segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cézanne, modulação

(...)
Cézanne descreve a Gasquet este difícil processo de "realização", desta feliz união entre percepção da natureza e criação artística, com o seu gesto característica: "Não deve haver um único ponto demasiado fraco, um orifício por onde se escape a emoção, a luz e a verdade. Eu domino toda a minha tela, ao mesmo tempo, globalmnete. Aproximo, com o mesmo impulso, com a mesma fé, tudo o que se dispersa. A natureza é sempre a mesma, mas nada resta dela, daquilo que nos aparece. A nossa arte deve provocar o calafrio da sua realidade, com os elementos e com a aparência de todas as transformações. A arte deve fazer-nos gostar dela eternamente. Se o mínimo elemento intelectual se mistura com ela, perde-se o "processo transformador", com o Cézanne chama essa conversõa de dados visuais em criação plástica.
A arte é uma harmonia paralela à natureza, diz Cézanne. O pintor deve limitar-se a copiar a natureza; deve interpretá-la, sem se dissociar totalmente de sua contemplação. Para Cézanne, o artista é semelhante a uma "placa sensível à luz", que deve banhar nas percepções da natureza. Depois, vêm o processo técnico, a escolha dos elementos, a transformação e a interpretação. Cézanne fala de dois processos simultâneos, de dois textos que devem conseguir sobrepor-se perfeitamente: "Ele conhece bem a sua língua, o texto que decifra, os dois textos paralelos, a natureza vista, a natureza sentida, a que está ali fora e a que está aqui dentro (batia na testa), ambas têm de se amalgamar, para durar, para viver, a vida da arte... a vida de Deus. A paisagem reflete-se, humaniza-se, é pensada dentro de mim. Eu, objetivo-a, projeto-a, fixo-a na minha tela.

domingo, 3 de junho de 2012

história não contada

a preocupação com o todo
e não com parte
é arte
arte é separar o joio do trigo
fazer sucesso é consequência do início
que tem de ter motivo
(todos querem entender o porquê)
o meio é o recheio da torta de seriedade e compreensão da própria história que produzirá outras histórias tão importantes quanto a da origem tão necessárias quanto aquela primeira que deu frutos tão grandiosa quanto o mundo que gerou tudo
o fim ninguém sabe ninguém viu
(ou melhor ninguém voltou para contar)

iNUsitado

numa carreira que começou fora de qualquer padrão toda ideia padrão é um padrão fora da curva de excelência uma ideia tem de agregar o risco inerente de ser diferente porque o simples fato de ser diferenciada trará à ideia um destaque para o conteúdo inusitado

rum ou ruim

(engraçado, só fui descobrir isso a exatos minutos atrás)

o mesmo tempo de fazer um poema bem feito
pode ser usado para um poema ruim
para tomar rum e dormir
ou para denegrir a imagem de alguém que nem ao menos conhecemos

trata-se de uma escolha que espelha o que pretendemos

solar

...e não há mais nada a dizer...

a não ser que...

por medo de morrer
se mata, se cala, se morre

entupimos nossos poros com inveja, calúnia, difamação
quando poderíamos inventar uma nova emoção

buscar uma estrela
alinhavar um poema
encontrar um novo sistema

solar

sábado, 2 de junho de 2012

cobertor

a natureza é o que é natural no ser humano
quando começamos a destacar qualidades de vida
que estão afastadas do caminho de terra batida
começamos a incorrer no perigo que é
não nos identificarmos com a natureza
e daí em diante
pretendermos nos afastar dela
isso serve também
para não nos identificarmos
como humanos
quando deixamos de
dormir, comer, conversar
para fingirmos que somos
andróides ou qualquer tipo de animal superior
quando no fundo
sabemos onde doi
um fim de noite
sem um cobertor (de orelhas)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

em lembranças

a bondade
no bonde foi embora
para uma rua de paralelepípedos
de Santa Teresa
se escondeu
do mundo de hoje
como uma criança se esconde
da mula-sem-cabeça do saci pererê ou da cuca
tentando sobreviver
em lágrimas
procurou se esfriar
em palavras
tentou traçar um mapa
que a levasse
àquela árvore
que ouvia o avô contar
frondosa natureza
que salvou com sua sombra a humanidade
que a marcava
em lembranças