quarta-feira, 3 de julho de 2013

365 dias com poesia, 03 de julho de 2013 -- CAMINHANDO E RIMANDO

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CAMINHANDO E RIMANDO

nenhum olhar atravessado nenhuma lei nem a do
silêncio nenhum carro nenhum engarrafamento nenhum
emprego nenhum desemprego nenhum sim muito menos
um não nenhum montão de coisas ruins nenhuma crítica
nem mesmo um comentário de contrários nenhum podia
ser melhor nenhum Bon Jovi nenhum fresco som da
garotada que ainda não sabe que está errada nenhum zero
nenhum universitário seja forró seja sertanejo nenhum
realejo nenhum filho de famoso nenhum colosso de osso
nenhuma gravadora equivocada nenhum bando muito
menos uma banda...

Do livro RASCUNHOS POÉTICOS, de 2012.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Ruth de Aquino, jornalista


Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça. Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita.
Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa?
Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar?
O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que “Sarney não pode ser julgado como homem comum”...
O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, “o novo”... O Lula que se uniu “aos picaretas do Congresso”... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas?
 Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.
A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de “mãe do PAC”. Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de representatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando ela foi eleita.

Ruth de Aquino, Revista Época.

José Casado, jornalista


Atropelados pela História

Colunista analisa onda de protestos em países da América do Sul

As pessoas nas ruas pedem mais investimentos em Saúde, Educação, Saneamento e Transporte. Dilma Rousseff está há uma década no centro do poder, mas nesse período o governo que gerencia não conseguiu sequer gastar seis em cada dez reais separados no Orçamento da União para investimentos em Saúde; cinco em cada dez reais do que foi autorizado para gastos com Saneamento; quatro em cada dez reais previstos para aplicação em Educação e Transportes.
Em resposta às ruas que pedem mais investimentos em Saúde, Educação, Saneamento e Transporte, na semana passada Dilma Rousseff ofereceu, primeiro, uma Constituinte. No dia seguinte, mudou para um plebiscito. E é possível que em mais alguns dias apareça com a ideia de um referendo…
Ao Sul, os panelaços se tornaram rotineiros, indicando insatisfação com o aumento da inflação e a escassez de Saúde, Educação, Saneamento e Transporte.
Em troca, Cristina Kirchner oferece mudar de Buenos Aires para La Plata o monumento a Cristóvão Colombo instalado há 92 anos numa praça atrás do palácio de governo, substituindo-o por uma escultura doada pelo boliviano Evo Morales.
Os protestos por mais e melhor Saúde, Educação, Saneamento e Transporte também fazem parte da paisagem da Bolívia, Chile e Venezuela.
O boliviano Evo Morales oferece, em troca, 1.203 estádios e canchas esportivas a um custo quatro vezes maior que o investimento total previsto em seus 370 projetos de Saneamento. Nos últimos cinco anos, o governo Morales supostamente investiu US$ 439 milhões em um programa de obras. Supostamente porque, além de questões físicas (projetos nunca iniciados ou simplesmente abandonados), há problemas estatísticos e de tesouraria básica - o dinheiro evaporou sem qualquer tipo de controle público, muito menos prestação de contas.
Já o chileno Sebástian Piñera oferece à massa sedenta de Saúde, Educação, Saneamento e Transporte, a “preservação do legado” socioeconômico da era Pinochet - por isso, sugere o voto em seu partido (Alianza) na próxima eleição presidencial. Até lá, vai assistir à gradativa submersão do próprio governo nos jatos d'água disparados diariamente pela polícia contra estudantes rebelados nas ruas.
Na Venezuela é um pouco diferente. Ali, as ansiedades coletivas do momento estão reduzidas à emergência diária da falta de… papel higiênico. Educação, Saúde, Saneamento, Transporte passaram momentaneamente ao segundo plano das preocupações dos venezuelanos, cujo cotidiano já estava dividido entre apagões e a procissão pelos supermercados de prateleiras vazias em busca de comida.
Na semana passada Nicolás Maduro, presidente de questionada legitimidade, destacou um ministro para perguntar às ruas: “Vocês querem Pátria ou papel higiênico?”. Em seguida, saiu em viagem pelo mundo. Do exterior, de vez em quando, manda a todos “um abraço de amor chavista”.
O que move a indignação nas ruas e nas urnas, lembrou o sociólogo catalão Manuel Castells em entrevista ao repórter Maurício Meirelles, "é o ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários".
A América do Sul, hoje, é caso exemplar. As pessoas continuam precisando de mais investimentos em Saúde, Educação, Saneamento e Transporte. Em alguns casos, até de papel higiênico. Mas nesse pedaço do planeta, governantes atropelados pela História insistem em revogar as leis básicas de Galileu e Copérnico, sobre o sistema heliocêntrico no qual a Terra gira em torno do Sol.
Para eles, o universo é antes de tudo egocêntrico. E a culpa, se e quando existe, é do povo, a quem sempre cabe pagar a conta.

