quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Pensamentos e Muitos Movimentos (facebook) -- dentes de leite



dentes de leite

Quero um poema que doa
Doe vida
Nos ensine a rezar
Pelo desespero que incita
Pela vontade tamanha de esperança
Quero letras que sangrem
Mordidas com dentes de leite
Que não enfeitem
Que digam a verdade por arte
Pétalas de chuva que inventem árvores...

Pensamentos e Muitos Movimentos (facebook) -- Arma do crime



Arma do crime

Da idade
Esperam de mim
Serenidade-seriedade
Como não consigo
Faço arte
Já que vou chateá-los
Mostro a arma do crime
Obra de arte

Pensamentos e Muitos Movimentos (facebook) -- surfista 2



surfista 2

urgência
violência do silêncio
que é mágoa
atordoa e mata
aquele que se faz de estátua
aquele que engole
se entope
de palavras
que gostaria de vomitar
mas entuba
se anula
se violenta
para calar
o suspiro que gostaria de rimar

Pensamentos e Muitos Movimentos (facebook) -- óleo



óleo

em poesia
não há mentiras entre dentes
há verdades escarradas
lugar
onde as letras são farpas
palavras navalhas
e orações
não acalmam
ao contrário
exalam o óleo
da desconfiança
da vida real
que cansa

365 dias com poesia, 02 de outubro de 2013 -- FABRICAÇÃO



FABRICAÇÃO

 

Especial do mês de outubro, poemas preferidos


A qualquer preço quero entrar na língua, presentear as possibilidades de dizer com este extravio em direção do que agora recebeu o nome de você, do que se chama enigma -- este pátio, este limiar, estofados, estas portas de Paris para onde você foi proscrita, e gostaria que o poema se tornasse romance atraindo para si os gestos da cozinha, as frases de telefone, o uso do vento, a insignificância daquilo que nos separa da morte; a qualquer preço redoar à língua, tornada túmulo, tudo aquilo que nos dá que chamamos seu exterior, e rebater sobre ela esta vida com a pulsação de que fosse capaz, em um barroco obscuro monumento a seu erro, criticado por outros; fugindo pelo pensamento* em sua floresta de palavras arrancadas da noite (bistre, quilate, pontura) e relapso com o léxico, o emudecimento e as frases familiares, como uma prova em suma de velocidade sobre obstáculos através da mata, cuja destinação mortífera e negligente arqueja até o branco pé de página, no reverso, o banco de repouso, ufa! E de igual maneira atravessar ao lê-la uma biblioteca num salve-se quem puder trazendo livros em meu livro, re-suscitando, e destruindo sem descanso para salvá-las do desastre as páginas admiráveis impossivelmente condensadas no poema



* fugindo por exemplo fugindo
   do grave no centro do mais sério
   mesmo no modo como você mostra
   um exemplo ensurdecido na conversa
   e rápido como um deus que erra um rapto 

Michel Deguy

terça-feira, 1 de outubro de 2013

365 dias com poesia, 01 de outubro de 2013 -- adubos



adubos

À Luiz Souza

Vendo uma semente se transformando...
(O mundo chorando e ajudando...)

Lentamente a semente vira árvore
Dia após dia
Folha por folha
Dá a luz ao primeiro fruto
Nesse momento
Descubro a idade
E que o tempo
Não volta

O tempo
Nos empurra
Nos mostra o gosto do adubo
Que trazemos desde pequenos

O tempo
É o segredo
Ele travesso nos conta
Verdades que são mentiras
Mentiras do lado avesso
E só entendemos depois de mais velhos

Esse o gosto de aventura da vida
Que exalamos quando crianças
E nos esquecemos quando enfermos

(enfermos pela idade sem ilusão)

365 dias com poesia, 01 de outubro de 2013 -- SOGRO



SOGRO

À José Joaquim da Rocha Cunha

Sóbrio sofreu sozinha solidão
Sério sorriu simplesmente sorriu
Silêncios, simples sinceros
Suportou certezas, severo
Seguro sempre saiu singular
Sábio sempre segurou solução segura
Segundo seu salutar susto

(Sempre soube, sabe, segurar solidão)