terça-feira, 31 de janeiro de 2017

(10) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Sinha Terta


Sinha Terta

Quem é do chão não se trepa
Nas contas com o branco, dono de tudo, Fabiano ainda pagava o tal do juro
E ouvia sermão: “Era bom pensar no futuro”
Nunca ferrou um bezerro ou assinou orelha de cabrito
Estava sempre devendo
Que juro! O que havia era ladroeira!
O patrão zangou

-- Isso era ignorância da mulher, patrão, ele como não sabia ler acreditava na conta da velha!
-- Desculpa, patrão!
Recordou-se quando o cobrador da prefeitura quis imposto de parte de um
Porco!
Descoberto na malandragem da venda escondida
Morreu no imposto e na multa (descobriu que era perigoso criar porcos)
Sabia, nasceu como o pai e o avô para amansar brabo, curar feridas com rezas e consertar cercas Como um cachorro só recebia ossos

Toda vez que os homens sabidos lhe dirigiam palavras difíceis saía logrado!

(Mas eram bonitas às vezes decorava algumas e empregava-as fora de propósito Se ele soubesse falar como Sinha Terta haveria de arranjar-se


Gostava de falar com a mulher porque falava por gestos)

(9) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Baleia


Baleia

Baleia morreria
Hidrofobia, provavelmente
E por isso Fabiano amarrou no seu pescoço
Um rosário de sabugos de milho queimados

Fabiano resolveu matá-la
Ela era como pessoa da família...
- Vão bulir com Baleia?, perguntavam os meninos
Preparou o gatilho
E atirou acertando os quartos traseiros

Baleia rodou, fugiu, se escondeu
Quando esmoreceu uivava baixinho
Sentindo o cheiro dos preás quis subir a ladeira
Fabiano chegou perto com um objeto estranho nas mãos
Logo veio a escuridão


Logo veio a escuridão...

(8) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Festa


Festa

Iam à festa
Os meninos estreavam calça e paletó
Sinha Vitória num vestido vermelho de ramagens remava em sapatos de salto alto
Fabiano procurava erguer o espinhaço apertado na roupa de pouco tecido de brim branco

Logo tiraram o que puderam Andariam à tarde toda
À noite chegaram à festa A multidão apertava mais do que a roupa Mãos e braços como se fossem agarrá-lo Fabiano, apertado pela tradição, conseguiu chegar à água benta Sabia que estava ridículo e que todos mangavam dele
(todos eram ruins) Se encontrasse um conhecido iria abraçá-lo, sorrir, bater palmas Pensando no soldado amarelo Bebeu cachaça e ficou sem-vergonha
“Quem tem coragem de dizer que sou feio?”
Cambada de... (animais, é o que somos?)
Com o estômago embrulhado pela cachaça adormeceu

Sinha apertada se escondeu e resolveu suas necessidades
Os meninos ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos
(Teriam nome?
Como podem os homens guardar tantas palavras?

Livres dos nomes as coisas ficavam distantes, misteriosas).

(7) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Inverno


Inverno

Trovão, barulho do rio
Goteiras pingavam
O vento do frio sacudia os ramos das catingueiras
O fogo dava calor e luz
Que clareava vagamente
Os pés do vaqueiro, da mulher e dos meninos

O mais velho viu que o pai tinha o coração na goela
Ao escapar de um braço
Por interrompê-lo

Forte era a chuva que caía
Fabiano de bom humor
Contava façanhas e
Pensava :
Se a seca chegasse
Coseria o soldado amarelo a facadas
Depois o juiz, o promotor e o delegado
Numa briga imaginária fez e aconteceu

O mais novo batia palmas
O mais velho desconfiou
A história se modificara
Fabiano deveria ter repetido as palavras
Ao mudá-las mudou
Tudo
Estava mudado

Chovia muito, o dia inteiro
(Baleia precisava dormir e
Livrar-se das pulgas e

Daquela vigilância a que a tinham habituado...)

(6) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Menino mais velho

Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Menino mais velho (6)

Menino mais velho

“Inferno, inferno”
O menino mais velho não sabia falar (por pouco escutar)
e tomou um safanão na alegria do aprendizado
“Cocorote não!”
Inferno, palavra tão bonita não podia designar coisa ruim
Coisa ruim
Era não saber nada...


(e o menino nem ligava para os saltos e gracejos de Baleia...) 

(5) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema:Menino mais novo


Menino mais novo

Fabiano era terrível
Metido nos couros, perneiras e gibão
Era o mais importante do mundo
Para o menino mais novo
A mãe não percebia
E isso o incomodava
Ele não era Fabiano mas podia ser e por isso o bode sofreu
Seria
Sério
Será
Cresceria

O irmão mais velho e Baleia veriam

(4) Graciliano Ramos, Vidas Secas. Marco Plácido, Poema: Sinha Vitória

Sinha Vitória

Tropeçando nos saltos
Dos sapatos de domingo
Braba pela cama de varas
Sinha Vitória
Com um papagaio foi comparada
Fabiano
No pouco que fala
Não sabe usar as palavras
 “A seca devia estar longe”, ela pensava

Uma cama de couro de sucupira a ajudaria a sonhar...