José Casado , O Globo, em 02/07/13.

Drummond e Eu


Drummond e Eu

Dilma tem o azar do bom aluno que não passa no vestibular
Quando Chavez tornou Lula um estadista
Ella achou que haveria facilidade na administração do país com os conselhos do mestre
Relaxou, viajou e criticou a gestão da Alemanha (?!)
Estava se achando
Esqueceu-se que a responsabilidade por tocar a padaria era dela
Que nunca havia botado a mão na massa
(Sim, porque ser meio que chefe de gabinete do mestre é ser uma secretária melhorada...ou piorada)
Inclusive, já devia estar pensando na reeleição
(defeito grave da democracia)
Enquanto sonhava com mais quatro anos de poder
Deixava escorrer pelas mãos
A inventada competência administrativa
Tão decantada pelo mestre e tão aceita por nós eleitores
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

365 dias com poesia, 02 de julho de 2013 -- ALFINETE

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ALFINETE

Não tô nem aí se remete a Saramago se às vezes
lembra Pessoa estou aqui afogado em loas não quero
medalhas sei o tamanho do alfinete estilete entre os
dentes esse é meu nome os que sabem que não sabem
não escrevem por não terem coragem e eu sabendo
que sei escrevo sobre o que não sei não me vejo à toa
nesse mundo midiático em que a performance é medida
mais pelos amigos de bar do que pelo tamanho das letras
em todos os lugares é isso que faz funcionar a engrenagem
nunca direi nada contra isso ao contrário quero
descobrir para que lado é a maré e surfar de pranchão
não tô nem aí para sua opinião vou fazer de qualquer jeito
já aprendi nado de peito no leito deito e tremo a mão de
frio não me importo aprendi a escrever com calafrio
não preciso das condições ideais quem os tem? Comigo
é no ferro! passar bem

Do livro RASCUNHOS POÉTICOS, de 2012.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Set List (Pocket Show)




1 -- Contra;

2 – Brigas;

3 – Inútil;

4 – Little Wing;

5 -- À Cecília;

6 – Choro da Menina;

7 – Sweet Sina;

8 – Loucos;

9 – O Alvo;

10 – Sim;

11 – A Saudade/Blues do Medo;

12 – Truques;

13 – Jack Som;

14 – Não Vá Embora (Renata Rubim);

15 – Crazy.

365 dias com poesia, 01 de julho de 2013 -- CRISTÃO

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CRISTÃO

Nascido na Tijuca há quarenta e cinco anos roxo meio
torto como o anjo de Drummond tio bêbado quase se
matou de felicidade avó mãe e pai único filho durante um
período o doente da família depois disso tive tudo de
ameba a tifo rimos muito fomos felizes num apartamento
apertado de icaraí mudei aos dez e talvez isso tenha me
dado uma dor mudança de cor tamanho e quem não sabe
disso? Vinte poucos anos depois voltei pai e aflito com
meu destino não conseguia parar de me preocupar aos
quarenta a vida não demora a passar e quando dei por
mim não queria mais brincar de nada que não fosse
poesia e música onde estavam todos esses anos em que
fui seguindo sem um plano desenganado pelo estamos
seguindo como a vida nos leva e agora que sei o que
quero estou achando que ainda espero algo de que temo
o nome meu nome continua sendo marco aurélio cruz
plácido filho irmão marido pai e cristão até quando até
quando?

Do livro RASCUNHOS POÉTICOS, de 2012.