como se esfumam meus pensamentos raros
no cadinho de meu crânio aonde fervem.
As barcas velhas são meus pensamentos;
pudessem eles voltar a não ser
apenas tormentos.
esta baía hoje cinzenta no céu e na água
quem as mandou fazer nunca pensou
que poderiam servir para meu sofrer.
Dói-me corpo e alma vê-las a passar
entre um cais que me é oculto e a frágua
da outra banda onde não aportou
nenhuma das barcas que eu estou a ver.
Vejo-as sair e entrar por um telhado
do lado de cá. Paro e de tal frágua lhes distingo o rumo;
olho-as para logo as desfitar nos dias claros;
nos de bruma cerrada elas como eu nela se perdem.
Hoje é dia de cerração; o ar molhado
dilui as coisas em tênue fumo
como se esfumam meus pensamentos raros
no cadinho de meu crânio aonde fervem.
As barcas velhas são meus pensamentos;
pudessem eles voltar a não ser
apenas tormentos.
António Gedeão: CARTA ABERTA, POETAS PORTUGUESES 2016
Um homem progride, blindado e hirsuto
como um porco espinho.
É o poeta no seu reduto
abrindo caminho.
Abrindo caminho com passos serenos
e clava na mão,
que as noites são grandes e os dias pequenos
nesta criação.
Esmagando as boninas, os cravos e os lírios,
cortando as carótidas às aves canoras.
Chegaram as horas
de acender os círios,
de velar as ninfas no estreito caixão,
de enterrar as frases e as vozes incautas,
de oferecer a Lua para os astronautas
e as rosas fragrantes à destilação.
como um porco espinho.
É o poeta no seu reduto
abrindo caminho.
Abrindo caminho com passos serenos
e clava na mão,
que as noites são grandes e os dias pequenos
nesta criação.
Esmagando as boninas, os cravos e os lírios,
cortando as carótidas às aves canoras.
Chegaram as horas
de acender os círios,
de velar as ninfas no estreito caixão,
de enterrar as frases e as vozes incautas,
de oferecer a Lua para os astronautas
e as rosas fragrantes à destilação.
António Gedeão: MÁQUINA DO TEMPO, POETAS PORTUGUESES 2016
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
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