terça-feira, 2 de novembro de 2010

CRISTALINOS

esse instante
único em que me vejo
pelos olhos cristalinos
de um filho
de cinco anos
sabedoria
do mundo na ingenuidade de uma criança feliz

AREIA MOVEDIÇA

queda d'água
minhas palavras
águas
turvas
muitas vezes
inundam
imundas
caem fortes e não respeitam hierarquias
afogam
tantos gansos
quanto apatias
palavras sãs
são águas
num mundo de areia movediça

RILKE 3

Mais uma prosa-surpresa:

" ...Ninguém pensaria em empurrar um cordoeiro, um carpinteiro e um sapateiro de sua atividade manual "para dentro da vida", a fim de que eles se tornassem melhores cordoeiros, carpinteiros e sapateiros. Também seria melhor deixar o músico, o pintor, o escultor trabalhar como devem. Apenas no caso do escritor, a atividade parece tão insignificante, tão lograda desde o início (qualquer um pode escrever) que algumas pessoas pensam que quem se ocupa dela cairia imediatamente num jogo vazio, se fosse deixado sozinho com seu ofício! Mas que equívoco! Saber escrever é igualmente um "artesanato difícil" , tanto mais quanto o material das outras artes foi, desde o início, apartado do uso diário, enquanto a tarefa do poeta se intensifica com o dever solitário de distinguir de forma completa e essencial sua palavra das palavras empregadas na troca e na comunicação simples.".

RILKE 2

Nos diz o mestre:

"Com frequência me pergunto se a realização tem, de fato, algo a ver com os desejos. Sim, enquanto um desejo for fraco, ele será como uma metade e precisará da realização como de outra metade, para ser algo independente. Mas os desejos podem se expandir de forma tão maravilhosa até algo total, cheio, intacto, que não se deixa mais complementar de jeito nenhum, que cresce e se forma e se preenche apenas por si mesmo. Às vezes seria possível pensar que a causa da grandeza e intensidade de uma vida foi justo o fato de ela ter se envolvido com desejos imensos, que do interior impeliram ação após ação, efeito após efeito vida adentro, os quais mal se lembravam dos intentos originais dos desejos. E estes, puramente elementares, como uma forte queda-d'água, transformaram-se em ato e cordialidade, em existência imediata, em otimismo, dependendo de como o acontecimento e a oportunidade os acionaram.".

Poemas do feriado -- SONHOS

Agora sei porque escrevo

Escrevo por medo

Medo de sabermos

De escondermos

De sofrermos

Ermos

restos

dos segredos

Dos desejos

Dos medos

Temos o que temer?

Temos que escrever

Livre

Sonho

Solto

Sonho

Sonho

sonhos

Poemas do feriado -- MAR VERDE

Num mar verde

Nasceram

Violetas

Flores-do-campo

Brancas

Mar

sem tubarões

sem tufões

mar verde

de verdes esperanças

de verdes plantas

de impossíveis

peixes verdes

Poemas do feriado -- CIGARRAS

Cigarras

Viciadas

Não param de cantar

Enquanto isso

Formigas incríveis

Continuam a trabalhar

A batalhar pela pequena vitoria diária de apenas continuar