Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça.
Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou
sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para
protestar contra uma herança maldita.
Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no
país e no exterior? Só aparece na boa?
Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a
criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se
insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e
analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar?
O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da
ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o
ex-presidente do Senado sob o argumento de que “Sarney não pode ser julgado como
homem comum”...
O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, “o
novo”... O Lula que se uniu “aos picaretas do Congresso”... O Lula que quis
reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe
seu bloco na rua numa hora dessas?
Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava
sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem
Palocci, Lula impôs seu nome.
A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um
livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como
presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a
colocou nessa roubada de “mãe do PAC”. Sabe que recebeu uma herança de
corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de
representatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais,
impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes,
cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando
ela foi eleita.
Colunista analisa onda de protestos em países da
América do Sul
As pessoas nas ruas pedem mais investimentos em Saúde, Educação, Saneamento
e Transporte. Dilma Rousseff está há uma década no centro do poder, mas nesse
período o governo que gerencia não conseguiu sequer gastar seis em cada dez
reais separados no Orçamento da União para investimentos em Saúde; cinco em
cada dez reais do que foi autorizado para gastos com Saneamento; quatro em cada
dez reais previstos para aplicação em Educação e Transportes.
Em resposta às ruas que pedem mais investimentos em Saúde, Educação,
Saneamento e Transporte, na semana passada Dilma Rousseff ofereceu, primeiro,
uma Constituinte. No dia seguinte, mudou para um plebiscito. E é possível que
em mais alguns dias apareça com a ideia de um referendo…
Ao Sul, os panelaços se tornaram rotineiros, indicando insatisfação com o
aumento da inflação e a escassez de Saúde, Educação, Saneamento e Transporte.
Em troca, Cristina Kirchner oferece mudar de Buenos Aires para La Plata o
monumento a Cristóvão Colombo instalado há 92 anos numa praça atrás do palácio
de governo, substituindo-o por uma escultura doada pelo boliviano Evo Morales.
Os protestos por mais e melhor Saúde, Educação, Saneamento e Transporte também
fazem parte da paisagem da Bolívia, Chile e Venezuela.
O boliviano Evo Morales oferece, em troca, 1.203 estádios e canchas
esportivas a um custo quatro vezes maior que o investimento total previsto em
seus 370 projetos de Saneamento. Nos últimos cinco anos, o governo Morales
supostamente investiu US$ 439 milhões em um programa de obras. Supostamente
porque, além de questões físicas (projetos nunca iniciados ou simplesmente
abandonados), há problemas estatísticos e de tesouraria básica - o dinheiro
evaporou sem qualquer tipo de controle público, muito menos prestação de
contas.
Já o chileno Sebástian Piñera oferece à massa sedenta de Saúde, Educação,
Saneamento e Transporte, a “preservação do legado” socioeconômico da era
Pinochet - por isso, sugere o voto em seu partido (Alianza) na próxima eleição
presidencial. Até lá, vai assistir à gradativa submersão do próprio governo nos
jatos d'água disparados diariamente pela polícia contra estudantes rebelados
nas ruas.
Na Venezuela é um pouco diferente. Ali, as ansiedades coletivas do momento
estão reduzidas à emergência diária da falta de… papel higiênico. Educação,
Saúde, Saneamento, Transporte passaram momentaneamente ao segundo plano das
preocupações dos venezuelanos, cujo cotidiano já estava dividido entre apagões
e a procissão pelos supermercados de prateleiras vazias em busca de comida.
Na semana passada Nicolás Maduro, presidente de questionada legitimidade,
destacou um ministro para perguntar às ruas: “Vocês querem Pátria ou papel
higiênico?”. Em seguida, saiu em viagem pelo mundo. Do exterior, de vez em
quando, manda a todos “um abraço de amor chavista”.
O que move a indignação nas ruas e nas urnas, lembrou o sociólogo catalão
Manuel Castells em entrevista ao repórter Maurício Meirelles, "é o
ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos
problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus
salários".
A América do Sul, hoje, é caso exemplar. As pessoas continuam precisando de
mais investimentos em Saúde, Educação, Saneamento e Transporte. Em alguns
casos, até de papel higiênico. Mas nesse pedaço do planeta, governantes
atropelados pela História insistem em revogar as leis básicas de Galileu e
Copérnico, sobre o sistema heliocêntrico no qual a Terra gira em torno do Sol.
Para eles, o universo é antes de tudo egocêntrico. E a culpa, se e quando
existe, é do povo, a quem sempre cabe pagar a conta.
Dilma
tem o azar do bom aluno que não passa no vestibular
Quando
Chavez tornou Lula um estadista
Ella
achou que haveria facilidade na administração do país com os conselhos do
mestre
Relaxou,
viajou e criticou a gestão da Alemanha (?!)
Estava
se achando
Esqueceu-se
que a responsabilidade por tocar a padaria era dela
Que
nunca havia botado a mão na massa
(Sim,
porque ser meio que chefe de gabinete do mestre é ser uma secretária
melhorada...ou piorada)
Inclusive,
já devia estar pensando na reeleição
(defeito
grave da democracia)
Enquanto
sonhava com mais quatro anos de poder
Deixava
escorrer pelas mãos
A
inventada competência administrativa
Tão
decantada pelo mestre e tão aceita por nós eleitores
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?