comoção
A noção do futuro vem com o tempo passado
Explico
Os jovens não têm conhecimento do futuro porque ainda não tiveram necessidade de ter esperança se fixam no presente como se não houvesse amanhã e quando acordam -- ou seja, amadurecem, por acúmulo de tempo --, é que percebem que a vida tem um único rumo, certo e verdadeiro
Poesia, música e pensamentos, muitos pensamentos ao vento, pensamentos em movimento...
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Francisco Matos Paoli, poeta portoriquenho
Porque sou o poeta,
de quem a palavra burla,
preparo o céu para este mundo vão.
E quando chocam os seres,
que impassível evasão, que pavio de chama
enterrada,
que decisão baldia
querer que todo poema se levante do ruído
e possa representar a ideia,
o fantasma infinito dos voos,
a eucaristia que se reconhece
pela maneira de partir o pão.
Sei que o vizinho faz uum esforço
grande
para ser homem,
sei que devo falar com harmonia,
apaziguar o leão que devora o crepúsculo.
De repente me eterneço,
me lanço na corrente nobre,
espanco os astros com a mão e digo:
melhor é o silêncio quando se está morto
e nem podemos melhorar o dia
comum
preso à nossa lágrima.
Ma tenho que lutar e lutar.
Lúcifer é a incomunicação,
o fácil soletrar que idiotiza,
o sedente que
por abundância de atmosfera
põe a perder o pranto,
essa tatuagem do esquecimento
que ainda fica no encarnado.
Quisera viver
sem ter de ser profeta,
estar aberto na água como a flor de lótus,
perder o rstro da noite,
não sustentar mais a pérola do absimo,
fugir para o cafezal florido
que louva em simplicidade.
Mas é impossível, Deus meu.
Se não enlouqueço agora,
O que será do sêmen da imagem?
Para que desejo o endurecido
símbolo dos grandes congelados da história?
Para que sou farsante
Que se desvie na memória fugidia,
Todo rodeado de margens,
Todo povoado de insbstância,
Todo clamante no deserto.
(Tradução: Thiago de Mello).
de quem a palavra burla,
preparo o céu para este mundo vão.
E quando chocam os seres,
que impassível evasão, que pavio de chama
enterrada,
que decisão baldia
querer que todo poema se levante do ruído
e possa representar a ideia,
o fantasma infinito dos voos,
a eucaristia que se reconhece
pela maneira de partir o pão.
Sei que o vizinho faz uum esforço
grande
para ser homem,
sei que devo falar com harmonia,
apaziguar o leão que devora o crepúsculo.
De repente me eterneço,
me lanço na corrente nobre,
espanco os astros com a mão e digo:
melhor é o silêncio quando se está morto
e nem podemos melhorar o dia
comum
preso à nossa lágrima.
Ma tenho que lutar e lutar.
Lúcifer é a incomunicação,
o fácil soletrar que idiotiza,
o sedente que
por abundância de atmosfera
põe a perder o pranto,
essa tatuagem do esquecimento
que ainda fica no encarnado.
Quisera viver
sem ter de ser profeta,
estar aberto na água como a flor de lótus,
perder o rstro da noite,
não sustentar mais a pérola do absimo,
fugir para o cafezal florido
que louva em simplicidade.
Mas é impossível, Deus meu.
Se não enlouqueço agora,
O que será do sêmen da imagem?
Para que desejo o endurecido
símbolo dos grandes congelados da história?
Para que sou farsante
Que se desvie na memória fugidia,
Todo rodeado de margens,
Todo povoado de insbstância,
Todo clamante no deserto.
(Tradução: Thiago de Mello).
Manuel Del Cabral, poeta dominicanense -- AR
Numa esquina está o ar
de joelhos...
Dois sabres analfabetos
o vigiam.
Eu sei porém que é do povo
minha voz bem levantada.
Dá fala aos mortos sem cruzes
minha guitarra.
Pedro se chamam os ossos
daquele que cruz não teve.
Mas agora a terra inteira
se chama Pedro.
Aqui está o ar em seu lugar
e está inteiro...
Aqui...
Madeira de carne alta,
terra solta,
minha guitarra.
(Tradução: Thiago de Mello).
de joelhos...
Dois sabres analfabetos
o vigiam.
Eu sei porém que é do povo
minha voz bem levantada.
Dá fala aos mortos sem cruzes
minha guitarra.
Pedro se chamam os ossos
daquele que cruz não teve.
Mas agora a terra inteira
se chama Pedro.
Aqui está o ar em seu lugar
e está inteiro...
Aqui...
Madeira de carne alta,
terra solta,
minha guitarra.
(Tradução: Thiago de Mello).
Juana de Ibarbourou, poeta uruguaia -- A NOITE
A fábula do dia
Termina na garganta da tarde
Detúnica roxa. Somente arde
A última palavra desmedida,
A do amor que não se acaba nunca,
Final mentira.
A noite, besta triste.
Chega insone e calada.
Nem um anjo a acompanha,
Nem a esperança sabe a sua medida.
Quando a luz retorna
E a aljôfar adoça as graminhas
Da aurora, sempre desesperada,
Se enforca no cipreste da manhã.
A noite, besta ávida.
E de sua morte se alça o novo dia
Fatigado de dores e enganos.
(Tradução: Thiago de Mello).
