domingo, 3 de janeiro de 2016

Tomaz Kim -- TEMPO HABITUAL, POETAS PORTUGUESES 2016

De nojo, o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.

De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.

De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.

De amor ao tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?

De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...

365 dias com poesia, 03 de janeiro de 2016 -- A INFÂNCIA REDIMIDA

A INFÂNCIA REDIMIDA -- Lêdo Ivo

A alegria, crio-a agora neste poema.

Embora seja trágica e íntima da morte
a vida é um reino --- a vida é o nosso reino
não obstante o terror, o êxtase e o milagre.

Como te sonhei, Poesia! não como te sonharam...

Escondo-me no bosque da linguagem, corro em salas de espelhos.
Estou sempre ao alcance de tudo, cheio de orgulho
porque o Anjo me segue a qualquer parte.

Tenho um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia.
Maior, porém, era a beira da praia de minha cidade
onde, menino, inventei navios antes de tê-los visto.

Maior ainda era o mar
diante do qual todas as tardes eu recitava poemas,
festejando-o com os olhos rasos e às vezes sorrindo de
                                                                  paixão,
porque grande coisa é descobrir-se o mar, vê-lo existir no mundo.
Ó mar de minha infância, maior que o mar de Homero.

Brinco de esconder-me de Deus, compactuo com as fadas
e com este ar de jogral mantenho querelas com a morte.
Depois do outro lado, há sempre um novo outro lado a
                                                        conquistar-se...
Por isso te amo, Poesia, a ti que vens chamar-me para
                                               As califórnias da vida.
Não és senão um sonho de infância, um mar visto em palavras.


sábado, 2 de janeiro de 2016

Ruy Cinatti -- DEPOIS DE DESPACHO COM S.EXA. O GOVERNADOR E, LAHANE -- 1951--1956,POETAS PORTUGUESES 2016

Atiro ao sol as montanhas
e fujo, deliro,
perseguido por palavras falsas.

Adiro à terra, ao cavalo
pastoreando no verde
sombrio vale.
Galopo, galopo até o mar.

Na praia, os rochedos ferem.
Eu quero ser,
só o que sou.

Aos Timorenses chamo meus haveres.
Celebro ritos. Calo
Timor aos deuses.

Melhor que qualquer palavra
é o silêncio.

Melhor o contrato:
sangue aceite.

São braços levantados
frente ao Ocidente.

O sol-posto
nasce.

José Blanc de Portugal: CONTINUANDO, POETAS PORTUGUESES 2016

Serei sempre somente o eterno estudante
Jamais me empalharão em uma Academia.
Sairei de tudo o que amei
Deixando todavia memória própria ardente
Sinal que o meu amor não finda
E, de quando em quando, uma tristeza já de fim de mundo
Como se nunca mais houvesse dia.

José Blanc de Portugal: OLHANDO NITERÓI, POETAS PORTUGUESES 2016

As barcas velhas, não antigas que eu vejo cruzar
esta baía hoje cinzenta no céu e na água
quem as mandou fazer nunca pensou
que poderiam servir para meu sofrer.

Dói-me corpo e alma vê-las a passar
entre um cais que me é oculto e a frágua
da outra banda onde não aportou
nenhuma das barcas que eu estou a ver.

Vejo-as sair e entrar por um telhado
do lado de cá. Paro e de tal frágua lhes distingo o rumo;
olho-as para logo as desfitar nos dias claros;
nos de bruma cerrada elas como eu nela se perdem.

Hoje é dia de cerração; o ar molhado
dilui as coisas em tênue fumo
como se esfumam meus pensamentos raros
no cadinho de meu crânio aonde fervem.

As barcas velhas são meus pensamentos;
pudessem eles voltar a não ser
apenas tormentos.

António Gedeão: CARTA ABERTA, POETAS PORTUGUESES 2016

Um homem progride, blindado e hirsuto
como um porco espinho.
É o poeta no seu reduto
abrindo caminho.
Abrindo caminho com passos serenos
e clava na mão,
que as noites são grandes e os dias pequenos
nesta criação.

Esmagando as boninas, os cravos e os lírios,
cortando as carótidas às aves canoras.
Chegaram as horas
de acender os círios,
de velar as ninfas no estreito caixão,
de enterrar as frases e as vozes incautas,
de oferecer a Lua para os astronautas
e as rosas fragrantes à destilação.

António Gedeão: MÁQUINA DO TEMPO, POETAS PORTUGUESES 2016

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.