sábado, 3 de outubro de 2015

Aldemir Martins -- Plácido, poema: compositores

compositores

A Fábio e Alessandra Coelho

sim
o mar
(O mar quando quebra na praia é bonito é bonito...)
também salga o amor
no barulho das ondas há
olhos sorrindo
bocas brilhando
dois amores com calor
impulsionando vidas
impressionando os ventos
alísios
alívio ver
dois amigos sendo
um
navegar

(Navegar é preciso viver não é preciso...)

Aldemir Martins -- Plácido, poema: Deus e o diabo

Deus e o diabo

Não crer
É para poucos
E não porque seja uma vantagem
Pois na verdade
Não crer em nada
É ter de resolver tudo
Ser o mundo
Deus e o diabo
Terra do sol
Ser
Glauber
Caetano
Gil
Sarney
Se fazer em mil pedaços de homens e
Ter de trabalhar como mil pedaços de homens
Amar como mil pedaços de homens
Sofrer como mil pedaços de homens
Sem saber como mil pedaços de homens

Chegarão a ser mil homens 

Aldemir Martins -- Plácido, poema: Pedras, lago e vento

Pedras, lago e vento

A vida é definida pelo movimento

A pedra é pedra porque está parada
Quando em movimento é agressão
Ou brincadeira de criança num lago

O lago parado é depósito de mosquitos
Sendo nadado é alegria de braços
Que parados são tristeza (ninguém dança em silêncio)

Qual pássaros nascemos para nos agitar
Parados somos árvores
Esperando a queda
(Apenas árvores esperando a queda...

Com medo do som das serras, gritos intuídos trazidos pelo vento...)

Aldemir Martins -- Plácido, poema: diabólica

diabólica

O diabo não é mau porque é o diabo
É mau porque é velho
A velhice vê o futuro
Cospe pretéritos
Vê cinzas nas árvores
Sente o cheiro das saudades
E arde como carvão
Por isso desacredita em qualquer obra
Principalmente numa que fale a verdade

Porque a velhice não precisa mais da verdade porque ela já sabe que a  verdade é o fim

Aldemir Martins -- Plácido, poema: duas mãos

duas mãos

A tristeza não cansa
O que cansa é a falta de esperança
(Essa nossa segunda pele...)
Se não acreditarmos tudo estará acabado
Precisamos acreditar em algo que nos dê paz
Que iniba nossa feia mania de avançar no que é do outro ser
Que está ali a rezar pedindo paciência, amor, dinheiro?
Precisamos de quase tudo que não é nosso?
Ócio criativo ódio do sorriso alheio?

(Precisamos urgentemente de sonhos, nossos, que preencham nossa Necessidade de ilusão

Precisamos insanamente de pelo menos mais duas mãos!)

Aldemir Martins -- Plácido, poema: dedo babado

dedo babado

Antes da lágrima
Cuspo a palavra
Que define a direção

Antes da farpa
Cuspo a palavra
Lança de sensação

Antes que ouça asneiras
Vomito besteiras
Sobre Picasso Drummond

Antes da ressaca
Tomo ar contra a solidão

Antes que venham estou indo
Antes do latido o carinho
Afago esperto contra a mordida certa

Antes prevenido do que machucado
Antes do não um arranhão

Isso é a arte do meu jeito

Um cheiro de dedo babado impresso na tela

Aldemir Martins -- Plácido, poema: universo

universo

Gosto do gosto de Deus no rosto
Sinônimo de lágrimas
Depois letras palavras e orações
Poesia é a própria benção
Perdoar(-se) por ser humano e eterno

(porque único até morrer...)