Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
Poesia, música e pensamentos, muitos pensamentos ao vento, pensamentos em movimento...
sábado, 2 de janeiro de 2016
Pedro Homem de Mello -- LIBERTAÇÃO, POETAS PORTUGUESES 2016
Pesa-me, inteira,
A flor que fala
Para a roseira
Ficar mais alta.
Pesa-me a Lua!
E a noite vem,
De espada nua,
Buscar alguém...
Pesa-me a neve.
Ou a montanha?
Dizem que é leve.
Mas é tamanha!
Chumbo ou veludo.
Seja o que for!
Pesa-me tudo
Menos a dor.
A flor que fala
Para a roseira
Ficar mais alta.
Pesa-me a Lua!
E a noite vem,
De espada nua,
Buscar alguém...
Pesa-me a neve.
Ou a montanha?
Dizem que é leve.
Mas é tamanha!
Chumbo ou veludo.
Seja o que for!
Pesa-me tudo
Menos a dor.
Pedro Homem de Mello -- APELO, POETAS PORTUGUESES 2016
Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!
Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.
Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.
Vem quando o vento acorda em meus cabelos,
Como em folhagem que, ávida, respira...
Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente!
Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente...
De noite, quando as rosas adormecem!
Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.
Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.
Vem quando o vento acorda em meus cabelos,
Como em folhagem que, ávida, respira...
Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente!
Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente...
José Gomes Ferreira (Fragmentos), POETAS PORTUGUESES 2016
Que voz
é esta
que vem
da floresta
e não
do meu coração?
Pois
os pássaros não cantam apenas
na minha
imaginação?
Existem
em cor e penas
na realidade
desta canção
de mim
tão alheia?
Ó
pássaro autêntico,
volta a
ser ideia.
*********************************************
Sei lá se há estrelas!
Daqui não as vejo.
Qualquer dia hei-de ir vê-las
ao rio Tejo.
Não no céu tão longe e incerto
onde a custo as descobrimos,
mas a brilharem mais perto
nas águas de treva e limos.
Só assim desse modo
consigo entendê-las.
Caídas no lodo
é que são estrelas.
365 dias com poesia, 02 de janeiro de 2016 -- SEM O MUSGO QUE É A FLOR
SEM O MUSGO QUE É A FLOR -- Lêdo Ivo
Feérico,
todavia
espero
o tempo de ser o pobre muro
sem o
musgo que é, nele, a flor do tempo,
a hora
em que não mais terei de inventar a primavera;
época
dentro em mim, ela prescindirá de olhos
para a
sua evidência. E mesmo a doçura de viver, que ora
recorre à
inflexão de tua voz,
liberta
de tua pronúncia aos dezoito anos, se esconderá em mim
---
poeira refugiada num tapete.
É doce
envelhecer abolindo o supérfluo,
E
crescendo em amor, sabedoria e humano.
Tantas
belezas desprezadas para fixar apenas o essencial...
De
quanto quis deter, como quem puxa as rédeas de um cavalo
ficaram uma estrela que não vi, um pouco de mar
célere,
o
sonho revel que me perturbou o repouso,
a
alheia melodia que estorvou minha canção
e a
lâmpada que outros acenderam por mim em minha sala.
Contudo,
nada foi perdido. Sobre a colheita
vem a
morte, e não encontra o imaturo,
a
morte semelhante ao verão que ama as coisas completas
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
zens e sons
A Sílvia
Tavares
zen stress
zen pressa
zen mau humor
zen
caras feias
zen
chateações
zen
tristeza
som
poesias
365 dias com poesia, 01 de janeiro de 2016 -- JUSTIFICAÇÃO DO POETA
JUSTIFICAÇÃO
DO POETA -- Lêdo Ivo
Pai,
meus pensamentos não cabem na tua sala com piano
tranquilo a um lado
e escuras cadeiras
vazias
perto da janela
meus
inquietos pensamentos não cabem na saleta com flores
morrendo
nos jarros e paisagens
sorrindo
nas molduras
deixa
que eles atinjam além das cortinas azuis e caminhem para
muito
além das janelas abertas
deixa
que eles se misturem com o calmo luar
não te
importes se os outros se espantam com teu filho de olhos
vivos e
cabelos sempre desalinhados
não te
importes se recito poemas quando a noite cai
o
tempo não existe na alma do poeta
tudo é
universal e abrange todos os tempos
os
poetas, meu pai, são os corações do mundo
são as
mãos de Deus escrevendo os poemas do mundo inseguro
não
importa, pai, que digam que sou louco
que
choro debruçado nas pontes e me comovo nos teatros
que
pergunto pela obscura Adriana quando a madrugada desce
em
silêncio
em
silêncio
os
poetas são os pianos do mundo
só
eles terão a noção da agonia do mundo
ontem
um menino espanhol foi despedaçado por uma bomba
amanhã
se encontrarão poemas no bolso do suicida sonhador
enquanto
isso os guindastes trabalham incansavelmente dia e
noite
e os
operários fatigam e as pernas
nenhuma
oscilação haverá na Poesia
ela
ficará em equilíbrio porque os ritmos a amparam
e
Adriana não se prostituiu.
Sou um
comício. Sou uma revolução.
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