quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

365 dias com poesia, 28 de fevereiro de 2013 -- comoção

comoção


A noção do futuro vem com o tempo passado
Explico
Os jovens não têm conhecimento do futuro porque ainda não tiveram necessidade de ter esperança se fixam no presente como se não houvesse amanhã e quando acordam -- ou seja, amadurecem, por acúmulo de tempo --, é que percebem que a vida tem um único rumo, certo e verdadeiro

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Francisco Matos Paoli, poeta portoriquenho

Porque sou o poeta,
de quem a palavra burla,
preparo o céu para este mundo vão.

E quando chocam os seres,
que impassível evasão, que pavio de chama
enterrada,
que decisão baldia
querer que todo poema se levante do ruído
e possa representar a ideia,
o fantasma infinito dos voos,
a eucaristia que se reconhece
pela maneira de partir o pão.

Sei que o vizinho faz uum esforço
grande
para ser homem,
sei que devo falar com harmonia,
apaziguar o leão que devora o crepúsculo.

De repente me eterneço,
me lanço na corrente nobre,
espanco os astros com a mão e digo:
melhor é o silêncio quando se está morto
e nem podemos melhorar o dia
comum
preso à nossa lágrima.

Ma tenho que lutar e lutar.

Lúcifer é a incomunicação,
o fácil soletrar que idiotiza,
o sedente que
por abundância de atmosfera
põe a perder o pranto,
essa tatuagem do esquecimento
que ainda fica no encarnado.

Quisera viver
sem ter de ser profeta,
estar aberto na água como a flor de lótus,
perder o rstro da noite,
não sustentar mais a pérola do absimo,
fugir para o cafezal florido
que louva em simplicidade.

Mas é impossível, Deus meu.

Se não enlouqueço agora,
O que será do sêmen da imagem?
Para que desejo o endurecido
símbolo dos grandes congelados da história?

Para que sou farsante
Que se desvie na memória fugidia,
Todo rodeado de margens,
Todo povoado de insbstância,
Todo clamante no deserto.


(Tradução: Thiago de Mello).

Manuel Del Cabral, poeta dominicanense -- AR

Numa esquina está o ar
de joelhos...
Dois sabres analfabetos
o vigiam.

Eu sei porém que é do povo
minha voz bem levantada.
Dá fala aos mortos sem cruzes
minha guitarra.

Pedro se chamam os ossos
daquele que cruz não teve.

Mas agora a terra inteira
se chama Pedro.
Aqui está o ar em seu lugar
e está inteiro...

Aqui...
Madeira de carne alta,
terra solta,
minha guitarra.


(Tradução: Thiago de Mello).

Juana de Ibarbourou, poeta uruguaia -- A NOITE

A fábula do dia
Termina na garganta da tarde
Detúnica roxa. Somente arde
A última palavra desmedida,
A do amor que não se acaba nunca,
Final mentira.

A noite, besta triste.

Chega insone e calada.
Nem um anjo a acompanha,
Nem a esperança sabe a sua medida.
Quando a luz retorna
E a aljôfar adoça as graminhas
Da aurora, sempre desesperada,
Se enforca no cipreste da manhã.

A noite, besta ávida.

E de sua morte se alça o novo dia
Fatigado de dores e enganos.


(Tradução: Thiago de Mello).

Fernando Pereda, poeta uruguaio --SUCESSOS REAIS

A José Bergamim


Essa hora que não sabemos
pode chegar a desoras,
e de uma aurora a outra aurora
chegar quando não sabemos.

Quando a alma já nem suspira
para saber se está ouvindo
notícias que vêm da cinza.

Cantar e ressuscitar?
Quem cantando assim esquecera
passos de sua caveira!
Não basta ressuscitar.

Não basta. Cuidado, amor:
porque essas cores finais
não parecem naturais.
E entre contigo, entre amor,
minutos inventaremos
se nem a hora sabemos.

Se cob erta ou descoberta
pode ela chegar mais cedo,
diz adeus com tua mão
o fogo que mais desperta,
como estar queimando alerta?
que de uma aurora a outra aurora
pode chegar a desoras.


(Tradução: Thiago de Mello).

Mario Benedetti, poeta uruguaio -- CADA VEZ QUE ALGUÉM MORRE

Cada vez que alguém morre
digo alguém a quem amo
sinto que meu pai torna a morrer
será porque cada dor recente
traz a marca de uma dor antiga

por exemplo este dia em que árvore alguma
está de verde e não ouço os latidos
da memória constelada
e um só cachorro uiva por via das dúvidas
torna a meter-me n aquele outro
interminável em que meu pai
se foi mudando lentamente
de bom velho em coisa pouca
de coisa pouca em queixa imóvel
de queixa imóvel em resto inútil.


(Tradução: Thiago de Mello).

Jorge Arbeleche, poeta uruguaio -- FESTA

porque venho de um lugar
onde parece que sempre vai chover
e a água se resolve em pedra e bruma

porque volto
para onde meus vivos vivem
onde meus mortos jazem sob ciprestes
de opaca raiz escura e sobem

azuis e ondulantes debaixo do céu
de esmalte de um céu distante
para cingir as cinturas
como adolescentes alvoroçando o ar
como uma Santa Rita com seu laço de amor,
enamorados
no meio exato da luz alegre

porque volto a meus lares

onde o mundo é festa
quando o azeite de ouro dos dias
se cozinha o alho da vida
o mundo é festa
quando a montanha ama se ama com a nuvem
sob o branco sorriso dos deuses
quando os rios copulam
com a lava escondida das rochas

quando a árvore avermelhada do outono estende
para o verão os brotos germinais
que balançarão a brisa excitada
pelo salto suspenso do gamo
o vertical aroma do jasmim
e a perfurante pecunha do bisonte.
O mundo é festa.


(Tradução: Thiago de Mello).