Termina na garganta da tarde
Detúnica roxa. Somente arde
A última palavra desmedida,
A do amor que não se acaba nunca,
Final mentira.
A noite, besta triste.
Chega insone e calada.
Nem um anjo a acompanha,
Nem a esperança sabe a sua medida.
Quando a luz retorna
E a aljôfar adoça as graminhas
Da aurora, sempre desesperada,
Se enforca no cipreste da manhã.
A noite, besta ávida.
E de sua morte se alça o novo dia
Fatigado de dores e enganos.
(Tradução: Thiago de Mello).
Fernando Pereda, poeta uruguaio --SUCESSOS REAIS
A José Bergamim
Essa hora que não sabemos
pode chegar a desoras,
e de uma aurora a outra aurora
chegar quando não sabemos.
Quando a alma já nem suspira
para saber se está ouvindo
notícias que vêm da cinza.
Cantar e ressuscitar?
Quem cantando assim esquecera
passos de sua caveira!
Não basta ressuscitar.
Não basta. Cuidado, amor:
porque essas cores finais
não parecem naturais.
E entre contigo, entre amor,
minutos inventaremos
se nem a hora sabemos.
Se cob erta ou descoberta
pode ela chegar mais cedo,
diz adeus com tua mão
o fogo que mais desperta,
como estar queimando alerta?
que de uma aurora a outra aurora
pode chegar a desoras.
(Tradução: Thiago de Mello).
Essa hora que não sabemos
pode chegar a desoras,
e de uma aurora a outra aurora
chegar quando não sabemos.
Quando a alma já nem suspira
para saber se está ouvindo
notícias que vêm da cinza.
Cantar e ressuscitar?
Quem cantando assim esquecera
passos de sua caveira!
Não basta ressuscitar.
Não basta. Cuidado, amor:
porque essas cores finais
não parecem naturais.
E entre contigo, entre amor,
minutos inventaremos
se nem a hora sabemos.
Se cob erta ou descoberta
pode ela chegar mais cedo,
diz adeus com tua mão
o fogo que mais desperta,
como estar queimando alerta?
que de uma aurora a outra aurora
pode chegar a desoras.
(Tradução: Thiago de Mello).
Mario Benedetti, poeta uruguaio -- CADA VEZ QUE ALGUÉM MORRE
Cada vez que alguém morre
digo alguém a quem amo
sinto que meu pai torna a morrer
será porque cada dor recente
traz a marca de uma dor antiga
por exemplo este dia em que árvore alguma
está de verde e não ouço os latidos
da memória constelada
e um só cachorro uiva por via das dúvidas
torna a meter-me n aquele outro
interminável em que meu pai
se foi mudando lentamente
de bom velho em coisa pouca
de coisa pouca em queixa imóvel
de queixa imóvel em resto inútil.
(Tradução: Thiago de Mello).
digo alguém a quem amo
sinto que meu pai torna a morrer
será porque cada dor recente
traz a marca de uma dor antiga
por exemplo este dia em que árvore alguma
está de verde e não ouço os latidos
da memória constelada
e um só cachorro uiva por via das dúvidas
torna a meter-me n aquele outro
interminável em que meu pai
se foi mudando lentamente
de bom velho em coisa pouca
de coisa pouca em queixa imóvel
de queixa imóvel em resto inútil.
(Tradução: Thiago de Mello).
Jorge Arbeleche, poeta uruguaio -- FESTA
porque venho de um lugar
onde parece que sempre vai chover
e a água se resolve em pedra e bruma
porque volto
para onde meus vivos vivem
onde meus mortos jazem sob ciprestes
de opaca raiz escura e sobem
azuis e ondulantes debaixo do céu
de esmalte de um céu distante
para cingir as cinturas
como adolescentes alvoroçando o ar
como uma Santa Rita com seu laço de amor,
enamorados
no meio exato da luz alegre
porque volto a meus lares
onde o mundo é festa
quando o azeite de ouro dos dias
se cozinha o alho da vida
o mundo é festa
quando a montanha ama se ama com a nuvem
sob o branco sorriso dos deuses
quando os rios copulam
com a lava escondida das rochas
quando a árvore avermelhada do outono estende
para o verão os brotos germinais
que balançarão a brisa excitada
pelo salto suspenso do gamo
o vertical aroma do jasmim
e a perfurante pecunha do bisonte.
O mundo é festa.
(Tradução: Thiago de Mello).
onde parece que sempre vai chover
e a água se resolve em pedra e bruma
porque volto
para onde meus vivos vivem
onde meus mortos jazem sob ciprestes
de opaca raiz escura e sobem
azuis e ondulantes debaixo do céu
de esmalte de um céu distante
para cingir as cinturas
como adolescentes alvoroçando o ar
como uma Santa Rita com seu laço de amor,
enamorados
no meio exato da luz alegre
porque volto a meus lares
onde o mundo é festa
quando o azeite de ouro dos dias
se cozinha o alho da vida
o mundo é festa
quando a montanha ama se ama com a nuvem
sob o branco sorriso dos deuses
quando os rios copulam
com a lava escondida das rochas
quando a árvore avermelhada do outono estende
para o verão os brotos germinais
que balançarão a brisa excitada
pelo salto suspenso do gamo
o vertical aroma do jasmim
e a perfurante pecunha do bisonte.
O mundo é festa.
(Tradução: Thiago de Mello).
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