quarta-feira, 6 de abril de 2016

Novidade na arte -- fragmento de Christina Bach sobre Jorge Guinle

(...) Afinal, o que havia de "novo" nessas atitudes? Nada especialmente, e muito.
O "novo" já não mais seduz o artista, que agora olha para tudo e para todos como "inspiração", ou melhor, como excitação: tudo já foi feito, é só recolher os fragmentos que estão à mão, combiná-los e recombiná-los de modo que faça algum "sentido", seja lá o que isso queira dizer. Convulsionando o estabelecido, tal procedimento vai conferir um aspecto de crise, de busca e experimentação ao momento. Daí parecer oscilar entre o "novo" e o "déja vu". Ora, decerto que entre utilizações gauches, citações, cópias baratas e o bom uso correu muita tinta.

O que se percebe, portanto, não é o "novo", mas uma reflexão poética sobre o que já foi feito. Assim, conhecimentos anteriores são rearranjados e nenhuma novidade é avistada. "Novo" é somente o não-familiar -- frequentemente uma mistura ainda não realizada de dois "velhos": uma espécie de evolução darwinista. Não é possível fazer coisas totalmente novas a partir do nada, tem de haver alguma coisa antes para se obter uma variação das coisas existentes. Alegar ou exigir um "novo" a essa altura dos acontecimentos é endossar uma compulsão vanguardista: ainda não será desta vez que se vai exaurir a história da arte." (...)

366 dias com poesia, 06 de abril de 2016 -- S.A.U.D.A.D.E

S.A.U.D.A.D.E

À memória de Bertha Plácido

Só

Arde

Uma vez em cada respiração

De dia

Arde muito menos... (a rotina anestesia sentimentos), a noite

Dói mais, quando relembro, sozinho, sua luta pela vida...

Esforço inútil, mas última lição.


Do livro HÁmor, 2014.

terça-feira, 5 de abril de 2016

366 dias com poesia, 05 de abril de 2016 -- Jardins

Jardins

se da única certeza

retirássemos força para nos lançar na destemida vontade de nos realizar os psicólogos estariam todos mortos de fome...

...e os hospícios dariam lugar a jardins


Do livro HÁmor, 2014.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

366 dias com poesia, 04 de abril de 2016 -- Somas

Somas

À Angélica Plácido

Eu sei
Seus silêncios são meus
São sons sumidos
Simples sins sozinhos
Soluços singelos sonoros
Sortilégios
Sacrilégios
Severos
Seus

(eu sei meus silêncios são seus
São sons sumidos
Simples sins sozinhos
Soluços singelos sonoros
Sortilégios
Sacrilégios
Severos
Seus)


Sofredores secretos somamos sexos sorvendo união


Do livro HÁmor, 2014.

domingo, 3 de abril de 2016

366 dias com poesia, 03 de abril de 2016 -- sangramento

sangramento

A Luiz Antonio Costa de Andrade

todos precisamos de tudo
alimento sol sombra carinho
todos precisamos reconhecer o barulho e o cheiro do ninho
primeiro sonho
ilusão de continuar nadando
num mundo plano, sem tempo
todos precisamos de tudo
e o mundo
nos evita
como separar o joio da ferida?
como não gritar sangrando em poemas
que tentam
mas não estancam minha desilusão?

Continuar vivendo é segurar a própria mão?



Do livro HÁmor, 2014.

sábado, 2 de abril de 2016

366 dias com poesia, 02 de abril de 2016 -- ração

ração

não há mais tempo para a emoção
a razão racionou todo o tempo
(tudo
está
claro)
tudo está escuro
no fundo do meu coração gostaria de chorar
mas não dá mais tempo
tenho que
ganhar o pão
e amassá-lo
para dividi-lo

ração de carinho



Do livro HÁmor, 2014.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

366 dias com poesia, 01 de abril de 2016 -- Bola de meia

Bola de meia

Aquela árvore está pedindo um menino, subindo
Aquela bola está pedindo um pé sem chuteira

e eu...não sou mais menino
mas
se estou vendo isso posso me furtar?

Se estou vendo, estou vivo, é isso que devo fazer e farei...


Do livro HÁmor, 2014.