sábado, 2 de janeiro de 2016

António Gedeão: GOTA DE ÁGUA, POETAS PORTUGUESES 2016

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

Pedro Homem de Mello -- LIBERTAÇÃO, POETAS PORTUGUESES 2016

Pesa-me, inteira,
A flor que fala
Para a roseira
Ficar mais alta.
Pesa-me a Lua!
E a noite vem,
De espada nua,
Buscar alguém...
Pesa-me a neve.
Ou a montanha?
Dizem que é leve.
Mas é tamanha!
Chumbo ou veludo.
Seja o que for!
Pesa-me tudo
Menos a dor.

Pedro Homem de Mello -- APELO, POETAS PORTUGUESES 2016

Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!

Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.

Vem quando o vento acorda em meus cabelos,
Como em folhagem que, ávida, respira...

Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente!

Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente...

José Gomes Ferreira (Fragmentos), POETAS PORTUGUESES 2016



Que voz é esta
que vem da floresta
e não do meu coração?

Pois os pássaros não cantam apenas
na minha imaginação?

Existem em cor e penas
na realidade desta canção
de mim tão alheia?

Ó pássaro autêntico,

volta a ser ideia.


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Sei lá se há estrelas!
Daqui não as vejo.
Qualquer dia hei-de ir vê-las
ao rio Tejo.

Não no céu tão longe e incerto
onde a custo as descobrimos,
mas a brilharem mais perto
nas águas de treva e limos.

Só assim desse modo
consigo entendê-las.
Caídas no lodo
é que são estrelas.

365 dias com poesia, 02 de janeiro de 2016 -- SEM O MUSGO QUE É A FLOR


SEM O MUSGO QUE É A FLOR -- Lêdo Ivo

Feérico, todavia
espero o tempo de ser o pobre muro
sem o musgo que é, nele, a flor do tempo,
a hora em que não mais terei de inventar a primavera;
época dentro em mim, ela prescindirá de olhos
para a sua evidência. E mesmo a doçura de viver, que ora
                                      recorre à inflexão de tua voz,
liberta de tua pronúncia aos dezoito anos, se esconderá em mim
--- poeira refugiada num tapete.

É doce envelhecer abolindo o supérfluo,
E crescendo em amor, sabedoria e humano.
Tantas belezas desprezadas para fixar apenas o essencial...
De quanto quis deter, como quem puxa as rédeas de um cavalo
ficaram  uma estrela que não vi, um pouco de mar célere,
o sonho revel que me perturbou o repouso,
a alheia melodia que estorvou minha canção
e a lâmpada que outros acenderam por mim em minha sala.

Contudo, nada foi perdido. Sobre a colheita
vem a morte, e não encontra o imaturo,

a morte semelhante ao verão que ama as coisas completas

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

zens e sons



A Sílvia Tavares

zen stress
zen pressa
zen mau humor
zen caras feias
zen chateações
zen tristeza


som poesias

365 dias com poesia, 01 de janeiro de 2016 -- JUSTIFICAÇÃO DO POETA

JUSTIFICAÇÃO DO POETA -- Lêdo Ivo

Pai, meus pensamentos não cabem na tua sala com piano
                            tranquilo a um lado e escuras cadeiras
                                                        vazias perto da janela
meus inquietos pensamentos não cabem na saleta com flores
                                      morrendo nos jarros e paisagens
                                               sorrindo nas molduras
deixa que eles atinjam além das cortinas azuis e caminhem para
                                               muito além das janelas abertas
deixa que eles se misturem com o calmo luar
não te importes se os outros se espantam com teu filho de olhos
                                      vivos e cabelos sempre desalinhados 
não te importes se recito poemas quando a noite cai
o tempo não existe na alma do poeta
tudo é universal e abrange todos os tempos
os poetas, meu pai, são os corações do mundo
são as mãos de Deus escrevendo os poemas do mundo inseguro
não importa, pai, que digam que sou louco
que choro debruçado nas pontes e me comovo nos teatros
que pergunto pela obscura Adriana quando a madrugada desce
em silêncio
em silêncio
os poetas são os pianos do mundo
só eles terão a noção da agonia do mundo
ontem um menino espanhol foi despedaçado por uma bomba
amanhã se encontrarão poemas no bolso do suicida sonhador
enquanto isso os guindastes trabalham incansavelmente dia e
                                                                                     noite
e os operários fatigam e as pernas
nenhuma oscilação haverá na Poesia
ela ficará em equilíbrio porque os ritmos a amparam
e Adriana não se prostituiu.


Sou um comício. Sou uma revolução.