terça-feira, 2 de abril de 2013

Paul Auster, poema 22 do livro DESTERRAR

22.

Os mortos morrem ainda: e neles,
os vivos. Todo o espaço
e os olhos caçados
pelos frágeis instrumentos, confinados
a seus hábitos.
Respirar é aceitar
essa falta de ar, o único alento,
buscamos nas frestas
da memória, no lapso que fende
essa língua de rusgas, sem a qual a terra
teria concedido augúrio de maior vigor
por arrasar os pomares
de pedra. Nem
o silêncio me persegue.


Tradução: Caetano Galindo.

Paul Auster, poema 13 do livro DESTERRAR

13.

Outro do eu: ou eixo
irmão de sombra, nascido bem
onde o medo é mais negro -- eu vivo´
para ser teu crivo.
Raspando, como de centelhas
que carpem, como da lama, ondas
de juncos que acima se eriçam
na manhã escaldante -- cresceríamos
por ser partes
dessas coisas. Invisíveis
afinal, como este sangu, enterrado
sob perdas que se cerzem
em escaras. Como os não-abortos
que conosco viverão
de pé no clarão
deste lúbrico e ficto sol.


Tradução: Caetano Galindo.

Paul Auster, poema 5 do livro DESTERRAR

5.

Noite, como que um gosto
por dentro. E de nós, cada mentira
que a língua saberia
quando se recolhe e afunda
em seu veneno.
Dormiríamos, lado a lado
com tal fome, e neste fruto,
nossa luta, viraríamos o nome
do que nomeamos. Como se um crime, sonhado
por nós, pudesse maturar a frio -- e derrubar
as negras árvores, espeinhos,
que drenam a história dos astros.


Tradução: Caetano Galindo.

365 dias com poesia, 02 de abril de 2013 -- VERÃO

VERÃO


A Rainer Maria Rilke

meço o tempo
pelos olhares de contas em que aconteço
espremo em mim verdades
que ainda não testei
espero e sei
que esperar é crescer
(cantar é crescer)
como a seiva de uma árvore estrangeira
estranhei as poucas folhas de primavera que chorei...

(os verões verão que esperei)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Paul Auster, poema 4 do livro DESTERRAR

4.

Váticos lábios, desmamados
de imagem. O mudo
aqui, que aguarda, qual urna,
encantado. A praga transborda
profecia: a rosa glacial
lega abrolhos ao alento
que lida rumo a olho
e oblívio.
Há que só nos prepararmos.
Desde o primeiro passo, nossa voz
está em conluio
com as pedras do campo.


Tradução: Caetano Galindo.


Paul Auster, poema 3 do livro DESTERRAR

3.

A via cega se grava
em tua mão: leva à voz
que vendeste, e vai sangrar, uma vez mais
no forcado forjado no sono deste
braile. Um alento
escala o pavio deste meu balbucio,
e acende o ar que nunca se vai
retratar. Teu corpo é teu próprio
fardo medido. E caminha com o peso
do fogo.


Tradução: Caetano Galindo.

365 dias com poesia, 01 de abril de 2013 -- Criança-esperança

Criança-esperança


À Beatriz Souza

Bonito ver na criança
Um olhar sem esperança
Um olhar que não anseia por esperança
Porque ainda não se dá conta da dificuldade da escolha
De estar vivo
Bonito ver na criança um olhar sem esperança
Porque puro
Único
Livre
Um olhar do e no presente de estar vivo
Um olhar que não anseia o futuro
Um olhar apenas um olhar
Que nos dá
Esperança de continuar

(apenas um olhar azul)