sábado, 2 de março de 2013

Elvio Romero, poeta paraguaio -- ÁGUA FORTE

Preso a madeiros em cruz,
um homem quieto,
sobre os dois paus de uma cruz
e cordas entre os ossos.

E, abaixo, o vento.
Minha terra acaso atada
como um tambor de couro
sobre os dois paus de uma cruz.

Em frente, o vento.

A pátria inteira no chão
Sobre os dois paus de uma cruz.

E, em cima, o vento.


(Tradução: Thiago de Mello).

Cesar Vallejo, poeta peruano -- INTENSIDADE E ALTURA

Quero escrever, porém me sai espuma,
quero dizer mitíssimo e me atolo.
Não há cifra falada sem ser soma
nem pirâmide escrita sem cogoilo.

Quero escrever, porém me sinto puma,
quero ter louros, porém me encebolo.
Não há tosse falada além da bruma,
nem deus nem filho seu sem desabrolho.

Vamos, então, por isso, comer erva,
carne de pranto, fruta de gemido,
nossa alma melancólica em conserva.

Nos vamos, vamos, porque estou ferido;
vamos beber o que já foi bebido
e vamos, corvo, fecundar a corva.


(Tradução: Thiago de Mello).

Carlos Germán Belli, poeta peruano -- CEPO DE LIMA

Como crista de galo apunhalado
uma vasta, pelanca granulada
excessiva lhe pende na garganta

e na sola das minhas duas plantas
cascões, que não de gesso, mas de carne
como murchos escombros de uma casa.

Mas por que estes cascões, ásperos montes
e tão feia pelanca, mal meu grado
se magro nem curvado velhos sou?

E por teu cepo, ai Lima, muito sei
que tanto berço quanto tumba é sempre
para quem nasce, vive e morre aqui.


(Tradução: Thiago de Mello).

Arturo Corcuera, poeta peruano -- BALADA DA ÚLTIMA OFERENDA

Me nego a que apodreçam estas veias
pelas quais meus pais e outros meus
navegam vindo de tão longe;
não quero um final assim para estes olhos
com os quais vejo e choro;
que estes pés
que bebem fatigados sobre a terra
a sede dos caminhos;
não se volverão carniça nem merenda
de vermes este cérebro
nem este coração quando fiquem sem irrigação
imóveis;
nasceram meus braços para abraçar. Chegará o dia
de se abraçar; incinerai o que reste
deste corpo.
Não sabe fazer outra coisa senão arder,
Este é o seu destino,
Este será o incenso que oferecerei aos deuses.

(Tradução: Thiago de Mello).

365 dias com poesia, 02 de março de 2013 -- infinitivos

infinitivos


Violência e urgência
No silêncio que precede os incêndios
Água pura de puro instinto
Apaga
Verbos infinitivos
Que exalam
Paz e calma
Após
Cachoeira de significados infinitos

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cesar Calvo, poeta peruano -- PARA ELSA, POUCO ANTES DE PARTIR

(fragmentos)

Porque escrevo estas linhas não somente com minha vida
mas com o respiro de todos os fantasmas
que me amaram,
de todos os fantasmas que morreram e renasceram
com o rosto voltadop para uma feroz desolação
culpando-me

Porque com culpa escrevo, com o lento rumor
de tuas roupas
caindo na penumbra de Genebra, quando ainda era
tempo
e os relógios ignoravam o perigo, suas agulhas
como o abraço de um náufrago na feliz profundidade,
minha boca perseguindo teu ventre no silêncio
que precede os silêncios
e as almofadas úmidas e os olhos que não verei nunca
mais
girando nos espelhos na noite infinita.
(...)

Já me esquecera de algo tão simples e verdadeiro
como beber um vaso de água, levantar-se na sombra, dos quartos emprestados, deixar correr o tempo
ainda entre sonhos e logo acordar com a sede de
teu pescoço

Eu me esquecera que a vida também está feita de
todos esses ínfimos, esses heróicos acontecimentos
que se cumprem mal sabendo
entre um corpo desnudo e outro corpo desnudo,
entre o leito do rio e o vaso da boca.
(...)

Me esquecera de escrever simplesmente,
como quem bebe
ou ama, sem que o Olimpo me suba à cabeça.

Me esquecera de que um poema se prepara
com minuciosa alegria
como um presente que já ninguém espera,
e se modela com urgência
e violência, com irrepetível, com irremediável
ternura,
como fazer o amor com uma mulher
que vai morrer amanhã.


(Tradução: Thiago de Mello).

365 dias com poesia, 01 de março de 2013 -- dentista

dentista


A Leandro Passos

não sei se devo falar...às vezes me vejo sendo um velho homem querendo relembrar e da lembrança gostar de chorar esperança de tudo aquilo que me trouxe até aqui e me fez estar ainda aqui ferido mas sorrindo dentro das minhas parcas possibilidades todo dia voo e voo como só uma borboletra poderia voar em letras encontro sempre um caminho de volta e me pacifico esperando que outros olhos vejam tudo aquilo que estou plantando e não são sonhos desculpem não posso concordar com uma palavra que engorda mas minimiza o jardim de doces em que estou cativando um futuro menos duro mais ou menos como um dentista que arranca os dentes de leite porque sabe que logo num piscar de olhos aquelas crianças que sangram serão adultos que sangram esse desejo de ver o que está a me esperar que chamam de esperança chamo de vontade e calor um sol por isso durmo sem cobertor e me sinto tranquilo quando alguém desconhecido vem em minha direção como se houvesse uma conspiração de emoção como se todos já soubessem que um poeta só morre por falta de crença