segunda-feira, 30 de abril de 2012

o frio

funciona que é um absurdo, o frio
mudo
me põe para pensar
escrever
assustar
encontro-me com algumas recordações
cheiro de pipoca, filmes e uma porção de motivos para não andar na praia
a chuva ajuda a preguiça
tudo ajuda a angústia
de continuar
tudo funciona quando queremos parar

KAVÁFIS, poeta grego -- ARTISTA DE CRATERAS

Na cratera    pura prata
fatura em prol    do solar Heracleide
o gosto súpero    avulta:
vê! flores pulcras    arroios, arbustos,
no núcleo    o sumo púbere,
nu, erótico;    uma perna sub
merge na água    ainda. Ó memória,
em meus rogos,    eras arrimo ótimo! Queria a figura
do novato benquisto,    seu rosto, ícone exato.
Empresa sobre    difícil: quinze anos,
quase, nos    separam da jornada
em que derruiu na pugna    de magnésia, em pleno ofício.


Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- MAR MATUTINO

Deter-me aqui. Vislumbre um pouco a natura.
O rútilo blau do mar matutino,
a abóbada sem nódoa, a orla ocre. A tudo
embeleza a luz efusa.

Deter-me aqui. Me iluda um tal panorama
(verdade: estático, o vi fugaz);
um tal, e não, também aqui, as fantasmagorias,
as rememorações, a luxúria das miragens.



Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- RARIDADE

Quase um antepassado. Curvo e extênuo,
devastado pelo tempo e excentricidades,
sôfrego em sua cadência, cruza a viela.
Tão logo se recolhe à moradia,
com o intuito de ocultar a decrepitude e a idade,
pensa no que ainda tem dele a mocidade.

Efebos recitam sua poesia.
Seus vislumbres ocupam as retinas vivazes.
A fibra de suas psiques voluptuosas,
a carne rija e bem distribuída,
comovem-se com sua experiência de beleza.


Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- FUI

Não me retive. Abri-me inteiro e fui.
À voluptuosidade, real às vezes,
concretizada às vezes em meu cérebro,
fui, no luzidio pleno de uma noite.
Goles de vinhos encorpados, como sói ser
com quem desteme o prazeroso.

KAVÁFIS, poeta grego -- TEDIÁRIO

O enfado jornalário emula o enfado
jornalário. A idiotia reincide
no episódico, idiotia rediviva -
a minudência espetacular do vai e vem.

A mesmice mensal do mês.`Presumir o porvir não requer talento:
o torpor engravida a véspera.
E, vazio de amanhã, amanhece.


Tradução: Trajano Vieira.

KAVÁFIS, poeta grego -- Desejos

Feito os corpos que morrem juvenis e belos,
chorados à clausurade um mausoléu magno,
com pétalas à testa, com jasmim nos pés,
assim transcorrem os desejos que abortam,
alheios à volúpia de uma noite única,
ao rútilo clarão do seu amanhecer.



Tradução: Trajano Vieira.