quarta-feira, 3 de junho de 2015

365 dias com poesia, 03 de junho de 2015 -- urbano

urbano


A Henri Matisse

"tornar doce e saboroso tudo o que é amargo"
fácil?
doloroso processo
de inclusão
dentro de mim
borbulham desilusão
pavor
credo
estranho sentimento de nexo
perto
e tão difícil de alcançar
a mim mesmo
sendo
humano
e tendo
urbano ouvido de surdo
curto raciocínio absurdo
"se pudesse me isolar seria melhor!"
como?
nunca
(manca ilusão)
não nascemos para provar o gosto amargo da solidão! 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Teruz -- Plácido, poema: 500

500


...é preciso dizer tanta coisa...

a primeira que não há regra para ser poeta
lia absurdos
de que um poema não poderia começar com letras minúsculas que nunca poderia começar por reticências
que se não tivesse rimas era prosa
que se tivesse palavrão era troça
lia tanto absurdo
que não escrevia
aí, mais uma vez, a idade me ajudou
quando tive de começar a expurgar alguns sentimentos mal resolvidos
(isso também alguns críticos acham errado)
vi que não podem haver regras numa carreira de sentimento
sim
porque escrever poesia
não é uma carreira literária
apesar de utilizarmos palavras
que muitas vezes ganham novo sentido, ajudando a renovação da linguagem, dizem
esse não é o cerne da questão
o cerne da questão
é a exposição de sentimentos
experiências
momentos
que deixaram e deixam o poeta
perplexo
(um poema é o susto impresso do poeta!)
soltar o verbo
desanuviar o amplexo
e discutir até à exaustão
nossos dramas cotidianos
que aprendemos a fingir não existir
essa é a motivação da poesia
se vai ter valor teórico
como recriação da linguagem
se vai ser um novo patamar nas relações linguísticas
se vai trazer luz à nossa vã filosofia
são outros quinhentos... 

Teruz -- Plácido, poema: Filosóficas dúvidas

Filosóficas dúvidas


Amor é amor, não é poesia, não é Deus?
Deus é Deus, não é poesia, não é amor?
Poesia é poesia, não é amor, não é Deus? 

Teruz -- Plácido, poema: cenário

cenário

pisamos no broto de feijão
pequena amostra da natureza
porque estamos desejando sonhar grande
do tamanho das árvores que de longe estão morrendo
por falta de chuva
por falta de pássaros
por falta de sabermos de que somos nós mesmos que estamos acabando com a natureza

ao desejá-la apenas como cenário

Teruz -- Plácido, poema: a menina

a menina


entre a solidão da dor e do amor
nasce
uma menina
a rima
linda
com os olhos do pai
e os lábios da mãe
chora de fome
como o pai escreve
de fome
o homem some com o medo e produz desejos 

Teruz -- Plácido, poema: Canto II

Canto II

O pássaro canta porque necessita expressar-se para procriar
Não quer fazer bonito não treina o assobio
Apenas canta naturalmente canta para cativar o futuro
Essa nossa esperança


(O canto do artista não é canto é grito do texto suprimido pela tristeza da maldade da indiferença duma sociedade careta que ama os animais que não respondem...)

Teruz -- Plácido, poema: infinito solo

infinito solo

Solo
Cello
Calma
Olhos envoltos em lágrimas

Silêncio
Lembranças
Areia bola
Infância

Joelhos doendo
Garganta doente
Dor de dente

Medo
Medo
Crescendo

Lua crescente
Olhos minguantes
Adulto pensante

Camisas com pingos
Corpo dolorido
Cérebro oprimido

Num dia lindo tudo será finito

Penso e frio sigo sorrindo sem graça...